Hoje cruzei-me com um texto muito interessante sobre as pressões existentes "para fazer coincidir igreja e sociedade", cuja leitora recomendo já que me revejo na maior parte das ideias aí expostas. De facto, é impossível ignorar toda a evolução da igreja católica ao longo de mais de dois milhares de anos; evolução essa que foi sem dúvida essencial para que esta se mantenha como uma das principais referências religiosas do século XXI a nível mundial.
A palavra evolução encontra-se destacada pois de facto é dessa forma que a Igreja (e os próprios fiéis) geralmente justificiam alterações (drásticas, por vezes) nos comportamentos condenados, aceites ou recomendados por esta. Assim como nos comportamentos que esta adopta. E, após cada evolução, parece que a Igreja se encontra mais iluminada, que aquilo que defendeu durante vários séculos estava obviamente errado e que, agora que o conseguem ver, isso é claro como água.
A realidade, contudo, é outra. A Igreja simplesmente adapta as suas crenças quando estas entram em conflito demasiado vincado com a sociedade, de modo a não perder com o contacto com esta. Mas os livros religiosas em que estas se baseiam continuam a ser os mesmos. As suas palavras não mudaram. Serão as escrituras tão impenetráveis que, passadas largas centenas de anos, continuemos a re-interpretá-las radicalmente? Claro que não. A realidade é que já pouco delas se aproveita na Igreja de hoje em dia, e menos ainda se aproveitará na do futuro. As passagens indesejáveis (por vezes até contraditórias com outras passagens) são rapidamente qualificadas de metafóricas, e re-interpretas de formas que muitas vezes roçam o ridículo. Por vezes, parece que as pessoas pensam que a metáfora é uma figura de estilo que consiste em dizer algo quando na realidade se pretende dizer o oposto. Hint: não é.
Um comentário qualquer a uma notícia do jornal online observador previa que em 2100 as únicas organizações ainda existentes seriam a Igreja Católica e o PCP, por serem as únicas que se mantêm fiéis aos seus ideais. É possível, de facto, defender que a Igreja sempre se manteve fiel aos seus ideais. Mas apenas tendo em conta que os alterou sempre que conveniente ou necessário. É muito provável que a Igreja Católica ainda exista (e de forma expressiva) em 2100, sim, mas precisamente pelo motivo oposto. O que a torna uma organização tão resistente ao passar dos anos é precisamente a forma como consegue ir descartando as crenças e idealogias quando estas passam a ser consideradas obsoletas. Na realidade, não se deveria dizer que a Igreja Católica tem centenas de anos, já que a Igreja que conhecemos muito pouco terá em comum com a sua progenitora.
Também interessante no mesmo texto é a referência ao esforço da parte da sociedade de incluir a Igreja. De facto, parece-me que a Igreja usufruiu do mesmo estatuto bonificado de certos bancos: é demasiado grande para falhar.
sábado, 25 de outubro de 2014
domingo, 28 de setembro de 2014
Transparência nas Greves
Na quinta-feira passada teve lugar mais uma greve dos trabalhadores do metro de Lisboa, esta total (24h). Diho mais uma porque entre greves totais, parciais e plenários dos trabalhadores deve ser raro o mês em que não haja falhas.
A greve deveu-se, obviamente, a questões salariais e de condições de trabalho. Não vou aqui discutir ou analisar a sua legitimidade. Vou antes criticar a forma como trabalhadores, sindicatos e jornalistas tentaram encobrir essas motivações, substituindo-as por outras mais nobres.
Uma das razões invocadas oficialmente é a de reivindicar um "investimento que permita a reposição de um serviço com a qualidade e a segurança a que os utentes têm direito". Parece bonito. Mas não será essa uma luta dos utentes, ou dos cidadãos em geral, e não dos trabalhadores? A tentativa de tentar mascarar a greve como uma acção pró-utente revela-se patética a qualquer pessoa que se dê ao trabalho de perguntar a opinião a um utente.
Outro dos motivos invocados é o facto de os trabalhadores e sindicatos não concordarem com a eventual privatização do metro de Lisboa. Mas, que eu sabia, nenhum deles exerce qualquer cargo executivo na empresa. Pode não ser intuitivo, mas eles têm tanto direito a opinar sobre e influenciar essa decisão como eu; isto é, quando o fazem fazem-no enquanto cidadãos a criticar a gestão de uma empresa pública e não enquanto trabalhadores da mesma. Seria equivalente a fazerem greve devido ao elevado valor das taxas moderadores no SNS, ou ao aumento do IVA da restauração. Não faz sentido. Similarmente à motivação anterior esta luta, a existir, é uma luta dos cidadãos em geral e a realizar com os meios ao seu dispôr (protestos, manifestações, urnas, etc...).
Há que respeitar o protesto (cuja forma está consagrada na lei), dos trabalhadores. Mas façam-no de forma aberta e transparente, não inventando motivos rebuscados para dizerem que estão a defender os direitos de outrem.
Filipe Baptista de Morais
A greve deveu-se, obviamente, a questões salariais e de condições de trabalho. Não vou aqui discutir ou analisar a sua legitimidade. Vou antes criticar a forma como trabalhadores, sindicatos e jornalistas tentaram encobrir essas motivações, substituindo-as por outras mais nobres.
Uma das razões invocadas oficialmente é a de reivindicar um "investimento que permita a reposição de um serviço com a qualidade e a segurança a que os utentes têm direito". Parece bonito. Mas não será essa uma luta dos utentes, ou dos cidadãos em geral, e não dos trabalhadores? A tentativa de tentar mascarar a greve como uma acção pró-utente revela-se patética a qualquer pessoa que se dê ao trabalho de perguntar a opinião a um utente.
Outro dos motivos invocados é o facto de os trabalhadores e sindicatos não concordarem com a eventual privatização do metro de Lisboa. Mas, que eu sabia, nenhum deles exerce qualquer cargo executivo na empresa. Pode não ser intuitivo, mas eles têm tanto direito a opinar sobre e influenciar essa decisão como eu; isto é, quando o fazem fazem-no enquanto cidadãos a criticar a gestão de uma empresa pública e não enquanto trabalhadores da mesma. Seria equivalente a fazerem greve devido ao elevado valor das taxas moderadores no SNS, ou ao aumento do IVA da restauração. Não faz sentido. Similarmente à motivação anterior esta luta, a existir, é uma luta dos cidadãos em geral e a realizar com os meios ao seu dispôr (protestos, manifestações, urnas, etc...).
Há que respeitar o protesto (cuja forma está consagrada na lei), dos trabalhadores. Mas façam-no de forma aberta e transparente, não inventando motivos rebuscados para dizerem que estão a defender os direitos de outrem.
Filipe Baptista de Morais
segunda-feira, 15 de setembro de 2014
Justiça Suspensa
A ex-ministra da educação Maria de Lurdes Rodrigues foi hoje condenada a três anos e seis meses de prisão, com pena suspensa. Certamente serão muitas as vozes que se revoltarão, dizendo que mais uma vez o poder ou as influências políticas safaram alguém de cumprir pena pelos seus crimes. Mas, vendo bem, o que não falta por aí são penas suspensas (outra, outra, ainda outra e uma notícia sobre o assunto), e parece-me que tão depressa são atribuídas a ex-ministros como ao Zé Povinho. O que não significa que não seja digno de indignação.
Afinal, qual a justificação para uma pena suspensa? A meu ver, esta seria apenas adequada a delitos considerados não graves, sendo uma espécie de segunda oportunidade concedida a um cidadão cumpridor que cometeu um pequeno deslize. Mas o caso que referi acima (assim como muitos outros) é de um crime que o tribunal considerou suficientemente grave para merecer vários anos de prisão. Anos. Um ano na prisão é, parece-me, um castigo bastante duro e não me parece de todo que encaixe nos candidados a pena suspensa que pintei acima.
Parece-me, sim, que as penas suspensas têm sido incentivadas por razões orçamentais, tanto por falta de espaço nas prisões como pelos custos associados à manutenção dos reclusos.
Na Justiça, como em tudo (mesmo na Saúde por muito que nos custe considerá-lo e admiti-lo) as questões orçamentais, que é como quem diz o custo do Sistema, não podem ser ignoradas. Contudo, a solução passa pela re-estruturação e, eventualmente, pela reconcepção do Sistema. Nunca pela perversão de alguns dos seus mecanismos de triagem/avaliação, dando a entender que estes são função do resultado desejado, e não vice-versa como deveria ser.
Filipe Baptista de Morais
Afinal, qual a justificação para uma pena suspensa? A meu ver, esta seria apenas adequada a delitos considerados não graves, sendo uma espécie de segunda oportunidade concedida a um cidadão cumpridor que cometeu um pequeno deslize. Mas o caso que referi acima (assim como muitos outros) é de um crime que o tribunal considerou suficientemente grave para merecer vários anos de prisão. Anos. Um ano na prisão é, parece-me, um castigo bastante duro e não me parece de todo que encaixe nos candidados a pena suspensa que pintei acima.
Parece-me, sim, que as penas suspensas têm sido incentivadas por razões orçamentais, tanto por falta de espaço nas prisões como pelos custos associados à manutenção dos reclusos.
Na Justiça, como em tudo (mesmo na Saúde por muito que nos custe considerá-lo e admiti-lo) as questões orçamentais, que é como quem diz o custo do Sistema, não podem ser ignoradas. Contudo, a solução passa pela re-estruturação e, eventualmente, pela reconcepção do Sistema. Nunca pela perversão de alguns dos seus mecanismos de triagem/avaliação, dando a entender que estes são função do resultado desejado, e não vice-versa como deveria ser.
Filipe Baptista de Morais
sexta-feira, 29 de agosto de 2014
Autoridade Alheia
No início do mês o cardeal patriarca de Lisboa comparou o "BES ao jogo Mikado". Porquê, nem me dei ao trabalho de descobrir. Não interessa. O que me parece interessante perceber aqui é porque raio está um dos líderes religiosos do país a pronunciar-se sobre um caso que diz respeito à economia e, eventualmente, à justiça do país.
Verdade seja dita, a culpa nem é do pobre homem mas do jornalista que o consultou neste assunto. Porque não perguntar antes à Susana Félix, ao Bruno de Carvalho ou, já que claramente não existe grande critério, a mim? Poderíamos considerar o acto de responder como criticável em si (já antes escrevi aqui a tremenda promiscuidade existe entre política e religião, sendo óbvio que poderia ter incluído mais áreas na lista), mas hoje vou antes chamar a atenção para a importância que as pessoas (sejam os próprios meios de comunicação social, ou o consumidor final) deram às suas palavras.
Este fenómeno de extrapolar a autoridade que uma entidade possui num campo para outros é conhecido, sendo estudado pela psicologia e explorado pelo marketing. Explica porque temos treinadores e jogadores de futebol (assim como actores de telenovelas) a protagonizarem anúncios a produtos financeiros, por exemplo.
Precisamente por ser um enviesamento de raciocínio bem conhecido, os meios de comunicação social deviam fazer os possíveis por proteger os utentes dos seus efeitos. Infelizmente, vende mais ter uma cara conhecida na televisão a pronunciar-se sobre seja que for. Ou talvez os próprios jornalistas estejam alheios ao disparate em que estão a incorrer. Espero sinceramente que os entrevistados (neste caso o patriarca) estejam, caso contrário seria uma clara demonstração de má fé (no pun intended).
Seja intencional ou não, há uma crise enorme de autoridade alheia, auto induzida/proclamada como incentivada pelos media. Não contribuamos nós também com para esta totalmente arbitrária distribuição de autoridade; sejamos critícos e retiremo-la quando não merecida.
Filipe Baptista de morais
Verdade seja dita, a culpa nem é do pobre homem mas do jornalista que o consultou neste assunto. Porque não perguntar antes à Susana Félix, ao Bruno de Carvalho ou, já que claramente não existe grande critério, a mim? Poderíamos considerar o acto de responder como criticável em si (já antes escrevi aqui a tremenda promiscuidade existe entre política e religião, sendo óbvio que poderia ter incluído mais áreas na lista), mas hoje vou antes chamar a atenção para a importância que as pessoas (sejam os próprios meios de comunicação social, ou o consumidor final) deram às suas palavras.
Este fenómeno de extrapolar a autoridade que uma entidade possui num campo para outros é conhecido, sendo estudado pela psicologia e explorado pelo marketing. Explica porque temos treinadores e jogadores de futebol (assim como actores de telenovelas) a protagonizarem anúncios a produtos financeiros, por exemplo.
Precisamente por ser um enviesamento de raciocínio bem conhecido, os meios de comunicação social deviam fazer os possíveis por proteger os utentes dos seus efeitos. Infelizmente, vende mais ter uma cara conhecida na televisão a pronunciar-se sobre seja que for. Ou talvez os próprios jornalistas estejam alheios ao disparate em que estão a incorrer. Espero sinceramente que os entrevistados (neste caso o patriarca) estejam, caso contrário seria uma clara demonstração de má fé (no pun intended).
Seja intencional ou não, há uma crise enorme de autoridade alheia, auto induzida/proclamada como incentivada pelos media. Não contribuamos nós também com para esta totalmente arbitrária distribuição de autoridade; sejamos critícos e retiremo-la quando não merecida.
Filipe Baptista de morais
quinta-feira, 28 de agosto de 2014
Na Muche
Hoje apeteceu-me escrever sobre um dos flagelos da nossa sociedade actual, ignorado pela classe política devido à elevada pressão dos lobbies gay e do alto patronato, à falta de representatividade do zé povinho e, claro, à crise económica. Embora não seja consensual, também há quem diga que a culpa é da Merkel. Falo, como com certamente já terão deduzido, do triste estado em que geralmente se encontram as casas-de-banho dos comboios da CP.
Estes WC são tipicamente, na gíria do viajante/utente, um nojo. Para os leitores menos familiarizados com o termo, ele tipicamente refere-se à presença de urina e/ou fezes (sem detrimento de outros fluidos corporais) um pouco por todo lado, sendo que tipicamente existe algum ênfase no assento da sanita. Para os homens, a menos de algum aperto agudo intestinal, isto pode não ser um problema de maior (principalmente se, como eu há poucos dias, viajarem com o nariz extremamente congestionado) mas é sem dúvida extremamente desagradável para as mulheres. As razões que levam a este problema são várias e diversas (quase parece que estou a dizer alguma coisa, não é?), sendo analisados em seguida. Será dada particular atenção a potenciais soluções/improvements, principalmente aos mais práticos e baratos.
Filipe Baptista de Morais
* Estudos sugerem que cada 10Km/h de velocidade extra na carruagem correspondem a, aproxidamente, duas cervejas em circulação sanguínea.
Estes WC são tipicamente, na gíria do viajante/utente, um nojo. Para os leitores menos familiarizados com o termo, ele tipicamente refere-se à presença de urina e/ou fezes (sem detrimento de outros fluidos corporais) um pouco por todo lado, sendo que tipicamente existe algum ênfase no assento da sanita. Para os homens, a menos de algum aperto agudo intestinal, isto pode não ser um problema de maior (principalmente se, como eu há poucos dias, viajarem com o nariz extremamente congestionado) mas é sem dúvida extremamente desagradável para as mulheres. As razões que levam a este problema são várias e diversas (quase parece que estou a dizer alguma coisa, não é?), sendo analisados em seguida. Será dada particular atenção a potenciais soluções/improvements, principalmente aos mais práticos e baratos.
- O primeiro e eventualmente maior problema das casas-de-banho dos comboios é, sem dúvida, a enorme afluência. Aqui já se têm dado enormes passos no sentido de minimizar o problema, através da redução do poder de compra e do aumento do preço dos bilhetes. Porventura mais subtil, mas não menos genial ou eficaz, o abandono de muitas praias às intempéries levou a uma enorme redução do areal disponível e à existência de inúmeras arribas em perigo iminente de derrocada, o que poderia ser um factor importante no descongestionamento da linha Lisboa-Algarve. Infelizmente, verifica-se que o problema se mantém, pelo que claramente não pode ser atacado apenas por esta via.
- Outro grande problema é a falta de civismo das pessoas que insistem em comportamentos como não utilizar o autoclismo, não levantar o assento da sanita para urinar (no caso dos homens), entre outros. A falta de civismo combate-se, creio eu, através da educação. Mas esta demora a surtir efeitos, para além de que é complicada de implementar eficazmente e, pior, dispendiosa. É também muito chata (lembram-se daquelas aulas de História ou Português?), podendo cair naquela categoria de emendas que são piores que os sonetos (isto faz sentido?).
- Os atrasos nos comboios, aparentemente um problema totalmente perpendicular ao abordado, também são relevantes já que aumentam a duração das viagens e, consecutivamente, agravam o primeiro ponto que referimos. Confesso que tenho alguma dificuldade em perceber como se podem os comboios sistematicamente atrasar (e não, não é igual em todo o lado) já que certamente não apanham trânsito inesperado. Seja como for, melhorar esta situação requereria, muito provavelmente, melhor organização e planeamento dos transportes púbicos, o que também está obviamente fora de questão.
- Uma questão importante também é a de pontaria. Ainda que muitos homens tenham a iniciativa de levantar o assento e apontar cuidadosamente para o centro da sanita ao urinar, é certo e sabido que nem todos os jactos são bem direccionados. Seria de pensar que toda uma vida de treino seria suficiente para aprimorar a técnica, mas também não é verdade que o Voldemort (verdadeiro mestre da varinha) acertava em tudo menos no seu alvo, o jovem Potter? Este problema é agravado por um simples facto: o comboio mexe-se. As mulheres estarão porventura agora a franzir o sobrolho, mas certamente que muitos homens (alguns sem dúvida orgulhosos da sua pontaria em situações mais normais) sabem como uma carruagem a oscilar dificulta o acto de acertar na sanita *. A solução passaria, obviamente, por manter os comboios parados, mas por alguma razão a CP não se tem mostrado muito receptiva a esta ideia (joguinhos dos sindicatos porventura?)
- O anterior ponto poderia não ser tão importante, se o assento da sanita estivesse propriamente levantado durante o acto. E aqui sim, temos um problema que tem uma solução simples, barata e eficaz. Certamente que hão-de ter reparado que os assentos (assim como os tampos), com o oscilar da carruagem, têm uma certa tendência para voltar a baixar, ainda para mais repentinamente. Isto leva a que muitos homens, receosos de uma dolorosa mutilação genital e sem grande vontade de segurar no molhado assento com a mão durante o acto (até porque há quem prefira usar as duas) opte por não levantar o assento. Dentro dos que o levantam, mas não o seguram, certamente que uma grande percentagem será surpreendida pela abrupta descida deste, tendo sem dúvida reflexos institivos que seriam divertidos se não resultassem em desgovernados repuxos amarelados. Solução? Um simples encaixe na parede da carruagem, como os que usam no lado de fora das janelas, para prender a tampa e o assento.
Filipe Baptista de Morais
* Estudos sugerem que cada 10Km/h de velocidade extra na carruagem correspondem a, aproxidamente, duas cervejas em circulação sanguínea.
quarta-feira, 2 de julho de 2014
Perseguindo os perseguidores, sem cepticismo
Há poucos dias deparei-me com uma notícia do público que estava a gerar uma considerável reacção por parte da população. Como sempre, há mais um do que aspecto a merecer referência.
Primeiro, a leviandade com que se extrapola e se tiram conclusões far-fetched de estudos. Não é de todo uma novidade que o espírito crítico e/ou céptico está em vias de extinção()*, mas nunca me deixa de espantar a fraqueza desse espírito, mesmo quando os dados estão à vista. A notícia cita os autores, que alegam que o estudo prova (acredito que o termo escolhido tenha sido obra do jornalista, mas nunca se sabe) que “os estados emocionais podem ser transferidos para outras pessoas através do contágio emocional”. Ora, segundo os dados publicados na mesma notícia, houve "um decréscimo de 0,1% no número de palavras positivas, no grupo dos utilizadores que viram reduzidas as publicações com o mesmo tipo de vocábulos no seu feed, e uma diminuição de 0,07% no total de palavras negativas entre os que foram menos expostos a esse tipo de conteúdos." Percentagens bastante baixinhas diria. Mas talvez sejam significantes dado o # de palavras escritas? Ora pois bem, felizmente a notícia elucida-nos em relação a esse aspecto também. Procurando os números e fazendo uns cálculos simples chegamos à conclusão que os participantes no estudo disseram, em média, 177 palavras. Sendo que 3.6% eram negativas e 1.6% positivas, os participantes disseram em média 6.372 palavras negativas e 2.832 palavras positivas. Agora sem grande rigor estatístico (não é de todo necessário para exprimir este ponto de vista) o tal decréscimo de 0.1% significa que os participante sujeitos a feeds negativos disseram, em média, por volta de menos três milésimas de palavra. No outro caso, estamos a falar de menos de cinco milésimas de palavra. Ora, eu não sei exactamente o que é uma milésima de palavra, mas não me parece algo muito relevante.
Para além dos pequeninos números, há a meu ver outra grande falha nas conslusões desse estudo, que foi o ignorarem completamente o princípio da navalha de Occam. Ao invés de assumir que os estados emocionais estavam a ser transferidos (*2), não seria mais plausível assumir que as pessoas utilizam com mais frequência as palavras que estão costumadas a ver e ouvir? Afinal, a heurística da disponibilidade é conhecida e está bem estudada e documentada, sendo para além disso relativamente intuitiva e óbvia.
Conclusões e sua robustez à parte, não deixa de ser interessante a indignação exposta por tantos utentes do facebook, ao verem os seus feeds manipulados por algum algoritmo. Esquecemo-nos que na realidade eles já são manipulados, simplesmente por outro algoritmo. A notícia refere isso mesmo perto do fim, acrescentando que "Não é a rede tal como a veríamos sem filtros". Apesar de verdade, penso que a afirmação pode gerar certas dúvidas. É que a "rede sem filtros" é um conceito puramente teórico/filosófico, sem qualquer significado na realidade. Não existe. Não poderia existir. Isso significaria que estaríamos a ver todos os feeds jamais publicados, por nenhuma ordem em particular. E nenhuma ordem exclui até a popular ordem aleatória. Os investigadores limitaram-se, simplesmente, a altear o algoritmo que escolhe aquilo que queremos ver. Mais, enquanto que o algoritmo usual tem o intuito óbvio e admitido de manipular (mostra-nos aquilo que queremos ver, de modo a que gostemos de lá ir), este prendia-se apenas com fins científicos e estatísticos. Não sejamos paranóicos. Forçar que tais inofensivos estudos careçam de avios e autorização prévio é retirar-lhes qualquer valor que eles alguma vez poderiam vir a ter. Nunca os (pseudo) perseguidores foram tão perseguidos.
Filipe Baptista de Morais
*Já agora aproveito para sugerir que se inforem sobre a Comunidade Céptica Portuguesa, assisti o ano passado a umas paletras muitos interessantes organizadas por eles.
(*2) Devo agora talvez salientar que acredito piamente que os estados emocionais são contagiantes; apenas critico a suposta prova dessa tese.
Primeiro, a leviandade com que se extrapola e se tiram conclusões far-fetched de estudos. Não é de todo uma novidade que o espírito crítico e/ou céptico está em vias de extinção()*, mas nunca me deixa de espantar a fraqueza desse espírito, mesmo quando os dados estão à vista. A notícia cita os autores, que alegam que o estudo prova (acredito que o termo escolhido tenha sido obra do jornalista, mas nunca se sabe) que “os estados emocionais podem ser transferidos para outras pessoas através do contágio emocional”. Ora, segundo os dados publicados na mesma notícia, houve "um decréscimo de 0,1% no número de palavras positivas, no grupo dos utilizadores que viram reduzidas as publicações com o mesmo tipo de vocábulos no seu feed, e uma diminuição de 0,07% no total de palavras negativas entre os que foram menos expostos a esse tipo de conteúdos." Percentagens bastante baixinhas diria. Mas talvez sejam significantes dado o # de palavras escritas? Ora pois bem, felizmente a notícia elucida-nos em relação a esse aspecto também. Procurando os números e fazendo uns cálculos simples chegamos à conclusão que os participantes no estudo disseram, em média, 177 palavras. Sendo que 3.6% eram negativas e 1.6% positivas, os participantes disseram em média 6.372 palavras negativas e 2.832 palavras positivas. Agora sem grande rigor estatístico (não é de todo necessário para exprimir este ponto de vista) o tal decréscimo de 0.1% significa que os participante sujeitos a feeds negativos disseram, em média, por volta de menos três milésimas de palavra. No outro caso, estamos a falar de menos de cinco milésimas de palavra. Ora, eu não sei exactamente o que é uma milésima de palavra, mas não me parece algo muito relevante.
Para além dos pequeninos números, há a meu ver outra grande falha nas conslusões desse estudo, que foi o ignorarem completamente o princípio da navalha de Occam. Ao invés de assumir que os estados emocionais estavam a ser transferidos (*2), não seria mais plausível assumir que as pessoas utilizam com mais frequência as palavras que estão costumadas a ver e ouvir? Afinal, a heurística da disponibilidade é conhecida e está bem estudada e documentada, sendo para além disso relativamente intuitiva e óbvia.
Conclusões e sua robustez à parte, não deixa de ser interessante a indignação exposta por tantos utentes do facebook, ao verem os seus feeds manipulados por algum algoritmo. Esquecemo-nos que na realidade eles já são manipulados, simplesmente por outro algoritmo. A notícia refere isso mesmo perto do fim, acrescentando que "Não é a rede tal como a veríamos sem filtros". Apesar de verdade, penso que a afirmação pode gerar certas dúvidas. É que a "rede sem filtros" é um conceito puramente teórico/filosófico, sem qualquer significado na realidade. Não existe. Não poderia existir. Isso significaria que estaríamos a ver todos os feeds jamais publicados, por nenhuma ordem em particular. E nenhuma ordem exclui até a popular ordem aleatória. Os investigadores limitaram-se, simplesmente, a altear o algoritmo que escolhe aquilo que queremos ver. Mais, enquanto que o algoritmo usual tem o intuito óbvio e admitido de manipular (mostra-nos aquilo que queremos ver, de modo a que gostemos de lá ir), este prendia-se apenas com fins científicos e estatísticos. Não sejamos paranóicos. Forçar que tais inofensivos estudos careçam de avios e autorização prévio é retirar-lhes qualquer valor que eles alguma vez poderiam vir a ter. Nunca os (pseudo) perseguidores foram tão perseguidos.
Filipe Baptista de Morais
*Já agora aproveito para sugerir que se inforem sobre a Comunidade Céptica Portuguesa, assisti o ano passado a umas paletras muitos interessantes organizadas por eles.
(*2) Devo agora talvez salientar que acredito piamente que os estados emocionais são contagiantes; apenas critico a suposta prova dessa tese.
terça-feira, 24 de junho de 2014
A Prescrição do Crime
Hoje, sem qualquer notícia a fornecer contexto ou nota introdutória, venho escrever sobre algo que me faz espécia há muito tempo: a prescrição de crimes.
Nunca consegui perceber a lógica por detrás destes mecanismo. Afinal, porque há-de o crime deixar de o ser simplesmente pelo passar dos anos? É certo que os processos não podem permanecer abertos indifinidamente com recursos alocados à sua resolução, mas poderiam certamente aguardar suspensos e no caso de, como por vezes acontece, aparecerem novas informações (ou personagens) serem retomados.
Não vejo nada nas prescrições que não seja uma protecção injustificada do criminoso. Fá-lo ao garantir uma amnistia ao fugitivo habilidoso que se evada por tempo suficiente, quando na realidade deveria era ter a pena aumentada por fugir à justiça durante tanto tempo, quando na realidade deveria era ter a pena aumentada por fugir à justiça durante tanto tempo. Mas o mecanismo da prescrição tem um efeito ainda mais perverso no sistema judicial.
Ao estabelecer um prazo limite para a acusação atingir uma condenação cria-se toda uma nova estratégia de defesa: o arrastar o processo até este prescrever. E assim temos todos aqueles processos em que a defesa não se preocupa verdadeiramente em demonstrar a inocência dos seus clientes, mas antes em encontrar artifícios técnicos que permitam o adiamento das audiências e, consequentemente, que se atinja alguma sentença.
As prescrições contribuem assim de duas maneiras distintas e igualmente gravosas para a injustiça: a injustificada protecção do criminoso e a sobrecarga de um já de si saturado sistema judicial. Isto se não considerarmos uma terceira consequência, que pode ser até a mais danosa a uma democracia: a contribuição para a descrença e desrespeito pelo sistema penal e judicial.
Filipe Baptista de Morais
Nunca consegui perceber a lógica por detrás destes mecanismo. Afinal, porque há-de o crime deixar de o ser simplesmente pelo passar dos anos? É certo que os processos não podem permanecer abertos indifinidamente com recursos alocados à sua resolução, mas poderiam certamente aguardar suspensos e no caso de, como por vezes acontece, aparecerem novas informações (ou personagens) serem retomados.
Não vejo nada nas prescrições que não seja uma protecção injustificada do criminoso. Fá-lo ao garantir uma amnistia ao fugitivo habilidoso que se evada por tempo suficiente, quando na realidade deveria era ter a pena aumentada por fugir à justiça durante tanto tempo, quando na realidade deveria era ter a pena aumentada por fugir à justiça durante tanto tempo. Mas o mecanismo da prescrição tem um efeito ainda mais perverso no sistema judicial.
Ao estabelecer um prazo limite para a acusação atingir uma condenação cria-se toda uma nova estratégia de defesa: o arrastar o processo até este prescrever. E assim temos todos aqueles processos em que a defesa não se preocupa verdadeiramente em demonstrar a inocência dos seus clientes, mas antes em encontrar artifícios técnicos que permitam o adiamento das audiências e, consequentemente, que se atinja alguma sentença.
As prescrições contribuem assim de duas maneiras distintas e igualmente gravosas para a injustiça: a injustificada protecção do criminoso e a sobrecarga de um já de si saturado sistema judicial. Isto se não considerarmos uma terceira consequência, que pode ser até a mais danosa a uma democracia: a contribuição para a descrença e desrespeito pelo sistema penal e judicial.
Filipe Baptista de Morais
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