Mostrar mensagens com a etiqueta Psicologia e Sociologia. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Psicologia e Sociologia. Mostrar todas as mensagens

domingo, 22 de março de 2015

Desigualdades de (e diferenças entre) Géneros

O recente dia Internacional da Mulher voltou a trazer o tema da Igualdade de Direitos para cima da mesa, e deu azo a todo o tipo de notícias e intervenções. Como é um tema que, na minha ótica, é sistematicamente mal avaliado e abordado (e também como já tinha abordado o assunto noutro post que pecou por falta de clareza) decidi escrever sobre o assunto. Para explicar melhor as minhas opiniões fui compilando notícias ou artigos que serviam de exemplo a algum ponto que me pareceu importante.

Comecemos por estabelecer terreno comum e consensual. Deve existir igualdade de direitos entre homens e mulheres. Penso que muito poucos cidadãos do chamado Mundo Ocidental discordariam desta afirmação, e eu certamente que não o faria. Taambém creio ser consensual que, a nível mundial, essa igualdade está longe de existir. Em muitos países a mulher ainda nem é reconhecida como cidadã plena perdendo, entre outros, o direito ao voto. O debate e a luta pelos direitos da mulher é portanto actual e necessário, nesta perspectiva global. É a nível local que a questão parece estar mais ultrapassada.

Uma questão que considero importante realçar é a distinção entre dois tipos de desigualdade.

O primeiro é a desigualdade de direitos (daqui por diante quando falar de desigualdade apenas é disto que estarei a falar) e caracteriza-se por ter um carácter premeditado (ie: é imposto expressamente e propositadamente e não é consequência da conjugação de diversos factores, nomeadamente o acaso) e por ter enquadramento legal (ie: é reconhecido, aceite e perpretado por um Estado ou semelhante). São exemplos óbvios e claros desta desigualdade os países onde a mulher não tem direito ao voto, ou a conduzir.

O segundo tipo, a que vou chamar diferença e não desigualdade, é uma constatação empírica (factual ou não) que não é nem premeditada nem estipulada legalmente, apenas o é e é-o por causas eventualmente desconhecidas e/ou incompreendidas. Um exemplo disto são os salários médios mais baixos auferidos pelas mulheres: são um facto mas não são impostos por nenhuma política ou lei, nem são resultado da acção deliberada de nenhum agente económico.

A diferença entre estes dois conceitos é extremamente importante para esta discussão. Isto porque enquanto as desigualdades são sempre erradas e podem e devem ser resolvidos legislativamente, o mesmo não pode ser dito das diferenças. Estas não são, em si mesmas, negativas nem positivas. Mais, não sendo instauradas explicitamente, também não podem ser removidas dessa forma (eg: assim como nenhuma norma diz que as mulheres recebem menos que os homens não se pode fazer uma a dizer que receberão o mesmo). As diferenças são, quanto muito, manifestações de desigualdades.

São, no entanto, misturadas com frequência, como quando Hillary Clinton (e tantos antes e depois dela) referiu o rácio de CEOs mulher como uma violação dos direitos da mulher (ou do Homem já que, como ela refere e bem, estes são iguais para ambos os géneros). Referiu também que as mulheres são as mais afectadas nas questões de saúde e alimentação, mas aqui confesso que não faço a mais pálida ideia do que está a falar. Tanto quanto sei a esperança média de vida das mulheres é superior à dos homens em todos os países desenvolvidos, sendo uma das razões apontadas para tal precisamente a prática de melhores hábitos alimentares. E porque raio, já agora, é que toda esta lógica simplística (de ver desigualdades em estatísticas diferentes de 50%) não considera a menor esperança de vida do homem como uma desigualdade e violação dos direitos do homem?

Acho importante realçar, neste ponto, que a distinção entre diferenças e desigualdades não é feita pela intensidade ou gravidade das mesmas, mas sim e apenas pela sua essência. Dou um exemplo de cada para clarificar. Se lerem o regulamento relativo à utilização de transportes colectivos (afixado em todos os autocarros da carris) encontrarão o artigo 187º, cuja alínea b) diz que os funcionários da Carris são obrigados a prestar aos passageiros todo o auxílio de que careçam, tendo especial atenção para com as senhoras, mutilados, velhos e crianças. Esta discriminação injustificada (e, neste caso, positiva) da mulher face ao homem é uma desigualdades. É, no entanto, suficientemente irrelevante para todos a ignorarmos com um encolher de ombros (eu, pelo menos, faço-o). Já os rácios de género nos Conselhos de Administração das empresas do PSI20, questão suficientemente importante para arreliar tanta gente, são uma diferença. O facto de a distinção desigualdade-diferença não se prender com questão de grau/intensidade é também importante porque a torna absoluta e não relativa (embora posteriores considerações morais não o sejam, obviamente).

Voltando aos Direitos, estes também não estão isentos de polémica. Isto porque, embora seja consensual que estes devem ser garantidos, aquilo que se qualifica ou não como um direito já não o é. Penso até que é nesta questão, e nalgum extremar de posições, que o feminismo perde muito apoio e solidariedade. Veja-se, por exemplo, a invasão da barbearia Fígaro, que não permite a entrada a mulheres. É discriminação claro, no sentido literal do termo, tal como o é eu não me poder inscrever no ginásio Viva Fit, espreitar os balneários femininos de  ginástica acrobática ou dar entrada num lar de terceira idade. Não é discriminação no sentido negativo da palavra, nem uma demonstração de desigualdade.

Por vezes aponta-se como negativa e imperceptível o desconforto que alguns homens sentem ao ouvir o termo feminista. O feminismo não é mais do que a defesa dos direitos da mulher, dizem, e não pressupõe nenhuma agressividade ou antipatia face ao género masculino. Tudo bem, penso que isso faria de mim um feminista também. Nesse sentido sou também machista (ah pera, isso tem um significado diferente...) Mas infelizmente para a causa o feminismo não é uma organização com critérios de entrada bem definidos. Assim, muitas das posições tomadas em nome do mesmo são vistas por muitos homens (e algumas mulheres, espero) como francamente ridículas. Exemplos disso são o incidente acima referido na barbearia Fígaro, o movimento Free the Nipple (independentemente de sermos a favor ou não da legalização do topless discuti-lo em termos de igualdade de géneros é ridículo) e a reacção de Ellen DeGeneres (um dos símbolos do feminismo moderno e ocidental) ao lançamento de uma caneta para mulheres pela marca BIC. Permitam-me um pequeno comentário a esta última. Penso que até seria fácil e razoável argumentar fisiologicamente a favor da lógica de haver canetas para mulheres e homens. Mas ainda considerando que isso é irrelevante (de facto somos todos capazes de usar as mesmas canetas) não há nada de insultuoso ou inigualitário em direccionar os produtos a um público alvo mais específico com meras alterações estilísticas, ou mesmo puro marketing. Este excesso de sensibilidade no detector de discriminação/desigualdade não traz muita simpatia à causa.

Isto por si só levaria muitas pessoas a franzir o sobrolho ao ouvir o termo feminisa, mas o pior é que, não aderindo a toda e qualquer causa estapafúrdia que alguém se lembre de enfiar debaixo dessa (enorme) bandeira, um homem é imediatamente etiquetado de machista e retrógrado (para as mulheres reservam as etiquetas de submissa ou vítima de lavagem cerebral).

Para além do excessivamente amplo leque de causas, fica ainda muitas vezes implícita a ideia de uma qualquer conspiração masculina para subjugar e estupidificar a mulher, obviamente completamente descabida (ou se há deixaram-me de fora, e talvez me deva sentir insultado). Veja-se, por exemplo, a reacção de Cate Blanchett ao interesse mediático no seu vestido. É fácil explicar essa discriminação: no dia seguinte aos Óscares milhões de mulheres por todo o mundo (e muito poucos homens, ironicamente) consultavam a internet para ver quais os vestidos usados e eventuais indicações sobre tendências para a nova estação (é assim que se diz?). Quando um jornalista pára um casal na rua e pergunta ao homem (e não à mulher) qual o seu prognóstico para o Sporting-Benfica isso não é desigualdade, é o reconhecimento de uma diferença. O movimento associado ao episódio em Hollywood, Ask Her More, é também idiótico por querer dar ao meio cinematográfico uma profundidade que ele não tem. Se quiser ouvir falar de política internacional oiço um discurso do Dalai Lama, e não uns comentários de Cate Blanchett (ou Jude Law) na passadeira vermelha. Faz lembrar os concursos de misses.

Por vezes a culpabilização do homem não é tão subtil quanto isso. Leia-se por exemplo o texto de Maria João Marques, onde o ódio é quase palpável*. Ou as palavras de Emma Watson após receber ameaças (eventual ou alegadamente devido ao seu discurso feminista): Assim que defendi o direito das mulheres fui imediatamente ameaçada. (...) É muito comum as mulheres serem ameaçadas. (...) Pensei que era por isso que tinha de fazer algo para pôr fim a essas atitudes. Aparentemente Emma e o irmão também consideraram que as tais ameaças são prova da necessidade e actualidade da causa. Mas qualquer pessoa que leia jornais ou frequente fóruns online sabe que exprimir publicamente uma opinião (polémica ou não, e sobre qualquer tópico) pode levar a um chorrilho de ameaças cibernáuticas. Uma celebridade está obviamente muito mais exposta a este tipo de ataques cobardes. Mas esta questão não levanta qualquer tipo de dúvida ou debate relativamente a direitos, muito menos específicos da mulher: há legislação referente a ameaças e calúnias em vigor, quer sejam direccionadas à activista feminina quer ao sócio do Benfica.

Os tópicos mais recorrentes em relação à discriminação das mulheres são as desigualdades salariais e de progressão na carreira (rácio de CEOs, altos dirigentes políticos, etc...) como referidos nos seguintes artigos (1, 2 e 3). Por vezes mistura-se também a violência doméstica e outros tipos de violência contra as mulheres (mutilação genital etc...), como aqui. Não gosto desta mistura, e explicarei abaixo porquê. Não deixo, no entanto, de reconhecer a prevalência da violência contra as mulheres e do consequente debate em torno do tema: simplesmente não considero que seja uma questão de igualdade (chamem-lhe semântica se quiserem) pelo que também não posso deixar de criticar que coloquem essa temática sob esse estandarte (bom exemplo disso é esta notícia). Também criticável na mesma o aparente impacto que um papel representado numa série telenovelesca teve na escolha de uma emissária da UN Women. Sempre têm alguma razão os que duvidam da capacidade humana de distinguir a realidade da ficção televisiva.

Vou explicar-me melhor então. Não acho que a violência contra as mulheres deva ser chamada para a discussão da igualdade de géneros nem dos direitos da mulher porque ela já é um crime (estamos a falar de países desenvolvidos apenas, agora) e exactamente nos mesmos termos que quando exercida sobre um homem. Quando um terrorista faz um atentado e mata N pessoas não se debate sobre os direitos dos inocentes, nem se afirma que esse assassinato é uma prova da falta de direitos dos inocentes (em particular, face aos terroristas). O que não nos impede de discutir a ameaça terrorista e formas de nos defendermos dela. Na mesma lógica, quando um homem bate numa mulher isso não faz com que ela tenha menos direitos, só faz com que ele seja um criminoso. Falar de desigualdade aqui apenas faria sentido se houvesse uma permissividade legal relativamente à violência quando pratica por homens e/ou exercida sobre mulheres. A minha perceção pessoal é a de que acontece exactamente o oposto: a sociedade é muito mais permissiva relativamente à violência doméstica quando esta é praticada pela mulher (vejam este estudo por exemplo).

Voltemos então agora à questão do trabalho. Na minha opinião, esta é uma das áreas marcadas por diferenças e não desigualdades. Diferenças essas que acredito serem explicadas por factores económicos e sociais (eg: preferências pessoais) e não por nenhuma discriminação injustificada. Em relação aos salários em particular eu nunca vi nenhum estudo que mostrasse que as mulheres recebem menos para a mesma função (se alguém me indicar um terei todo o gosto em ler e adicionar uma errata relativamente a esta parte; sem ironia). Vi muitos artigos citarem estudos e a proclamarem essa conclusão, e até alguns estudos a concluírem isso sem, na minha opinião, apresentarem dados que a justifiquem. Sinceramente não acredito que tal estudo exista pois penso tratar-se de um mito. Até porque como se explicaria essa diferença? Será que nós homens temos reuniões secretas (quiçá na Fígaro) para inventar engenhosas fórmulas de discriminação sexual? Ou será subconsciente, e de tal forma poderosa que nem o contabilista repara que a sua colega de departamente recebe menos do que ele? Pessoalmente não conheço nenhuma empresa que, para a mesma função, pague mais a um homem que a uma mulher. Conheço muitas que, em média, pagam mais aos trabalhadores masculinos do que às trabalhadoras. E conheço muitas que pagam acima da média e que empregam sobretudo homens. Estas três afirmações não são redundantes nem contraditórias entre si. E todas ajudam a explicar as diferenças salariais constatadas estatísticamente, sem recorrer a planos maquiavélicos.

Como já abordei este tema uma vez e constatei que a minha opinião sobre o mesmo não ficou muito claro vou adicionar mais uns remates. Dizer que as decisões de mercado se baseiam em, precisamente, lógica de mercado não significa que não se possa ou não se deva fazer nada para as alterar. É por exemplo óbvio, na minha opinião, o impacto que a (potencial) gravidez tem na carreira da mulher. Este pode ser diminuído (embora em termos de progressão de carreira não acredito que se possa eliminar completamente, pelo menos sem abdicar do capitalismo enquanto modelo económico) de várias formas, como sejam a nivelação dos períodos de licença de maternidade/paternidade e o combate aos papéis de género (abaixo voltaremos a isto) que ditam que, por exemplo, seja a mulher a faltar ao trabalho em caso de doença dos filhos. Pretendo apenas desmistificar a ideia de que as mulheres são discriminadas enquanto tal. Decisões baseadas em perfis e personalidades (eg: postura mais agressiva e dominadora por parte dos homens, muitas vezes associada a posições de liderança) serão mais difíceis de influenciar, embora estes também possam (até certo ponto) ser manipulados.

Referi acima os papéis de género, e vou aproveitar a deixa para voltar ao início deste já longo texto e à distinção diferença/desigualdade. Defendi que as diferenças não são intrínsecamente negativas, nem se eliminam explicitamente. Mas isso não significa que não possamos actuar sobre elas, nem que não o devamos fazer. O fulcral, na minha ótica, é perceber o porquê da diferença e, quando justificável, actuar sobre essa causa. O mal (quando existe) reside assim não na diferença mas na sua causa, e é aí que tem de ser atacado, Podemos considerar, por exemplo, ainda prevalece a imagem da mulher dona-de-casa, com consequente desproporção na distribuição das tarefas domésticas. Penso que quase todos concordamos que esta imagem é negativa, e portanto faz sentido tentar alterar os papéis de género nesse sentido. Saliento que, na minha opinião, o problema reside na imagem em si, e nas mensagens subliminares presentes na sociedade que a fazem propagar-se no tempo enquanto status quo, e não na desproporção da distribuição das tarefas domésticas. Esta só é importante por nos dar a motivação necessário para atacar o problema da imagem; se esta fosse inconsequente, teríamos coisas mais importantes em que pensar.

Um amigo enviou-me este link para documentação de referência  (falamos de orientações governamentais) que pretende explicar como essa mudança de paradigmaa base pode (e vai) ser induzida na geração seguinte (por exemplo evitando que, nos manuais escolares, a grande maioria das imagens ilustrativas de tarefas domésticas representem mulheres) e que, embora vergonhosamente ainda não tenha lido, acredito ter conteúdos extremamente interessantes.

Mas o assunto torna-se rapidamente mais pantanoso. Os papéis de género e as expectativas da sociedade explicam muita coisa, mas não são os únicos responsáveis pelas diferenças entre homens e mulheres. Parte dela é genética (se tiverem tempo aconselho a visualização deste programa Norueguês). Mas ainda que toda ela fosse orquestrada pela sociedade, não podemos ser ingénuos ao ponto de acreditar que existe um ponto neutro de influência da sociedade. Especular portanto quais deveriam ser as escolhas e comportamentos de homens e mulheres nesse ponto neutro e adaptar a sociedade até o atingirmos é inútil, para além de ter contornos de Brave New World. É por isso que considero perigosas, e negativas, medidas baseadas em objectivos (eg: aumentar número de mulheres CEOs, aumentar rácio de mulheres em IT) em oposição a medidas directamente direccionadas às causas, sem preocupação com os seus efeitos. Pegando no exemplo do IT, não há nada de intrínsecamente negativo em haver poucas mulheres na área (e porque não combater a desigualdade verificada nos rácios de género entre cantoneiros do lixo?), nem nestas preferirem outras áreas. Não percebo, portanto, a necessidade de implementar medidas para alterar essa realidade, nem afirmações como as de Vera Jourova (Comissária Europeia para a Justiça, Consumo e Igualdade de Género): é preciso que desde cedo as raparigas sejam incentivadas a prosseguir estudos nas áreas tecnológicas. Dizer que o rácio actual está errado significa que se quer atingir outro. Mas qual? 50%? Ou um qualquer rácio (chamemos-lhe basal) que algum estudo xpto dirá tratar-se da taxa natural, quando subtraída a influência da sociedade? E porque razão é a sub-representação das mulheres no IT e noutras áreas tão problemática, se sub-representações semelhantes de homens noutras área não o são?

Mantendo o exemplo das mulheres no IT, poderia contestar-se o estereótipo de género em torno da área e, por aí, justificar a sua manipulação deliberada. Mas fará isso sentido, visto não existir nada de negativa com os rapazes gostarem mais de PCs? Não estaremos a tornar-nos perigosamente manipuladores ao exigir que 50% dos técnicos de IT representados nos manuais escolares sejam mulheres, quando sabemos muito bem que tal não corresponde à realidade? Tanto na história como na ficção distópica, a distorção e manipulação da realidade é um dos sinais de um estado totalitarista.

Talvez alguns frequentadores assíduos deste espaço se recordem e estranhem o meu louvor à iniciativa/empresa Goldie Blocks, que pretendia (para além de fazer dinheiro) precisamente tornar as engenharias mais apelativas às mulheres através de brinquedos alegóricos adaptados para o sexo feminino (espero que a Ellen não leia isto). Acontece que isso é uma iniciativa privada, que obedece a uma preferência pessoal (a fundadora gostava de ter mais amigas engenheiras, ou algo do género) e não a alguma normalização de estatísticas. Eu, enquanto trabalhor da área e ex-aluno de uma faculdade de engenharia, também gostaria de ter e ter tido mais colegas mulheres. Daí que aplauda essa iniciativa, assim como a mais recente Miss Possible. É, na minha opinião, necessário algo muito mais forte que gostava que houvesse mais mulheres em IT e homens em enfermagem, nomeadamente fundamentadas considerações morais, para justificar a intervenção do Estado neste processo de re-programação. Porque não tenhamos ilusões: não é possível não interferir no desenvolvimento das crianças e indivíduos, apenas podemos alterar o sentido dessa mesma influência. E, excepto nos já referidos casos de força maior, prefiro uma máquina inocente (no sentido de não pensada, sem criador ou propósito) derivada da nossa cultura e tradição aos caprichos de um Governo (ainda por cima nestas temáticas muitas vezes submissos aos caprichos de quem grita mais alto ou com mais histeria) que acha que as raparigas estão sub-representadas aqui ou acolá.

Tudo isto não passaria de curiosidades e notícias irritantes, não fosse estar a gerar-se em Portugal (e na Europa) um perigoso sentimento de necessidade de acção, ainda que mal justificada ou direccionada. A questão das quotas (nos assentos parlamentares, nos conselhos de administração, etc...) é, a meu ver, o cúmulo da ironia: em nome da não discriminação de género no trabalho (leia-se: ao contratar, não olhar ao sexo do candidato) obrigam a que tenhamos essa mesma característica em conta. E tudo, claro, baseado na dita taxa basal (neste caso creio que 50%) de representatividade. Pior que isso, na minha opinião, são declarações como as de Ana Gomes: É altura de Portugal ter uma mulher Presidente da República. (Já tinha ouvido dizer o mesmo relativamente à presidência da Comissão Europeia, antes da eleição de Juncker). Ora quanto mais importante um cargo menos se deveria olhar para o género (per se) ao ponderar candidatos; e obviamente que não há tempos para eleger mulheres e outros para eleger homens. Também recentemente uma notícia citava ou um dos membros do novo conselho de administração da RTP ou um representante do Governo (infelizmente não guardei o link, e a minha memória não me permite precisar) a congratular-se pela inclusão de uma mulher no novo conselho de administração da RTP e a referir que isso deveria ser encarado como um exemplo. Ora ter mulheres um conselho de administração não é prova de avanço civilizacional. Chamar a atenção para o facto e usá-lo como se fosse é, ironicamente, prova do exacto oposto (além de potencialmente desprestigiante e desmotivador para a senhora em causa). Já a intervenção de António Costa quero acreditar que não passou de uma (mesmo muito má) piada sobre um assunto serio.

Por último, deixo ao leitor aquilo que considero ser uma pérola do excesso de zelo na procura de igualdade de direitos: o Guia para uma linguagem promotora da igualdade entre mulheres e homens na Administração Pública (aprovado em 2009), e pretendendo corrigir a terminologia utilizada na AP de forma a evitar ou prevenir a discriminação. Assim, saiba o leitor que a fim de promover a igualdade deve dizer pai e mãe em vez de pais, trabalhadores e trabalhadoras (os políticos já adotaram esta e outras há muito, sendo também comum a inversão para trabalhadoras e trabalhadores) em vez de simplesmente trabalhadores, a pessoa que requer em vez de requerente (esta é mesmo muito boa...), a gerência em vez de o gerente (nem têm o mesmo significado, como o próprio guia reconhece...), Família Silva em vez de Sr./a Silva, entre outras.

Resumidamente, considero que existe uma certa histeria totalmente desnecessária (se quiserem, desactualizada ou deslocada) em torno das desigualdades de género, que advém essencialmente de o feminismo (enquanto movimento não organizado) colocar sob a sua bandeira várias temáticas que não estão directamente relacionadas com o tema, para além de confundir diferenças com desigualdades. A colonista d'Observador escreveu há pouco tempo Saudades do tempo em que éramos livres e não o sabíamos, onde aborda ao de leve alguma das temáticas (foi onde encontrei também o Guia acima referido). Este texto poder-se-ia chamar O tempo em que éramos iguais e não o sabíamos.


Filipe Baptista de Morais

*Na realidade o texto menciona um estudo que me tinha parecido interessante, visto alegadamente indicar um enviesamento de genéro na correcção de provas de Matemática. Infelizmente não consegui aceder ao estudo original (bom, sem pagar pelo menos) para atestar a relevância do efeito e a robustez da metodologia. (Entretanto deparei-me com alguém que o fez, e não achou grande coisa. Aparentemente nem os autores acharam as diferenças significativas).

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Um por todos...

Quem viu as notícias (ante)ontem sabe que, entre a vitória do Sporting e a derrota do Porto, o Syriza venceu as eleições na Grécia. Há muito de interessante a comentar neste tema, mas concentremo-nos num par de apontamentos.

É engraçado reparar no quão impacientes são os jornalistas. Há quase um mês (desde 29 de Dezembro de 2014, se não estou em erro) que se sabe que a Grécia iria ter eleições antecipadas. De lá até cá têm sido equacionados e analisados todos os cenários possíveis. Dado que uma vitória do Syriza sempre se afigurou iminente, esse cenário em particular teve especial atenção. É portanto engraçado ver todo o acompanhamento que o evento teve ao longo do dia, repetindo tudo o que já tinha sido dito e concluído como se de novidade se tratasse. Durante a contagem dos votos, as projeções eram actualizadas ao segundo (tanta impaciência!). E, claro, no final os noticiários e programas de comentários centraram-se todos nas consequências da vitória do Syriza, como se fosse surpresa e tivessem falado de outra coisa no último mês. Mas nada disto é novo, e sucede constantemente com os clássicos do futebol e outros acontecimentos de elevada importância.

Mas muito mais relevante que o abordado no parágrafo anterior foi a importância que se deu ao facto de o Syriza ter falhado a maioria absoluta por uns meros dois deputados. Reparem, isto significa que, num Universo de cerca de trezentos deputados, bastaria convencerem dois das virtudes de qualquer medida para conseguir a sua aprovação. Parece simples. Mas a verdade é que não o é, e daí dois deputados fazerem toda a diferença. Os partidos tendem a rejeitar toda e qualquer proposta que não venha do seu seio, nem que seja para proporem o mesmo mais tarde. Isto faz todo o sentido do ponto de vista racional (e não empático): oporem-se a toda e qualquer medida do governo em funções, caso esta não tenha uma maioria absoluta. equivale a sabotar totalmente a sua capacidade governativa. E um país não desgovernado não passa bem, e isso deixa as pessoas descontentes. Ora pessoas descontentes são, como se sabe, um tesouro para qualquer partido na oposição e levam quase certamente à desejada mudança de cadeiras.

Este comportamento só é possível na prática devido a algo que não consigo perceber como se considera aceitável: a disciplina de voto. A disciplina de voto leva a que os deputados não votem de acordo com as suas crenças ou princípios (em prol, é preciso dizê-lo, da sua própria carreira dentro do partido) o que deturpa todo o processo democrático. Aliás, existindo disciplina de voto, nem faz sentido haver tantoss deputados: basta um por partido com a proporção de votos correspondente. Ora aí está uma boa forma de esticar o orçamento.

Acabar com a disciplina de voto pode parecer complicado, já que, tanto quanto sei, esta não está oficialmente contemplada na lei (ie: as consequências de incumprimento da mesma não são a nível da justiça, mas interno do partido). No entanto poderia ser extremamente simples: bastaria para tal que o voto dos deputados fosse secreto (assim como o nosso o é, quando nos deslocamos às urnas). Quem já viu votações na Assembleia da República talvez tenha reparado que o/a presidente da mesma refere, um por um, os nomes dos deputados indicando qual o sentido do seu voto. Pior, para cada deputado refere também o partido a que se refere. A proposta em discussão em si também é apresentada como vindo do partido que a propôs. Isto, a meu ver, não faz sentido. Gera um sentimento de clubismo que é tão desnecssário como anti-produtivo. A partir do momento em que são eleitos para a Assembleia, o afiliamento dos deputados devia deixar de ser relevante (e referido). Do mesmo modo, não vejo porque razão as propostas não possam ser apresentadas de forma anónima.

Muitos dos problemas acima referidos acontecem devido ao facto de as sessões da Assembleia serem observadas (um fenómeno quântico, se o quiserem ver dessa forma). Isto faz com que os deputados, em vez de debatarem uns com os outros, falem para as câmaras. É sabido que isso leva invariavelmente a pseudo-debates dicotómicos  e populistas. Nenhuma proposta de um partido da lado oposto da bancada é recebida com Olha, isso até não é mal pensado! ou mesmo com Hum... isso faz algum sentido mas.... Não, o que temos invariavelmente são não faz sentido nenhum, tentativa de destruir o estado social, plano monstruoso, etc... Acredito serialmente que os dialógos seriam diferentes se feitos em privado. A começar pelo facto de existirem. E continuo a sonhar com o dia em que Passos Coelho e António Costa (ou equivalentes da época) decidam ir beber uma imperial para uma esplanada e discutir políticas, sem câmaras nem transeuntes.

Deixo ainda aqui outra ideia, que espero fará muitas professoras da primária sorrir e acenar. Ao invés de sentar os deputados por bancadas partidárias, sentem-nos aleatoriamente, com uma rotação periódica. Sejam amigos.


Filipe Baptista de Morais

domingo, 23 de novembro de 2014

Selecção Artificial

Recentemente li uma reflexão interessantíssima n'Observador sobre os critérios de admissão à faculdade. Estes raramente são debatidos ou postos em causa e, quando o são, geralmente é com o intuito de sugerir pequenas alterações, nomeadamente na proporção devida às notas do secundário e aos exames nacionais.

O esquema actual é, na minha opinião, tremendamente injusto. Por um lado, coloca bastante peso numa única prova, que ainda por cima nem tem direito a revisão presencial. Por outro está sujeita à enorme variabilidade da exigência entre escolas.

Em relação a esta última devo dizer que, ao contrário do que parece ser a opinião do cronista d'Observador, não creio que o principal problema seja o inflaccionamento consciente (pela positiva) de notas no privado. Penso que a falta de exigência de muitas escolas (em ambos os regimes) ou, se preferirmos, os diferentes graus de exigência e/ou as diferentes políticas classificativas das escolas são já em si enormes e suficientes para tornar o actual sistema extremamente injusto.

Há outros, claro. Muitas Universidades americanas entrevistam os candidatos, seleccionando-os como se de um emprego se tratasse. Ao ler o texto acima referido aprendi que na Alemanha é requisitado aos alunos cuja nota no exame nacional seja muito díspar em relação à da escolha que repitam o exame.E que em França podemos entrar (sem selecção) no curso que queremos, sendo a própria Universidade a realizar a selecção ao fim de um ano.

Dos esquemas mencionados parece-me ser mais justo o francês, embora seja claramente pouco eficiente. No entanto, penso que teríamos muito a ganhar ao aumentar os poderes/deveres das faculdades naquilo a que a escolha dos candidados diz respeito.

Quero acrescentar, também,  que vejo nos problemas de admissão ao ensino superior um mero sintoma de um mal maior. Mal este que se estende por todo o tipo de selecções  na funcção pública, seja a colocação de professores, a prova nacional de seriação dos médicos ou os concursos públicos. Creio que, no receio de que os processos sejam susceptíveis de favorecimentos da parte de agentes corruptos nos esforçamos demasiado por encontrar uma fórmula mágica, totalmente impessoal e determinística, que nos permita seriar os candidatos sem qualquer input da parte das instituições. E assim inventam  um qualquer exames, ou um qualquer processo que nos permita atribuir um número (e.g: nota) incontestável a cada pessoal. O problema é que esses números nunca podem reflectir totalmente nem as capacidades dos candidatos, nem as necessidades das instituições (até porque estas últimas são plásticas). E, no receio obcessivo de que um ou outro gato pingado seja favorecido, acabamos por eleger sistemas que são injustos para toda a gente. Penso que são muitas as áreas onde a descentralização, leia-se, o aumento da autonomia e dos poderes de decisão llocal relativamente a estas matérias traria mais justiça e, também, melhores resultados.


Filipe Baptista de Morais

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Autoridade Alheia

No início do mês o cardeal patriarca de Lisboa comparou o "BES ao jogo Mikado". Porquê, nem me dei ao trabalho de descobrir. Não interessa. O que me parece interessante perceber aqui é porque raio está um dos líderes religiosos do país a pronunciar-se sobre um caso que diz respeito à economia e, eventualmente, à justiça do país.

Verdade seja dita, a culpa nem é do pobre homem mas do jornalista que o consultou neste assunto. Porque não perguntar antes à Susana Félix, ao Bruno de Carvalho ou, já que claramente não existe grande critério, a mim? Poderíamos considerar o acto de responder como criticável em si (já antes escrevi aqui a tremenda promiscuidade existe entre política e religião, sendo óbvio que poderia ter incluído mais áreas na lista), mas hoje vou antes chamar a atenção para a importância que as pessoas (sejam os próprios meios de comunicação social, ou o consumidor final) deram às suas palavras.

Este fenómeno de extrapolar a autoridade que uma entidade possui num campo para outros é conhecido, sendo estudado pela psicologia e explorado pelo marketing. Explica porque temos treinadores e jogadores de futebol (assim como actores de telenovelas) a protagonizarem anúncios a produtos financeiros, por exemplo.

Precisamente por ser um enviesamento de raciocínio bem conhecido, os meios de comunicação social deviam fazer os possíveis por proteger os utentes dos seus efeitos. Infelizmente, vende mais ter uma cara conhecida na televisão a pronunciar-se sobre seja que for. Ou talvez os próprios jornalistas estejam alheios ao disparate em que estão a incorrer. Espero sinceramente que os entrevistados (neste caso o patriarca) estejam, caso contrário seria uma clara demonstração de má fé (no pun intended).

Seja intencional ou não, há uma crise enorme de autoridade alheia, auto induzida/proclamada como incentivada pelos media. Não contribuamos nós também com para esta totalmente arbitrária distribuição de autoridade; sejamos critícos e retiremo-la quando não merecida.


Filipe Baptista de morais

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Perseguindo os perseguidores, sem cepticismo

Há poucos dias deparei-me com uma notícia do público que estava a gerar uma considerável reacção por parte da população. Como sempre, há mais um do que aspecto a merecer referência.

Primeiro, a leviandade com que se extrapola e se tiram conclusões far-fetched de estudos. Não é de todo uma novidade que o espírito crítico e/ou céptico está em vias de extinção()*, mas nunca me deixa de espantar a fraqueza desse espírito, mesmo quando os dados estão à vista. A notícia cita os autores, que alegam que o estudo prova (acredito que o termo escolhido tenha sido obra do jornalista, mas nunca se sabe) que “os estados emocionais podem ser transferidos para outras pessoas através do contágio emocional”. Ora, segundo os dados publicados na mesma notícia, houve "um decréscimo de 0,1% no número de palavras positivas, no grupo dos utilizadores que viram reduzidas as publicações com o mesmo tipo de vocábulos no seu feed, e uma diminuição de 0,07% no total de palavras negativas entre os que foram menos expostos a esse tipo de conteúdos." Percentagens bastante baixinhas diria. Mas talvez sejam significantes dado o # de palavras escritas? Ora pois bem, felizmente a notícia elucida-nos em relação a esse aspecto também. Procurando os números e fazendo uns cálculos simples chegamos à conclusão que os participantes no estudo disseram, em média, 177 palavras. Sendo que 3.6% eram negativas e 1.6% positivas, os participantes disseram em média 6.372 palavras negativas e 2.832 palavras positivas. Agora sem grande rigor estatístico (não é de todo necessário para exprimir este ponto de vista) o tal decréscimo de 0.1% significa que os participante sujeitos a feeds negativos disseram, em média, por volta de menos três milésimas de palavra. No outro caso, estamos a falar de menos de cinco milésimas de palavra. Ora, eu não sei exactamente o que é uma milésima de palavra, mas não me parece algo muito relevante.

Para além dos pequeninos números, há a meu ver outra grande falha nas conslusões desse estudo, que foi o ignorarem completamente o princípio da navalha de Occam.  Ao invés de assumir que os estados emocionais estavam a ser transferidos (*2), não seria mais plausível assumir que as pessoas utilizam com mais frequência as palavras que estão costumadas a ver e ouvir? Afinal, a heurística da disponibilidade é conhecida e está bem estudada e documentada, sendo para além disso relativamente intuitiva e óbvia.

Conclusões e sua robustez à parte, não deixa de ser interessante a indignação exposta por tantos utentes do facebook, ao verem os seus feeds manipulados por algum algoritmo. Esquecemo-nos que na realidade eles já são manipulados, simplesmente por outro algoritmo. A notícia refere isso mesmo perto do fim, acrescentando que "Não é a rede tal como a veríamos sem filtros". Apesar de verdade, penso que a afirmação pode gerar certas dúvidas. É que a "rede sem filtros" é um conceito puramente teórico/filosófico, sem qualquer significado na realidade. Não existe. Não poderia existir. Isso significaria que estaríamos a ver todos os feeds jamais publicados, por nenhuma ordem em particular. E nenhuma ordem exclui até a popular ordem aleatória. Os investigadores limitaram-se, simplesmente, a altear o algoritmo que escolhe aquilo que queremos ver. Mais, enquanto que o algoritmo usual tem o intuito óbvio e admitido de manipular (mostra-nos aquilo que queremos ver, de modo a que gostemos de lá ir), este prendia-se apenas com fins científicos e estatísticos. Não sejamos paranóicos. Forçar que tais inofensivos estudos careçam de avios e autorização prévio é retirar-lhes qualquer valor que eles alguma vez poderiam vir a ter. Nunca os (pseudo) perseguidores foram tão perseguidos.


Filipe Baptista de Morais

*Já agora aproveito para sugerir que se inforem sobre a Comunidade Céptica Portuguesa, assisti o ano passado a umas paletras muitos interessantes organizadas por eles.

(*2) Devo agora talvez salientar que acredito piamente que os estados emocionais são contagiantes; apenas critico a suposta prova dessa tese.

terça-feira, 24 de junho de 2014

Responsabilidade Promíscua

Para introduzir este tema vou recorrer a um recorte de jornal que tinha guardado precisamente para esse efeito, datado de 2 de Dezembro do ano passado. A pequena notícia, referente ao mediático caso Prestige, dizia assim "O vice-presidente da Xunta da Galiza, Alfonso Rueda, garantiu ontem que governo galego vai recorrer do caso Prestrige até que se encontre alguém que seja responsabilizado pelo desastre ambiental de 2002.

Quando se trata de justiça não me agrada, de todo, que se utilizem expressões como a citada. Até que se encontre alguém que seja responsabilizado parece apelar a uma cruzada para encontrar algo que apazigue a turba que clama por sangue: não o responsável mas alguém que seja responsabilizado. Mesmo ignorando esse pequeno detalhe (que provavelmente advém apenas de uma terminologia menos inspirada, parece-me haver uma premissa interessante de analisar. Até que se encontre alguém assume claramente que há culpado. Curiosamente, alguém indica precisamente que não fazem a menor ideia de quem seja o dito. Assumir à partida que há culpado para um desastre é, infelizmente, muito comum. Particularmente em desastres de grandes proporções, em que as consequências são mais trágicas, ninguém quer que a culpa morra solteira. Mesmo que ela não tenha um par à altura.

Outro erro muito comum é o de julgarmos que quando as coisas correm mal é necessário mudar algo. Ou, de forma equivalente, que não é preciso mudar nada quando tudo parece estar a correr bem. No fundo, subestimamos largamento o papel do acaso nos eventos que nos rodeiam, sobreestimando o controlo que exercemos sobre os mesmos.

Ambas as situações requerem uma cuidadosa análise dos pares causa-efeito presentes, assim como da informação e meios disponíveis na altura das descisões*, não podendo nunca ser considerados apenas os outcomes.

E não podemos deixar que a gravidade de uma ocorrência nos leve a tirar conclusões àcerca de responsabilidades.


Filipe Baptista de Morais

* De factor, esta contextualização revela-se muitas vezes surpreendentemente difícil de executar, levando a erradas imputações de culpa ou falha.

domingo, 25 de maio de 2014

Chumbar ou não chumbar: eis a questão

Li recentemente este interessante artigo, sobre os exames escolares no 4º e 6º ano e suas consequências.

Antes de mais gostaria de salientar que todos os comentários que se seguem tomam por certo, numa crença e falta de cepticismo algo incomum em mim, todos os dados que o autor do artido alega virem de estudos ou investigação, apesar de não apresentar referências para os mesmos, como já é hábito no jornalismo. Para quê, se ninguém as vai verificar de qualquer modo?

É muito interessante, e ainda mais perturbador, a envolvente socioeconómica do aluno ter um papel tão preponderante nas notas dos jovens estudantes. Mas não é de todo surpreendente: não é difícil de perceber que uma criança que seja incentivada pelos pais a ir à escola e aprender, que em casa tem o espaço, meios, condições e até apoio necessários ao estudo e à realização dos trabalhos de casa(*) tenha melhores resultados que outra cujos pais vêm a escola como um empecilho, e que ao sair da mesma ainda tem que ir trabalhar nisto ou naquilo. Atrevo-me até a dizer que tal tenderá a propagar-se por muitos anos à frente, já que características como o empenho, dedicação, brio e honestidade (necessárias aos estudante) são certamente plantadas e alimentadas no lar.

Concordo portanto naturalmente que, a haver um exame com poder reprovador, a proporção dos reprovados seja maior nos alunos com piores envolventes socioeconómicas. Já com a conclusão, de que isto levará a maior exclusão social, não posso concordar.

A  escola não serve, como muitos parecem acreditar, para manter as criancinhas entretidas durante 9 ou 12 anos. Serve sim para lhes ensinar competências consideradas essenciais para que vivam o resto das suas vidas de forma autónoma e responsável. Se uma criança do 4º ou do 6º ano não tem as competências previstas no programa escolar, penso ser mais cruel e penalizador deixá-la prosseguir como se nada fosse, em vez de repetir o ano e progredir realmente. Pior, tira das crianças quaisquer pressão e responsabilidades que, convenhamos, são bem necessários quando os pais não lhas transmitem em casa.

O analista da OCDE diz que "em Portugal há uma tendência para equiparar as notas dos exames aos resultados das aprendizagens", como se tal fosse negativo ou descabido. Na minha opinião, apenas o é se os exames forem mal feitos. E de facto são-no muitas vezes (pelo menos eram no meu tempo - mais sobre isto num post para vir). Mas isto apenas quer dizer que se tem de investir mais (não se assustem, não falo de dinheiro) nos meios de avaliação, e não alterar as conclusões e repercussões a tirar dos mesmos.

Outro aspecto a melhorar tem a ver com a mentalidade das pessoas. A criança que chumba não é necessariamente estúpida, preguiçosa ou delinquente. Simplesmente ainda não adquiriu as competências que necessita para transitar de ano. Chumbar uma criança que não obteve o aproveitamente necessário devido, por exemplo, a doença prolongada que a impediu de assistir a grande parte das aulas, não é portanto uma crueldade mas uma infeliz necessidade. E o professor que deixa passar um aluno quando em consciência sabe que ele não merece a nota que lhe vai dar (*2), não o está a ajudar, mas antes a compactuar com um sistema no qual o feedback não reflecte os verdadeiros resultados obtidos. Para um engenheiro de controlo, tal seria equivalente a ter uma retroacção independente e alheada da saída do sistema (ie: resultados), quiçá derivado de um observador mal desenhado (eg: um exame mal formulado), com um desfecho bem conhecido: total imprevisibilidade e, logo, instabilidade (descontrolo).


Filipe Baptista de Morais

(*) Na realidade acredito que os trabalhos de casa são já muitas vezes excessivos, desnecessários e/ou desenquadrados. Mas não é sobre isso que estamos a falar.

(*2) Semelhante aplica-se ao professor que sobe um ou dois valores a um aluno para que este atinja os seus objectivos (exemplo clássico: entrar em medicina). Aí está, de facto, a ajudá-lo, mas à custa de outro pobre desgraçado que teve um professor com maior sensibilidade/consciência social e, atrevo-me a empregar o termo, menos corrupto.

domingo, 11 de maio de 2014

Active Engineering

I've come across this video, which is from a start-up requiring crowd funding to achieve its goal: to make (little) girls more into engineering through clever use of specialty (pink) toys. Besides making money, of course.

This would be a praise worthy goal, were it not twenty years late. Who cares if more women go to engineering in the future, when I'm done with college already? Now, it is only worth mentioning for the social issues it may raise. First of all, why bother with it at all? Would a world with more female engineers be a better one? [ spoiler alert: it would. Trust me, I'm an engineer. ] And then, isn't it wrong to try and machiavellianly push girls into engineering?

Although it may sound so, I would answer negatively to this last question. Truth is, girls are being passively (no evil master-mind behind it) pushed away from engineering. Western culture and education clearly pictures the role of an engineer as a male one, perhaps apart from the fields closer to biology or the environment. Or you can see it the other way around, it pictures men as engineer-like, and women not so much. Of course, one may argue that the skills and personality traits required in Engineering are more appealing to (or more common in) men than women. But, as always, the line between biological pre-disposition and cultural/educational biases is quite blurred.

That being said, this active manipulation (or engineering, as the woman in the video puts it) does not seem wrong at all. In fact, it simply shows some understanding in the way our society works, and actively tries to counter passive manipulation. A noble cause? Perhaps not. But it seems harmless enough as well.


Filipe Baptista de Morais

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Go After It

I would like to start this short post by linking this TED Talk, on the possible benefits of stress. While the studies backing the first claims do seem to lack some robustness, statistically speaking, the lecture itself is extremely interesting. Personally I've always felt like stress makes me grumpier and less social rather than more empathetic as suggested. Still, we're often wrong when trying to perceive our own behaviour, and I guess it is undeniable that stressful moments do indeeed push ourselves into opening ourselves and sharing our feeling with others as a ways to easen our burden. Physically speaking everyone knows it can work both ways: it can make us capable of the most astonishing physically prowesses as well as cripple us in the most ridiculous ways.

For me the best part of the speech, apart from the good looking speaker, is her final advise: "chasing meaning is better for your health than trying to avoid discomfort, (...) go after what it is that creates meaning in your life and then trust yourself to handle the stress that follows." Stress comes and goes, and so do regrets, while meaningful things will linger within us much longer. Even if it were not better for your health, in the end it would still be definately better for your life. If you have found what it is that creates meaning in your life, go after it.


Filipe Baptista de Morais


domingo, 21 de julho de 2013

Passive Observers

A recent study (well, it was recent when I read it) estimated that, for every 100.000 people living in Portugal, 10.3 committed suicide every year. Obviously nobody cares about the suicidal 1/3 of person, but the others account to over one thousand per year all over the country. It the major cause of death amongst violent ones.

In order to address this issue,  the study proposes some measures such as resctriction of access to lethal means, as well as an increase on the price of booze. While the first makes perfect (despite being hard to implement) the latter hardly makes sense to me: paying extra to drown one's sorrows should  make people more miserable, not less.

At any rate, what really caught my attention was another recommendation, stating that journalists should have special training so as to know when and how to cover suicides, since this can have a devasting effect in its spread.

This is very interesting, since it clearly moves journalists away from their usual (percepted) passive observer state to an intervening one. This is absolutely true, and it is an important issue due to it being extremely hard to legistate: freedom of spech is a Human Right which is specially dear and relevant to the press/media. Apart from ongoing investigations, journalists are pretty much free to report anything they want, also choosing when and how to do it. Hell, if you live in Portugal you can even drop that constraint.

There are two things I really think the media should be trying to improve. The first is how to report news. Certainly the 100% rational and unbiased journalist is an utopia, but they could at least pretend they are trying. Sensacionalism and biased views  are (increasingly) winning the battle over seriousness. The second is what to report. In my opining, a TV newscast on a public channel should not waste fifteen minutes (each day) of its time talking about football. Nor should it let terrorists spread their message to the world, since we really should not care.

But wait, nevermind that, ratings are more important.


Filipe Baptista de Morais

segunda-feira, 8 de abril de 2013

Cute yet dangerous

The newspaper Metro published this very interesting news on March 22nd, entitled "São lindos e ainda salvam o planeta", meaning They're beautiful and, on top of that, they save the planet. It basicly applauds the new environmentalists' trend to use cute and fluffy animais to raise people's awareness and help them  protect the environment in several ways.

You don't really need a degree in psychology to assertain that this is a good idea (in the sense that it will work). Nobody cares about some ugly bush or spider, but by all means please save the dolphins and the koalas! In fact I've already written about this issue previously in 2010, in the post "Who Cares?". Curiously enough, that post also emerged has a response to a news from Metro. Now that I think of it, I believe those were the only two times I've seen the term fluffy being used in a newspaper.

What I want to talk about now is not that irrational concern for cute species, but rather how using those images to make people more interventive may not be as harmless as it might seem at first glance.

I'd like to start by going a bit against the generally accepted theory that it's big corporate interests, in all their greed, that are destroying the planet while we all, in our best of intentions, stand powerless against them. There are many flaws to this reasoning. First, we should never forget that these big mean corporations are ultimately working for us. Sure, we all hate oil companies and how they're careless in their handling of oil and so on. But we also get furious when fuel prices rise. Or when clothes get more expensive. We all like to act as if protecting the environment is effortless and comes with loads of advantages and no cost. But, be sure of it, protecting the environment can be very expensive sometimes. As an example, I remember this time when a professor of mine was talking about this project he'd worked on, to install some power lines in Portugal. They had this (cheap) project to make the connection through air cables but then some environment protection organisation stood against it by arguing that it would be harmful for this local bat population. The court decided in their favour, and the cables had to be installed underground. This change made the whole project cost ten times more and of course it's us, consumers, who are paying for it. Another example could be Portugal's heavy investment in renewable energies over the last years, usually loved by the crowd. Thing is, it seems that, were we not to be using any renewable energies at all, our electricity bill would be 30% cheaper. That's a huge cost, when all hell runs loose after each few percents increase. Mind that I'm not defending that we shouldn't care about the bats or using renewable energies; I'm just saying we also need to be aware of the costs of doing so.

Another critic to that line of thinking is that, nowadays, we're far from powerless. Besides changing our habits towards more environment friendly ones, we can also fight those big mean companies through public journalism, by divulging their acts. In fact, internet has made bad publicity so poweful that it's precisely the bigger companies that are most likely to make big contributions and gestures towards environment protection. Of course one can question their motives, but the result is the same.

Back to the initial theme, those fluffy animais are dangerous because they make us blind to the downsides of their (over?) protection. Of course, as the Metro news reported, they're mostly used for higher purposes, such as saving their uglier brothers and sisters. Yet this means that we're somewhat being tricked and manipulated into helping a cause. And if the purpose of any action is ill-defined or hidden, how are we supposed to make just and informed decisions? As I've already tried to demonstrate, going as green as possible might not always be the right decision.

Some might claim that environmentalists are reasonable people with good intentions and so will use this "new" persuasion technique with care, parsiomony and responsibility. Still, as we all know, the road to hell is paved with good intentions. Moreover, focusiing all important decision making in some enlightened few is both dangerous (everyone is wrong sometimes) and dictatorship like.

Other possible argument in defense of this behaviour is that our consumer habits and lifestyles have led us so far from being green that, even if we turn the meter as far as we can on the other direction, we still wouldn't be too green. Perhaps. Problem is, in all arguments, it's the most fanatic who make the most noise.

In the end, I guess we'll have to hope that reason and good sense will prevail over sensacionalism, both amonst environmentalists and ourselves.


Filipe Baptista de Morais

domingo, 2 de dezembro de 2012

Irrational

Last Summer I had the privilege of reading, among other masterpieces, Thinking, Fast and Slow. The authoer, Daniel Kahneman, is a psychologist who was awarded the Nobel prize in Economics over his work around the psychology of judgement and decision making.

The book compiles a huge list of behavioural and decision biases, illustrating their effect through conducted experiments. These include, but are not limited to, the (amazing) anchoring effect, availability heuristic, base rate neglect, confirmation bias, decoy effect, duration neglect, expectation bias, framing effect, gambler's fallacy, illusion of control, insentivity to sample size, irrational escalation, just-world hypothesis, less-is-better effect, loss aversion, negativity bias, normalcy bias, omission bias (what we see is what we believe), optimistm bias, outcome bias, zero-risk bias. While it would take way too much time and paper (yes I still use it) to go through all of them here I urge you to look them up or, even better, read the book! Of course you can also just ask me, and settle for an ignorant's response.

The author tries to find a raison d'étre for these odd behaviours, ending up with the theory of the 2 systems. Basically he believes we're equipped with two different thinking mechanisms (without trying to make any physical/biological association). The first one is fast, emotional and hugely biased and heuristic based, thus irrational. The second is rational, though slow, and it's basicly how we think of ourselves in terms of reasoning. Unfortunately we're wrong, terribly wrong. Seems like system 1 is the one pulling the string as default, and system 2 is only called upon through conscious and effortful focusing. The conclusion is simples: we're not rational.

That statement, although seemingly inoquous and theoretical, has a huge practical impact in many different areas. Enough to be acknowledged with a Nobel prize in Economics. The reason is trivial: the entire Economy system is based on the premise that we are (or at least resemble greatly) rational agents. The same happens in other important areas, such as the political systems. When you drop that single premise it's as if we're solving a Maths problem with the wrong equations. The numbers add up, but the solution doesn't hold. And that really is a problem; we're agents alright, but hardly rational. After reading this book, I'm inclined to think that Dilbert (from The Dilbert Principle) was actually closer to the truth: people are idiots. Not my beloved readers, of course.

Of course politicians and people from marketing are aware of some of these 'glitches' in human reasoning, exploiting them to sell an item or an idea. It is not rare at all to listen to people complaining that they are manipulating us. However, from what I've read, I'm afraid this might be just the beginning. Sadly, being aware of our flaws is only helpful to some extent, given that our attention span is quite limited and therefore we'll quickly rever to our irrational form.

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Among the Clouds

Recently  I had the chance to fly in executive class for the very first time. Best of all, I didn't even have to pay for it: there were vacant seats in 1st class and, for some reason, TAP (a Portuguese flight operator) kindly upgraded me.

At first I thought I would regret accepting the offer, since it meant travelling alone (I had two friends in regular seats) and my seat, while having a lot of space, did not have a table. Things started to look brighter when the happy-to-help (or at least looking like it) flight attendant explained me how to unfold the table hidden in my armchair. But the good stuff was yet to come. I was asked to pick some readings from a considerable stock of newspapers and magazines (I was almost ashamed to choose a sports newspaper) and soon after whether I'd like an apperitive. Martini seemed fine. Then came the menu, along with the wine list. Since I don't really appreciate octopus, the choice was obvious: white fish mousse as appetizer, roast veal with gnocchi for the main course and, wrapping-up the meal, lemon pudding. As it should always be, coffee came next. When asked for my (red) wine preference, I (cleverly I'd say) escaped the embarassment of answering "I don't have any" by stating my confidence in the house's choice. The whole meal was utterly delicious, and having proper napkins and silverware (the knife was not sharp, but proved itself quite a match for the extremely tender meat) also helps. The trailers are collected individually, so you are not face with the messy and slow cart rolling down the tiny corridor.

My only (but severe!) complaint goes for the coffee. I truly cannot understand how a Portuguese company can serve anything other than expresso under the label of coffee. Even if most of the passengers are not Portuguese I believe their countrymen deserve better treatment.

My long-time readers might be finding this post a little odd, due to its strongly personal nature. Not wanting to disappoint their predictions I'll finish it with a small reflection.

Although the executive class seats were mostly vacant (I counted at least 15), the staff did not bring people from the other aisle to fill it. While this could indeed lead to small savings (in drinks mostly) I don't think that was the determinant factor for the decision. It could be argued that executive class passengers, having payed extra, would not find it funny see people who bought cheaper tickets being given the same privileges. This is probably true, but still I believe the real reason lies elsewhere. I'm convinced that the main reason to be the feeling of unfairness that regular class passengers would experience when their neighbour is (randomly) upgraded, but not themselves. This leads to an extremingly interesting phenomena: given a group of people, the overall happiness is higher when they are all given average conditions, compared to the situations where only some are given better than average treatment. This is highly irrational: nobody is actually any worse, but you feel worse because you know there are others who are better, for no plausible reason. This also justifies why happiness seems to be much more correlated to discrepancies in income rather than the average. Does that mean that we'll never feel great unless others feel miserable? That certainly does not seem a flattering trait, but it might well be close to the truth.

domingo, 25 de novembro de 2012

Intellectual Art

It is quite interesting, even funny, to notice the evolution of modern art. In my opinion, art nowadays stands where science stood a few hundred years ago: an intellectual "island" that few can access. And proudly so.

This intentional separation of art from the mass public can be seen in painting, music, literature, architecture, etc... I guess at this point some of you might be thinking I'm far off from reality; a simple check on the number of youtube views or Itunes downloads of one of Bieber's songs seems to prove me wrong. But what would you see if you were to check the comments' section? Lots of heavy criticism, arguing that it is not so much "real" art but rather comercial crap for the mass market. Which I could agree with by the way.

If you ask a so called expert he'll tell you the same: Justin Bieber makes terrible music; Goldberg variations are the ones to look out for. And that painting you've seen at the museum (the horrible one which seemed that the painter tried to drink all of the paint and ended up throwing up on the canvas) is just too complex for you. It is interesting and beautiful, we're just too dumb to realise it. But there's no need to feel bad about it since the whole word falls under the simpletons' bind, except for a few enlightened minds.

But how then can you distinguish junk art from the real thing? Seemingly useful features, such as the number of people who actually enjoy it, do not seem to be fit taking the stated above into account. In previous times a work of art was often classified according to the skill required to perform it. This is also not the case with the modern art, since skillwise complicated art forms are considered arrogant and ostentacious and minimalism is the word of order. So where does that lead us? To highly random and unpredictable domain, I'm afraid.

I believe this behaviour is mostly related to the need of differentiation and feeling superior. It is not rare to listen to someone saying, in a snobbish manner, something like 'It's a shame they don't know how to appreciate this wonderful painting' or ' I recognise it's a type of art that is difficult to enjoy'. You can even extend its scope to other areas which might not be uncontroversially classified as art, such as wine making or cooking.


Filipe Baptista de Morais

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Inconsequent complaints



These days it is common to find references to the advantages of optimism and the undesirable consequences of negativism. I recently came across this article which states that, besides being contagious and harmful, listening to complaints can actually make you dumb.

The article cleverly outlines the distinction between relevant complaints (that call attention for issued that need to be solved) from inconsequent complaints. These, which are the nasty dumbening elements, do not call for a solution for the problem. In fact they don’t even pretend to, they simply aim to share the reasons why the person feels miserable or outraged.

This type of emotional craving is quite commonm particularly in women. But it is not entirely negative since it is also known that restraining our feelings (that is, not sharing them) can have an important and negative impact in one’s happiness. Even in social terms sharing problems, even unsolvable ones, is a powerful connectivity tool, as well as a proof and foundation of friendship. The ‘shields’ mentioned by the authoer might be more costly than it could seem.

As a final note I’d just like to say that the evidence presented to support the negativism’s dumbening properties theory does not seem that conclusive. It appears to me to be a huge leap of faith towards unknown territory, trying to prove some (previously concepted) point.


Filipe Morais 

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Outcomes

It’s nowadays pretty much standard procedure to judge everything by the outcomes it produces. This can be blamed on two main issues. Firstly, it’s much easier to evaluate the results of an action than the foundations upon which it was based. Secondly and every bit as important as the first, results are often all that matters in this life. However, one must remember to keep a long term perspective in terms of objectives. This means that we should try to maximise the chances of attaining good results, which in turn is equivalent to betting in the ones with most qualities, which are not necessarily the same as those with best performance (in a finite time interval). Fortune often has an important role in the outcome of these events.

This phenomena of focusing on the outcome while totally despising fortune’s role in the outcome of a decision is well known, being know in psychology as the Outcome Bias. And it is most certainly real. The goalkeeper that dives in the wrong direction in a penalty shoot was tricked or deceived. Had the ball gone that way, though, he would have had a correct a smart reading of the play and of the shooter’s body language. We all know this. But has any of us in fact seen the shot in slow motion, analyzing the players’ movements, actually trying to predict the events or looking for evidence that the goalkeeper is doing the same? Considering the shooter now, scoring a penalty “Panenka style” is a sign of geniality and self confidence. Missing in the same manner, however, reveals stupidity, recklessness, over-confidence and negligence. But what separates one situation from the other, apart from the goalkeeper’s behaviour? Why should we judge the forward’s decision differently depending on others’ response? The subtle way we describe the winners as (positively) confident and the losers as over-confident is by itself interesting enough.

This spreads much wider than sports: stocks were smartly purchased if their value increases, a company well managed if it is successful and even a gambling bet is sometimes considered intelligent if it pays off. Imagine two different roulette players betting recurrently on red. Both of them make five consecutive bets: the first one wins them all while the other wins the first four and loses the last. Obviously, the first player was smart enough to know the right time to call it a day, whereas the latter was clearly misguided by his endless greed. Nevertheless, they both took the same decisions, with access to the same information. The a line between a clever and a stupid move becomes even more tenuous, and therefore its evaluation linked to its outcome, when we mix talent and fortune in an inseparable way. The first example that comes to mind is a poker game.

This phenomena is related to our difficulty in mentally reposition ourselves in a different time or context. When evaluating an event or action, we are unable to put side all posterior information which was not available at the time. Moreover, we tend to be surprised by the way the agents ignore those future events, verbalising statements such as “how did he not did that coming?” In truth, few of us would consider ourselves capable of foreseeing. But none of us thinks twice when it comes to analysing the past, often and systematically misunderstanding flukes for causality, bad luck for incompetence and good fortune for geniality.


Filipe Baptista de Morais