Há dias deparei-me com uma notícia no jornal Expresso sob o título "Privação de sono nos médicos pode afectar atendimento aos doentes". Para uma conclusão tão óbvia penso que poderia remover o hipotético pode; ainda assim abri a notícia com algum interesse, julgando tratar-se de algum testemunho clínico sobre más decisões tomadas em cima de uma noite não/mal dormida.
Mas não. A notícia refere antes um estudo que, após avaliação de 18 jovens médicos, concluíu que a privação de sono leva a um declínio nos níveis de concentração, pior resposta a estímulos e menor velocidade de reacção face aos mesmos. Pois bem, isto seria muito interessante se não fosse já mais que sabido. Eu pelo menos sei que quando faço directas não me consigo concentrar tão bem. A minha mãe sabia-o quando me dizia para não me deitar tarde em dias de escola. O IMTT sabe-o quando alerta para o aumento do tempo de reacção com o cansaço. Os pilotos sabem-no. Que raio, até as seguradoras médicas o sabem e não se responsabilizam por erros médicos cometidos após mais de x horas de trabalho consecutivas. Mas, aparentemente, a comunidade científica não o sabia.
Logo no início da notícia o estudo é referido como "o primeiro estudo feito em Portugal sobre os efeitos de privação de sono nos médicos". Talvez esteja aqui o problema; apesar de estar mais que demonstrado que as pessoas têm certas capacidades diminuídas com o cansaço tal efeito nunca tinha sido estudado em médicos Portugueses. Mas há que perceber que os médicos são pessoas e Portugal fica no planeta Terra, e que portanto considerações mais genéricas também se lhes aplicam. É que senão arriscamo-nos a, daqui a duas semanas, estarmos a perder mais tempo (e recursos e dinheiro) a investigar se o cansaço também afecta engenheiros Italianos. (De referir ainda que existe obviamente na literatura estudos sobre os efeitos da privação do sono com amostras um bocadinho melhores que dezoito pessoas*).
Dito isto, tenho que concordar com as sugestões apresentadas no mesmo estudo, face às conclusões a que chegaram **. Seria interessante estudar a possibilidade de escalonar os médicos em turnos mais curtos, como penso ser o caso dos enfermeiros. Suponho que seja mais difícil, visto que há menos médicos que enfermeiros e as logísticas de escalonamento tornam-se mais complicadas em grupos pequenos. Mas, a ser exequível, o utente teria muito a ganhar.
Filipe Baptista de Morais
*Em defesa do estudo, há que dizer que pode ter sido simplesmente mal noticiado. O artigo refere que compararam médicos que faziam trabalho nocturno com outros que não o faziam, mas não diziam quando os testes eram realizados (ie: se na manhã seguinte ou se em qualquer altura aleatória). Também nada dizem sobre a magnitude dos efeitos observados. É, portanto, possível que o estudo seja mais interessante do que aqui faço parecer mas, dado que não fornecem meios para que possa consultar o original (nem sequer referem o título do estudo) a minha análise teve que se basear no conteúdo da notícia em si.
** Na realidade, arriscaria dizer que o estudo em si não passou de um pretexto para poderem divulgar essas sugestões.
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sábado, 26 de setembro de 2015
terça-feira, 18 de agosto de 2015
Cultura Snob
Este texto surge como um comentário ao artigo de Henrique Monteiro no Expresso, intitulado Um elogio da CNB à Gulbenkian. E à classe média.
Aparentemente o jornalista foi assistir a uma atuação da Companhia Nacional de Bailado e adorou, achando depois por bem elogiar a dita e recomendá-la a todos os seus leitores. Nada contra. O que venho aqui criticar é a visão snob da cultura, assim como algum alheameanto da realidade, que me parece transparecer ao longo do texto.
Comecemos pelo snobismo. Henrique Monteiro considerou o espectáculo a que assistiu um elogio à class média porque "(...) é ela que prova que, desde que o acesso lhe seja possibilitado (neste caso é gratuito), adora ver dança, teatro ou música de grande qualidade (e não os programas para mentecaptos que algumas estações televisivas produzem)". Fica pois claro que é louvável gostarmos de dança, teatro ou música (não esquecer o de grande qualidade, já que neste capítulo penso que apenas se referiria à clássica) e criticável assistir aos tais programas de televisão (embora não particularize, assumo que se refere a programas como Casa dos Segredos e Tardes da Júlia).
Mas, pergunto eu, porquê? Assisstir a um bailado fará de mim uma pessoa melhor ou mais inteligente? Esta adulação das artes clássicas (ópera, teatro, bailado, etc...) em detrimento de formas de entretenimento mais populares (programas de televisão, jogos de futebol, jogos de computador, etc...) não é mais do que uma tentativa colectiva (e, espero, sub-consciente) da parte dos seus apreciadores de se sentirem superiores à restante população. Vai muito de encontro ao agora sobejamente difundido conceito de arte difícil, que justifica o desagrado que alguém sente perante uma obra de arte considerada genial pelos peritos como mera ignorância ou preguiça. Uma obra (pode ser um quadro, uma composição musical etc...) elevada a este patamar tem uma série de benefícios: para além de aqueles que verdadeiramente a apreciam (que serão, naturalmente, poucos já que que se trata de arte difícil) a obra receberá elogios de muitos outros que, por receio de exclusão social (eg: serem considerados mentecaptos) não se atreverão a expressar a sua verdadeira opinião sobre ela. Finalmente, todos aqueles que a repudiarem verão as suas opiniões descartadas como inválidas por desconhecimento ou falta de hábito. A obra é assim, de certa forma, elevada por unanimidade já que os seuscríticos simplesmente ainda não desenvolveram as competências e capacidades necessárias à sua verdadeira apreciação. A enologia e a gastronomia gourmet também já começam a dar os primeiros passos nesse sentido.
A verdade é que o Mundo não ficará melhor por eu ir assistir a uma atuação da CNB em detrimento do Benfica-Sporting. Nem o meu (des)gosto por bailado diz algo sobre a minha capacidade intelectual ou sobre o meu carácter (pode dizer, isso sim, muito sobre o meu estrato social, fundamentalmente devido ao fenómeno de pressão social que explicitei no parágrafo anterior).
É óbvio que Henrique Monteiro (e muitos outros) discordaria de mim. O parágrafo imediatamente abaixo ao citado demonstra-o bem. No entanto, o que vou dizer a seguir é mais uma constatação do que uma análise, pelo que espero ser mais consensual.
É que, por muito que os eruditos desejam o contrário, a classe média não adora ver dança, teatro ou música, a não ser que esta última se refira ao Justin Bieber e a primeira ao Dança com as Estrelas. A realidade é que são os estádios de futebol de que atraem dezenas de milhares todas as semanas, são os programas para mentecaptos que têm audiências de milhões (e sim, a classe média também faz parte desses milhões). Até porque, vejamos, se considerássemos que são apenas as classes baixas que enchem os estádios de futebol (com bilhetes tipicamente à volta de 10-30 euros) então certamente que a classe média não se importaria de pagar o dobro ou o triplo pelos seus passatempos intelectuais.
Dizer que a classe média adora ver essas actividades "desde que o acesso lhe seja possibilitado" não faz, portanto qualquer sentido. Os espaços existem e condições económicas para pagar a actuação também. O que falta é mesmo vontade de ir. Diria até que as enchentes que o jornalista refer não se devem de todo ao facto das actuações serem gratuitas, mas sim por estarem inseridas no Festival ao Largo, um evento da moda. Arriscaria dizer que a maioria dos espectadores estava mais interessada em marcar presença e contar aos amigos que lá tinha ido do que propriamente na atuação.
Ligar o teatro e o bailado à identidade do Português revela um ainda maior alheamento da realidade: o Tuga tem muito mais que ver com futebol do que com qualquer uma das duas.
Assim, com todo o mérito que a actuação da CNB possa ter tido, não vejo nela qualquer elogio à classe média. Já nas palavras do jornalista vejo um claro (embora involuntário) insulto à mesma.
Aparentemente o jornalista foi assistir a uma atuação da Companhia Nacional de Bailado e adorou, achando depois por bem elogiar a dita e recomendá-la a todos os seus leitores. Nada contra. O que venho aqui criticar é a visão snob da cultura, assim como algum alheameanto da realidade, que me parece transparecer ao longo do texto.
Comecemos pelo snobismo. Henrique Monteiro considerou o espectáculo a que assistiu um elogio à class média porque "(...) é ela que prova que, desde que o acesso lhe seja possibilitado (neste caso é gratuito), adora ver dança, teatro ou música de grande qualidade (e não os programas para mentecaptos que algumas estações televisivas produzem)". Fica pois claro que é louvável gostarmos de dança, teatro ou música (não esquecer o de grande qualidade, já que neste capítulo penso que apenas se referiria à clássica) e criticável assistir aos tais programas de televisão (embora não particularize, assumo que se refere a programas como Casa dos Segredos e Tardes da Júlia).
Mas, pergunto eu, porquê? Assisstir a um bailado fará de mim uma pessoa melhor ou mais inteligente? Esta adulação das artes clássicas (ópera, teatro, bailado, etc...) em detrimento de formas de entretenimento mais populares (programas de televisão, jogos de futebol, jogos de computador, etc...) não é mais do que uma tentativa colectiva (e, espero, sub-consciente) da parte dos seus apreciadores de se sentirem superiores à restante população. Vai muito de encontro ao agora sobejamente difundido conceito de arte difícil, que justifica o desagrado que alguém sente perante uma obra de arte considerada genial pelos peritos como mera ignorância ou preguiça. Uma obra (pode ser um quadro, uma composição musical etc...) elevada a este patamar tem uma série de benefícios: para além de aqueles que verdadeiramente a apreciam (que serão, naturalmente, poucos já que que se trata de arte difícil) a obra receberá elogios de muitos outros que, por receio de exclusão social (eg: serem considerados mentecaptos) não se atreverão a expressar a sua verdadeira opinião sobre ela. Finalmente, todos aqueles que a repudiarem verão as suas opiniões descartadas como inválidas por desconhecimento ou falta de hábito. A obra é assim, de certa forma, elevada por unanimidade já que os seuscríticos simplesmente ainda não desenvolveram as competências e capacidades necessárias à sua verdadeira apreciação. A enologia e a gastronomia gourmet também já começam a dar os primeiros passos nesse sentido.
A verdade é que o Mundo não ficará melhor por eu ir assistir a uma atuação da CNB em detrimento do Benfica-Sporting. Nem o meu (des)gosto por bailado diz algo sobre a minha capacidade intelectual ou sobre o meu carácter (pode dizer, isso sim, muito sobre o meu estrato social, fundamentalmente devido ao fenómeno de pressão social que explicitei no parágrafo anterior).
É óbvio que Henrique Monteiro (e muitos outros) discordaria de mim. O parágrafo imediatamente abaixo ao citado demonstra-o bem. No entanto, o que vou dizer a seguir é mais uma constatação do que uma análise, pelo que espero ser mais consensual.
É que, por muito que os eruditos desejam o contrário, a classe média não adora ver dança, teatro ou música, a não ser que esta última se refira ao Justin Bieber e a primeira ao Dança com as Estrelas. A realidade é que são os estádios de futebol de que atraem dezenas de milhares todas as semanas, são os programas para mentecaptos que têm audiências de milhões (e sim, a classe média também faz parte desses milhões). Até porque, vejamos, se considerássemos que são apenas as classes baixas que enchem os estádios de futebol (com bilhetes tipicamente à volta de 10-30 euros) então certamente que a classe média não se importaria de pagar o dobro ou o triplo pelos seus passatempos intelectuais.
Dizer que a classe média adora ver essas actividades "desde que o acesso lhe seja possibilitado" não faz, portanto qualquer sentido. Os espaços existem e condições económicas para pagar a actuação também. O que falta é mesmo vontade de ir. Diria até que as enchentes que o jornalista refer não se devem de todo ao facto das actuações serem gratuitas, mas sim por estarem inseridas no Festival ao Largo, um evento da moda. Arriscaria dizer que a maioria dos espectadores estava mais interessada em marcar presença e contar aos amigos que lá tinha ido do que propriamente na atuação.
Ligar o teatro e o bailado à identidade do Português revela um ainda maior alheamento da realidade: o Tuga tem muito mais que ver com futebol do que com qualquer uma das duas.
Assim, com todo o mérito que a actuação da CNB possa ter tido, não vejo nela qualquer elogio à classe média. Já nas palavras do jornalista vejo um claro (embora involuntário) insulto à mesma.
domingo, 22 de março de 2015
Desigualdades de (e diferenças entre) Géneros
O recente dia Internacional da Mulher voltou a trazer o tema da Igualdade de Direitos para cima da mesa, e deu azo a todo o tipo de notícias e intervenções. Como é um tema que, na minha ótica, é sistematicamente mal avaliado e abordado (e também como já tinha abordado o assunto noutro post que pecou por falta de clareza) decidi escrever sobre o assunto. Para explicar melhor as minhas opiniões fui compilando notícias ou artigos que serviam de exemplo a algum ponto que me pareceu importante.
Comecemos por estabelecer terreno comum e consensual. Deve existir igualdade de direitos entre homens e mulheres. Penso que muito poucos cidadãos do chamado Mundo Ocidental discordariam desta afirmação, e eu certamente que não o faria. Taambém creio ser consensual que, a nível mundial, essa igualdade está longe de existir. Em muitos países a mulher ainda nem é reconhecida como cidadã plena perdendo, entre outros, o direito ao voto. O debate e a luta pelos direitos da mulher é portanto actual e necessário, nesta perspectiva global. É a nível local que a questão parece estar mais ultrapassada.
Uma questão que considero importante realçar é a distinção entre dois tipos de desigualdade.
O primeiro é a desigualdade de direitos (daqui por diante quando falar de desigualdade apenas é disto que estarei a falar) e caracteriza-se por ter um carácter premeditado (ie: é imposto expressamente e propositadamente e não é consequência da conjugação de diversos factores, nomeadamente o acaso) e por ter enquadramento legal (ie: é reconhecido, aceite e perpretado por um Estado ou semelhante). São exemplos óbvios e claros desta desigualdade os países onde a mulher não tem direito ao voto, ou a conduzir.
O segundo tipo, a que vou chamar diferença e não desigualdade, é uma constatação empírica (factual ou não) que não é nem premeditada nem estipulada legalmente, apenas o é e é-o por causas eventualmente desconhecidas e/ou incompreendidas. Um exemplo disto são os salários médios mais baixos auferidos pelas mulheres: são um facto mas não são impostos por nenhuma política ou lei, nem são resultado da acção deliberada de nenhum agente económico.
A diferença entre estes dois conceitos é extremamente importante para esta discussão. Isto porque enquanto as desigualdades são sempre erradas e podem e devem ser resolvidos legislativamente, o mesmo não pode ser dito das diferenças. Estas não são, em si mesmas, negativas nem positivas. Mais, não sendo instauradas explicitamente, também não podem ser removidas dessa forma (eg: assim como nenhuma norma diz que as mulheres recebem menos que os homens não se pode fazer uma a dizer que receberão o mesmo). As diferenças são, quanto muito, manifestações de desigualdades.
São, no entanto, misturadas com frequência, como quando Hillary Clinton (e tantos antes e depois dela) referiu o rácio de CEOs mulher como uma violação dos direitos da mulher (ou do Homem já que, como ela refere e bem, estes são iguais para ambos os géneros). Referiu também que as mulheres são as mais afectadas nas questões de saúde e alimentação, mas aqui confesso que não faço a mais pálida ideia do que está a falar. Tanto quanto sei a esperança média de vida das mulheres é superior à dos homens em todos os países desenvolvidos, sendo uma das razões apontadas para tal precisamente a prática de melhores hábitos alimentares. E porque raio, já agora, é que toda esta lógica simplística (de ver desigualdades em estatísticas diferentes de 50%) não considera a menor esperança de vida do homem como uma desigualdade e violação dos direitos do homem?
Acho importante realçar, neste ponto, que a distinção entre diferenças e desigualdades não é feita pela intensidade ou gravidade das mesmas, mas sim e apenas pela sua essência. Dou um exemplo de cada para clarificar. Se lerem o regulamento relativo à utilização de transportes colectivos (afixado em todos os autocarros da carris) encontrarão o artigo 187º, cuja alínea b) diz que os funcionários da Carris são obrigados a prestar aos passageiros todo o auxílio de que careçam, tendo especial atenção para com as senhoras, mutilados, velhos e crianças. Esta discriminação injustificada (e, neste caso, positiva) da mulher face ao homem é uma desigualdades. É, no entanto, suficientemente irrelevante para todos a ignorarmos com um encolher de ombros (eu, pelo menos, faço-o). Já os rácios de género nos Conselhos de Administração das empresas do PSI20, questão suficientemente importante para arreliar tanta gente, são uma diferença. O facto de a distinção desigualdade-diferença não se prender com questão de grau/intensidade é também importante porque a torna absoluta e não relativa (embora posteriores considerações morais não o sejam, obviamente).
Voltando aos Direitos, estes também não estão isentos de polémica. Isto porque, embora seja consensual que estes devem ser garantidos, aquilo que se qualifica ou não como um direito já não o é. Penso até que é nesta questão, e nalgum extremar de posições, que o feminismo perde muito apoio e solidariedade. Veja-se, por exemplo, a invasão da barbearia Fígaro, que não permite a entrada a mulheres. É discriminação claro, no sentido literal do termo, tal como o é eu não me poder inscrever no ginásio Viva Fit, espreitar os balneários femininos de ginástica acrobática ou dar entrada num lar de terceira idade. Não é discriminação no sentido negativo da palavra, nem uma demonstração de desigualdade.
Por vezes aponta-se como negativa e imperceptível o desconforto que alguns homens sentem ao ouvir o termo feminista. O feminismo não é mais do que a defesa dos direitos da mulher, dizem, e não pressupõe nenhuma agressividade ou antipatia face ao género masculino. Tudo bem, penso que isso faria de mim um feminista também. Nesse sentido sou também machista (ah pera, isso tem um significado diferente...) Mas infelizmente para a causa o feminismo não é uma organização com critérios de entrada bem definidos. Assim, muitas das posições tomadas em nome do mesmo são vistas por muitos homens (e algumas mulheres, espero) como francamente ridículas. Exemplos disso são o incidente acima referido na barbearia Fígaro, o movimento Free the Nipple (independentemente de sermos a favor ou não da legalização do topless discuti-lo em termos de igualdade de géneros é ridículo) e a reacção de Ellen DeGeneres (um dos símbolos do feminismo moderno e ocidental) ao lançamento de uma caneta para mulheres pela marca BIC. Permitam-me um pequeno comentário a esta última. Penso que até seria fácil e razoável argumentar fisiologicamente a favor da lógica de haver canetas para mulheres e homens. Mas ainda considerando que isso é irrelevante (de facto somos todos capazes de usar as mesmas canetas) não há nada de insultuoso ou inigualitário em direccionar os produtos a um público alvo mais específico com meras alterações estilísticas, ou mesmo puro marketing. Este excesso de sensibilidade no detector de discriminação/desigualdade não traz muita simpatia à causa.
Isto por si só levaria muitas pessoas a franzir o sobrolho ao ouvir o termo feminisa, mas o pior é que, não aderindo a toda e qualquer causa estapafúrdia que alguém se lembre de enfiar debaixo dessa (enorme) bandeira, um homem é imediatamente etiquetado de machista e retrógrado (para as mulheres reservam as etiquetas de submissa ou vítima de lavagem cerebral).
Para além do excessivamente amplo leque de causas, fica ainda muitas vezes implícita a ideia de uma qualquer conspiração masculina para subjugar e estupidificar a mulher, obviamente completamente descabida (ou se há deixaram-me de fora, e talvez me deva sentir insultado). Veja-se, por exemplo, a reacção de Cate Blanchett ao interesse mediático no seu vestido. É fácil explicar essa discriminação: no dia seguinte aos Óscares milhões de mulheres por todo o mundo (e muito poucos homens, ironicamente) consultavam a internet para ver quais os vestidos usados e eventuais indicações sobre tendências para a nova estação (é assim que se diz?). Quando um jornalista pára um casal na rua e pergunta ao homem (e não à mulher) qual o seu prognóstico para o Sporting-Benfica isso não é desigualdade, é o reconhecimento de uma diferença. O movimento associado ao episódio em Hollywood, Ask Her More, é também idiótico por querer dar ao meio cinematográfico uma profundidade que ele não tem. Se quiser ouvir falar de política internacional oiço um discurso do Dalai Lama, e não uns comentários de Cate Blanchett (ou Jude Law) na passadeira vermelha. Faz lembrar os concursos de misses.
Por vezes a culpabilização do homem não é tão subtil quanto isso. Leia-se por exemplo o texto de Maria João Marques, onde o ódio é quase palpável*. Ou as palavras de Emma Watson após receber ameaças (eventual ou alegadamente devido ao seu discurso feminista): Assim que defendi o direito das mulheres fui imediatamente ameaçada. (...) É muito comum as mulheres serem ameaçadas. (...) Pensei que era por isso que tinha de fazer algo para pôr fim a essas atitudes. Aparentemente Emma e o irmão também consideraram que as tais ameaças são prova da necessidade e actualidade da causa. Mas qualquer pessoa que leia jornais ou frequente fóruns online sabe que exprimir publicamente uma opinião (polémica ou não, e sobre qualquer tópico) pode levar a um chorrilho de ameaças cibernáuticas. Uma celebridade está obviamente muito mais exposta a este tipo de ataques cobardes. Mas esta questão não levanta qualquer tipo de dúvida ou debate relativamente a direitos, muito menos específicos da mulher: há legislação referente a ameaças e calúnias em vigor, quer sejam direccionadas à activista feminina quer ao sócio do Benfica.
Os tópicos mais recorrentes em relação à discriminação das mulheres são as desigualdades salariais e de progressão na carreira (rácio de CEOs, altos dirigentes políticos, etc...) como referidos nos seguintes artigos (1, 2 e 3). Por vezes mistura-se também a violência doméstica e outros tipos de violência contra as mulheres (mutilação genital etc...), como aqui. Não gosto desta mistura, e explicarei abaixo porquê. Não deixo, no entanto, de reconhecer a prevalência da violência contra as mulheres e do consequente debate em torno do tema: simplesmente não considero que seja uma questão de igualdade (chamem-lhe semântica se quiserem) pelo que também não posso deixar de criticar que coloquem essa temática sob esse estandarte (bom exemplo disso é esta notícia). Também criticável na mesma o aparente impacto que um papel representado numa série telenovelesca teve na escolha de uma emissária da UN Women. Sempre têm alguma razão os que duvidam da capacidade humana de distinguir a realidade da ficção televisiva.
Vou explicar-me melhor então. Não acho que a violência contra as mulheres deva ser chamada para a discussão da igualdade de géneros nem dos direitos da mulher porque ela já é um crime (estamos a falar de países desenvolvidos apenas, agora) e exactamente nos mesmos termos que quando exercida sobre um homem. Quando um terrorista faz um atentado e mata N pessoas não se debate sobre os direitos dos inocentes, nem se afirma que esse assassinato é uma prova da falta de direitos dos inocentes (em particular, face aos terroristas). O que não nos impede de discutir a ameaça terrorista e formas de nos defendermos dela. Na mesma lógica, quando um homem bate numa mulher isso não faz com que ela tenha menos direitos, só faz com que ele seja um criminoso. Falar de desigualdade aqui apenas faria sentido se houvesse uma permissividade legal relativamente à violência quando pratica por homens e/ou exercida sobre mulheres. A minha perceção pessoal é a de que acontece exactamente o oposto: a sociedade é muito mais permissiva relativamente à violência doméstica quando esta é praticada pela mulher (vejam este estudo por exemplo).
Voltemos então agora à questão do trabalho. Na minha opinião, esta é uma das áreas marcadas por diferenças e não desigualdades. Diferenças essas que acredito serem explicadas por factores económicos e sociais (eg: preferências pessoais) e não por nenhuma discriminação injustificada. Em relação aos salários em particular eu nunca vi nenhum estudo que mostrasse que as mulheres recebem menos para a mesma função (se alguém me indicar um terei todo o gosto em ler e adicionar uma errata relativamente a esta parte; sem ironia). Vi muitos artigos citarem estudos e a proclamarem essa conclusão, e até alguns estudos a concluírem isso sem, na minha opinião, apresentarem dados que a justifiquem. Sinceramente não acredito que tal estudo exista pois penso tratar-se de um mito. Até porque como se explicaria essa diferença? Será que nós homens temos reuniões secretas (quiçá na Fígaro) para inventar engenhosas fórmulas de discriminação sexual? Ou será subconsciente, e de tal forma poderosa que nem o contabilista repara que a sua colega de departamente recebe menos do que ele? Pessoalmente não conheço nenhuma empresa que, para a mesma função, pague mais a um homem que a uma mulher. Conheço muitas que, em média, pagam mais aos trabalhadores masculinos do que às trabalhadoras. E conheço muitas que pagam acima da média e que empregam sobretudo homens. Estas três afirmações não são redundantes nem contraditórias entre si. E todas ajudam a explicar as diferenças salariais constatadas estatísticamente, sem recorrer a planos maquiavélicos.
Como já abordei este tema uma vez e constatei que a minha opinião sobre o mesmo não ficou muito claro vou adicionar mais uns remates. Dizer que as decisões de mercado se baseiam em, precisamente, lógica de mercado não significa que não se possa ou não se deva fazer nada para as alterar. É por exemplo óbvio, na minha opinião, o impacto que a (potencial) gravidez tem na carreira da mulher. Este pode ser diminuído (embora em termos de progressão de carreira não acredito que se possa eliminar completamente, pelo menos sem abdicar do capitalismo enquanto modelo económico) de várias formas, como sejam a nivelação dos períodos de licença de maternidade/paternidade e o combate aos papéis de género (abaixo voltaremos a isto) que ditam que, por exemplo, seja a mulher a faltar ao trabalho em caso de doença dos filhos. Pretendo apenas desmistificar a ideia de que as mulheres são discriminadas enquanto tal. Decisões baseadas em perfis e personalidades (eg: postura mais agressiva e dominadora por parte dos homens, muitas vezes associada a posições de liderança) serão mais difíceis de influenciar, embora estes também possam (até certo ponto) ser manipulados.
Referi acima os papéis de género, e vou aproveitar a deixa para voltar ao início deste já longo texto e à distinção diferença/desigualdade. Defendi que as diferenças não são intrínsecamente negativas, nem se eliminam explicitamente. Mas isso não significa que não possamos actuar sobre elas, nem que não o devamos fazer. O fulcral, na minha ótica, é perceber o porquê da diferença e, quando justificável, actuar sobre essa causa. O mal (quando existe) reside assim não na diferença mas na sua causa, e é aí que tem de ser atacado, Podemos considerar, por exemplo, ainda prevalece a imagem da mulher dona-de-casa, com consequente desproporção na distribuição das tarefas domésticas. Penso que quase todos concordamos que esta imagem é negativa, e portanto faz sentido tentar alterar os papéis de género nesse sentido. Saliento que, na minha opinião, o problema reside na imagem em si, e nas mensagens subliminares presentes na sociedade que a fazem propagar-se no tempo enquanto status quo, e não na desproporção da distribuição das tarefas domésticas. Esta só é importante por nos dar a motivação necessário para atacar o problema da imagem; se esta fosse inconsequente, teríamos coisas mais importantes em que pensar.
Um amigo enviou-me este link para documentação de referência (falamos de orientações governamentais) que pretende explicar como essa mudança de paradigmaa base pode (e vai) ser induzida na geração seguinte (por exemplo evitando que, nos manuais escolares, a grande maioria das imagens ilustrativas de tarefas domésticas representem mulheres) e que, embora vergonhosamente ainda não tenha lido, acredito ter conteúdos extremamente interessantes.
Mas o assunto torna-se rapidamente mais pantanoso. Os papéis de género e as expectativas da sociedade explicam muita coisa, mas não são os únicos responsáveis pelas diferenças entre homens e mulheres. Parte dela é genética (se tiverem tempo aconselho a visualização deste programa Norueguês). Mas ainda que toda ela fosse orquestrada pela sociedade, não podemos ser ingénuos ao ponto de acreditar que existe um ponto neutro de influência da sociedade. Especular portanto quais deveriam ser as escolhas e comportamentos de homens e mulheres nesse ponto neutro e adaptar a sociedade até o atingirmos é inútil, para além de ter contornos de Brave New World. É por isso que considero perigosas, e negativas, medidas baseadas em objectivos (eg: aumentar número de mulheres CEOs, aumentar rácio de mulheres em IT) em oposição a medidas directamente direccionadas às causas, sem preocupação com os seus efeitos. Pegando no exemplo do IT, não há nada de intrínsecamente negativo em haver poucas mulheres na área (e porque não combater a desigualdade verificada nos rácios de género entre cantoneiros do lixo?), nem nestas preferirem outras áreas. Não percebo, portanto, a necessidade de implementar medidas para alterar essa realidade, nem afirmações como as de Vera Jourova (Comissária Europeia para a Justiça, Consumo e Igualdade de Género): é preciso que desde cedo as raparigas sejam incentivadas a prosseguir estudos nas áreas tecnológicas. Dizer que o rácio actual está errado significa que se quer atingir outro. Mas qual? 50%? Ou um qualquer rácio (chamemos-lhe basal) que algum estudo xpto dirá tratar-se da taxa natural, quando subtraída a influência da sociedade? E porque razão é a sub-representação das mulheres no IT e noutras áreas tão problemática, se sub-representações semelhantes de homens noutras área não o são?
Mantendo o exemplo das mulheres no IT, poderia contestar-se o estereótipo de género em torno da área e, por aí, justificar a sua manipulação deliberada. Mas fará isso sentido, visto não existir nada de negativa com os rapazes gostarem mais de PCs? Não estaremos a tornar-nos perigosamente manipuladores ao exigir que 50% dos técnicos de IT representados nos manuais escolares sejam mulheres, quando sabemos muito bem que tal não corresponde à realidade? Tanto na história como na ficção distópica, a distorção e manipulação da realidade é um dos sinais de um estado totalitarista.
Talvez alguns frequentadores assíduos deste espaço se recordem e estranhem o meu louvor à iniciativa/empresa Goldie Blocks, que pretendia (para além de fazer dinheiro) precisamente tornar as engenharias mais apelativas às mulheres através de brinquedos alegóricos adaptados para o sexo feminino (espero que a Ellen não leia isto). Acontece que isso é uma iniciativa privada, que obedece a uma preferência pessoal (a fundadora gostava de ter mais amigas engenheiras, ou algo do género) e não a alguma normalização de estatísticas. Eu, enquanto trabalhor da área e ex-aluno de uma faculdade de engenharia, também gostaria de ter e ter tido mais colegas mulheres. Daí que aplauda essa iniciativa, assim como a mais recente Miss Possible. É, na minha opinião, necessário algo muito mais forte que gostava que houvesse mais mulheres em IT e homens em enfermagem, nomeadamente fundamentadas considerações morais, para justificar a intervenção do Estado neste processo de re-programação. Porque não tenhamos ilusões: não é possível não interferir no desenvolvimento das crianças e indivíduos, apenas podemos alterar o sentido dessa mesma influência. E, excepto nos já referidos casos de força maior, prefiro uma máquina inocente (no sentido de não pensada, sem criador ou propósito) derivada da nossa cultura e tradição aos caprichos de um Governo (ainda por cima nestas temáticas muitas vezes submissos aos caprichos de quem grita mais alto ou com mais histeria) que acha que as raparigas estão sub-representadas aqui ou acolá.
Tudo isto não passaria de curiosidades e notícias irritantes, não fosse estar a gerar-se em Portugal (e na Europa) um perigoso sentimento de necessidade de acção, ainda que mal justificada ou direccionada. A questão das quotas (nos assentos parlamentares, nos conselhos de administração, etc...) é, a meu ver, o cúmulo da ironia: em nome da não discriminação de género no trabalho (leia-se: ao contratar, não olhar ao sexo do candidato) obrigam a que tenhamos essa mesma característica em conta. E tudo, claro, baseado na dita taxa basal (neste caso creio que 50%) de representatividade. Pior que isso, na minha opinião, são declarações como as de Ana Gomes: É altura de Portugal ter uma mulher Presidente da República. (Já tinha ouvido dizer o mesmo relativamente à presidência da Comissão Europeia, antes da eleição de Juncker). Ora quanto mais importante um cargo menos se deveria olhar para o género (per se) ao ponderar candidatos; e obviamente que não há tempos para eleger mulheres e outros para eleger homens. Também recentemente uma notícia citava ou um dos membros do novo conselho de administração da RTP ou um representante do Governo (infelizmente não guardei o link, e a minha memória não me permite precisar) a congratular-se pela inclusão de uma mulher no novo conselho de administração da RTP e a referir que isso deveria ser encarado como um exemplo. Ora ter mulheres um conselho de administração não é prova de avanço civilizacional. Chamar a atenção para o facto e usá-lo como se fosse é, ironicamente, prova do exacto oposto (além de potencialmente desprestigiante e desmotivador para a senhora em causa). Já a intervenção de António Costa quero acreditar que não passou de uma (mesmo muito má) piada sobre um assunto serio.
Por último, deixo ao leitor aquilo que considero ser uma pérola do excesso de zelo na procura de igualdade de direitos: o Guia para uma linguagem promotora da igualdade entre mulheres e homens na Administração Pública (aprovado em 2009), e pretendendo corrigir a terminologia utilizada na AP de forma a evitar ou prevenir a discriminação. Assim, saiba o leitor que a fim de promover a igualdade deve dizer pai e mãe em vez de pais, trabalhadores e trabalhadoras (os políticos já adotaram esta e outras há muito, sendo também comum a inversão para trabalhadoras e trabalhadores) em vez de simplesmente trabalhadores, a pessoa que requer em vez de requerente (esta é mesmo muito boa...), a gerência em vez de o gerente (nem têm o mesmo significado, como o próprio guia reconhece...), Família Silva em vez de Sr./a Silva, entre outras.
Resumidamente, considero que existe uma certa histeria totalmente desnecessária (se quiserem, desactualizada ou deslocada) em torno das desigualdades de género, que advém essencialmente de o feminismo (enquanto movimento não organizado) colocar sob a sua bandeira várias temáticas que não estão directamente relacionadas com o tema, para além de confundir diferenças com desigualdades. A colonista d'Observador escreveu há pouco tempo Saudades do tempo em que éramos livres e não o sabíamos, onde aborda ao de leve alguma das temáticas (foi onde encontrei também o Guia acima referido). Este texto poder-se-ia chamar O tempo em que éramos iguais e não o sabíamos.
Filipe Baptista de Morais
*Na realidade o texto menciona um estudo que me tinha parecido interessante, visto alegadamente indicar um enviesamento de genéro na correcção de provas de Matemática. Infelizmente não consegui aceder ao estudo original (bom, sem pagar pelo menos) para atestar a relevância do efeito e a robustez da metodologia. (Entretanto deparei-me com alguém que o fez, e não achou grande coisa. Aparentemente nem os autores acharam as diferenças significativas).
Comecemos por estabelecer terreno comum e consensual. Deve existir igualdade de direitos entre homens e mulheres. Penso que muito poucos cidadãos do chamado Mundo Ocidental discordariam desta afirmação, e eu certamente que não o faria. Taambém creio ser consensual que, a nível mundial, essa igualdade está longe de existir. Em muitos países a mulher ainda nem é reconhecida como cidadã plena perdendo, entre outros, o direito ao voto. O debate e a luta pelos direitos da mulher é portanto actual e necessário, nesta perspectiva global. É a nível local que a questão parece estar mais ultrapassada.
Uma questão que considero importante realçar é a distinção entre dois tipos de desigualdade.
O primeiro é a desigualdade de direitos (daqui por diante quando falar de desigualdade apenas é disto que estarei a falar) e caracteriza-se por ter um carácter premeditado (ie: é imposto expressamente e propositadamente e não é consequência da conjugação de diversos factores, nomeadamente o acaso) e por ter enquadramento legal (ie: é reconhecido, aceite e perpretado por um Estado ou semelhante). São exemplos óbvios e claros desta desigualdade os países onde a mulher não tem direito ao voto, ou a conduzir.
O segundo tipo, a que vou chamar diferença e não desigualdade, é uma constatação empírica (factual ou não) que não é nem premeditada nem estipulada legalmente, apenas o é e é-o por causas eventualmente desconhecidas e/ou incompreendidas. Um exemplo disto são os salários médios mais baixos auferidos pelas mulheres: são um facto mas não são impostos por nenhuma política ou lei, nem são resultado da acção deliberada de nenhum agente económico.
A diferença entre estes dois conceitos é extremamente importante para esta discussão. Isto porque enquanto as desigualdades são sempre erradas e podem e devem ser resolvidos legislativamente, o mesmo não pode ser dito das diferenças. Estas não são, em si mesmas, negativas nem positivas. Mais, não sendo instauradas explicitamente, também não podem ser removidas dessa forma (eg: assim como nenhuma norma diz que as mulheres recebem menos que os homens não se pode fazer uma a dizer que receberão o mesmo). As diferenças são, quanto muito, manifestações de desigualdades.
São, no entanto, misturadas com frequência, como quando Hillary Clinton (e tantos antes e depois dela) referiu o rácio de CEOs mulher como uma violação dos direitos da mulher (ou do Homem já que, como ela refere e bem, estes são iguais para ambos os géneros). Referiu também que as mulheres são as mais afectadas nas questões de saúde e alimentação, mas aqui confesso que não faço a mais pálida ideia do que está a falar. Tanto quanto sei a esperança média de vida das mulheres é superior à dos homens em todos os países desenvolvidos, sendo uma das razões apontadas para tal precisamente a prática de melhores hábitos alimentares. E porque raio, já agora, é que toda esta lógica simplística (de ver desigualdades em estatísticas diferentes de 50%) não considera a menor esperança de vida do homem como uma desigualdade e violação dos direitos do homem?
Acho importante realçar, neste ponto, que a distinção entre diferenças e desigualdades não é feita pela intensidade ou gravidade das mesmas, mas sim e apenas pela sua essência. Dou um exemplo de cada para clarificar. Se lerem o regulamento relativo à utilização de transportes colectivos (afixado em todos os autocarros da carris) encontrarão o artigo 187º, cuja alínea b) diz que os funcionários da Carris são obrigados a prestar aos passageiros todo o auxílio de que careçam, tendo especial atenção para com as senhoras, mutilados, velhos e crianças. Esta discriminação injustificada (e, neste caso, positiva) da mulher face ao homem é uma desigualdades. É, no entanto, suficientemente irrelevante para todos a ignorarmos com um encolher de ombros (eu, pelo menos, faço-o). Já os rácios de género nos Conselhos de Administração das empresas do PSI20, questão suficientemente importante para arreliar tanta gente, são uma diferença. O facto de a distinção desigualdade-diferença não se prender com questão de grau/intensidade é também importante porque a torna absoluta e não relativa (embora posteriores considerações morais não o sejam, obviamente).
Voltando aos Direitos, estes também não estão isentos de polémica. Isto porque, embora seja consensual que estes devem ser garantidos, aquilo que se qualifica ou não como um direito já não o é. Penso até que é nesta questão, e nalgum extremar de posições, que o feminismo perde muito apoio e solidariedade. Veja-se, por exemplo, a invasão da barbearia Fígaro, que não permite a entrada a mulheres. É discriminação claro, no sentido literal do termo, tal como o é eu não me poder inscrever no ginásio Viva Fit, espreitar os balneários femininos de ginástica acrobática ou dar entrada num lar de terceira idade. Não é discriminação no sentido negativo da palavra, nem uma demonstração de desigualdade.
Por vezes aponta-se como negativa e imperceptível o desconforto que alguns homens sentem ao ouvir o termo feminista. O feminismo não é mais do que a defesa dos direitos da mulher, dizem, e não pressupõe nenhuma agressividade ou antipatia face ao género masculino. Tudo bem, penso que isso faria de mim um feminista também. Nesse sentido sou também machista (ah pera, isso tem um significado diferente...) Mas infelizmente para a causa o feminismo não é uma organização com critérios de entrada bem definidos. Assim, muitas das posições tomadas em nome do mesmo são vistas por muitos homens (e algumas mulheres, espero) como francamente ridículas. Exemplos disso são o incidente acima referido na barbearia Fígaro, o movimento Free the Nipple (independentemente de sermos a favor ou não da legalização do topless discuti-lo em termos de igualdade de géneros é ridículo) e a reacção de Ellen DeGeneres (um dos símbolos do feminismo moderno e ocidental) ao lançamento de uma caneta para mulheres pela marca BIC. Permitam-me um pequeno comentário a esta última. Penso que até seria fácil e razoável argumentar fisiologicamente a favor da lógica de haver canetas para mulheres e homens. Mas ainda considerando que isso é irrelevante (de facto somos todos capazes de usar as mesmas canetas) não há nada de insultuoso ou inigualitário em direccionar os produtos a um público alvo mais específico com meras alterações estilísticas, ou mesmo puro marketing. Este excesso de sensibilidade no detector de discriminação/desigualdade não traz muita simpatia à causa.
Isto por si só levaria muitas pessoas a franzir o sobrolho ao ouvir o termo feminisa, mas o pior é que, não aderindo a toda e qualquer causa estapafúrdia que alguém se lembre de enfiar debaixo dessa (enorme) bandeira, um homem é imediatamente etiquetado de machista e retrógrado (para as mulheres reservam as etiquetas de submissa ou vítima de lavagem cerebral).
Para além do excessivamente amplo leque de causas, fica ainda muitas vezes implícita a ideia de uma qualquer conspiração masculina para subjugar e estupidificar a mulher, obviamente completamente descabida (ou se há deixaram-me de fora, e talvez me deva sentir insultado). Veja-se, por exemplo, a reacção de Cate Blanchett ao interesse mediático no seu vestido. É fácil explicar essa discriminação: no dia seguinte aos Óscares milhões de mulheres por todo o mundo (e muito poucos homens, ironicamente) consultavam a internet para ver quais os vestidos usados e eventuais indicações sobre tendências para a nova estação (é assim que se diz?). Quando um jornalista pára um casal na rua e pergunta ao homem (e não à mulher) qual o seu prognóstico para o Sporting-Benfica isso não é desigualdade, é o reconhecimento de uma diferença. O movimento associado ao episódio em Hollywood, Ask Her More, é também idiótico por querer dar ao meio cinematográfico uma profundidade que ele não tem. Se quiser ouvir falar de política internacional oiço um discurso do Dalai Lama, e não uns comentários de Cate Blanchett (ou Jude Law) na passadeira vermelha. Faz lembrar os concursos de misses.
Por vezes a culpabilização do homem não é tão subtil quanto isso. Leia-se por exemplo o texto de Maria João Marques, onde o ódio é quase palpável*. Ou as palavras de Emma Watson após receber ameaças (eventual ou alegadamente devido ao seu discurso feminista): Assim que defendi o direito das mulheres fui imediatamente ameaçada. (...) É muito comum as mulheres serem ameaçadas. (...) Pensei que era por isso que tinha de fazer algo para pôr fim a essas atitudes. Aparentemente Emma e o irmão também consideraram que as tais ameaças são prova da necessidade e actualidade da causa. Mas qualquer pessoa que leia jornais ou frequente fóruns online sabe que exprimir publicamente uma opinião (polémica ou não, e sobre qualquer tópico) pode levar a um chorrilho de ameaças cibernáuticas. Uma celebridade está obviamente muito mais exposta a este tipo de ataques cobardes. Mas esta questão não levanta qualquer tipo de dúvida ou debate relativamente a direitos, muito menos específicos da mulher: há legislação referente a ameaças e calúnias em vigor, quer sejam direccionadas à activista feminina quer ao sócio do Benfica.
Os tópicos mais recorrentes em relação à discriminação das mulheres são as desigualdades salariais e de progressão na carreira (rácio de CEOs, altos dirigentes políticos, etc...) como referidos nos seguintes artigos (1, 2 e 3). Por vezes mistura-se também a violência doméstica e outros tipos de violência contra as mulheres (mutilação genital etc...), como aqui. Não gosto desta mistura, e explicarei abaixo porquê. Não deixo, no entanto, de reconhecer a prevalência da violência contra as mulheres e do consequente debate em torno do tema: simplesmente não considero que seja uma questão de igualdade (chamem-lhe semântica se quiserem) pelo que também não posso deixar de criticar que coloquem essa temática sob esse estandarte (bom exemplo disso é esta notícia). Também criticável na mesma o aparente impacto que um papel representado numa série telenovelesca teve na escolha de uma emissária da UN Women. Sempre têm alguma razão os que duvidam da capacidade humana de distinguir a realidade da ficção televisiva.
Vou explicar-me melhor então. Não acho que a violência contra as mulheres deva ser chamada para a discussão da igualdade de géneros nem dos direitos da mulher porque ela já é um crime (estamos a falar de países desenvolvidos apenas, agora) e exactamente nos mesmos termos que quando exercida sobre um homem. Quando um terrorista faz um atentado e mata N pessoas não se debate sobre os direitos dos inocentes, nem se afirma que esse assassinato é uma prova da falta de direitos dos inocentes (em particular, face aos terroristas). O que não nos impede de discutir a ameaça terrorista e formas de nos defendermos dela. Na mesma lógica, quando um homem bate numa mulher isso não faz com que ela tenha menos direitos, só faz com que ele seja um criminoso. Falar de desigualdade aqui apenas faria sentido se houvesse uma permissividade legal relativamente à violência quando pratica por homens e/ou exercida sobre mulheres. A minha perceção pessoal é a de que acontece exactamente o oposto: a sociedade é muito mais permissiva relativamente à violência doméstica quando esta é praticada pela mulher (vejam este estudo por exemplo).
Voltemos então agora à questão do trabalho. Na minha opinião, esta é uma das áreas marcadas por diferenças e não desigualdades. Diferenças essas que acredito serem explicadas por factores económicos e sociais (eg: preferências pessoais) e não por nenhuma discriminação injustificada. Em relação aos salários em particular eu nunca vi nenhum estudo que mostrasse que as mulheres recebem menos para a mesma função (se alguém me indicar um terei todo o gosto em ler e adicionar uma errata relativamente a esta parte; sem ironia). Vi muitos artigos citarem estudos e a proclamarem essa conclusão, e até alguns estudos a concluírem isso sem, na minha opinião, apresentarem dados que a justifiquem. Sinceramente não acredito que tal estudo exista pois penso tratar-se de um mito. Até porque como se explicaria essa diferença? Será que nós homens temos reuniões secretas (quiçá na Fígaro) para inventar engenhosas fórmulas de discriminação sexual? Ou será subconsciente, e de tal forma poderosa que nem o contabilista repara que a sua colega de departamente recebe menos do que ele? Pessoalmente não conheço nenhuma empresa que, para a mesma função, pague mais a um homem que a uma mulher. Conheço muitas que, em média, pagam mais aos trabalhadores masculinos do que às trabalhadoras. E conheço muitas que pagam acima da média e que empregam sobretudo homens. Estas três afirmações não são redundantes nem contraditórias entre si. E todas ajudam a explicar as diferenças salariais constatadas estatísticamente, sem recorrer a planos maquiavélicos.
Como já abordei este tema uma vez e constatei que a minha opinião sobre o mesmo não ficou muito claro vou adicionar mais uns remates. Dizer que as decisões de mercado se baseiam em, precisamente, lógica de mercado não significa que não se possa ou não se deva fazer nada para as alterar. É por exemplo óbvio, na minha opinião, o impacto que a (potencial) gravidez tem na carreira da mulher. Este pode ser diminuído (embora em termos de progressão de carreira não acredito que se possa eliminar completamente, pelo menos sem abdicar do capitalismo enquanto modelo económico) de várias formas, como sejam a nivelação dos períodos de licença de maternidade/paternidade e o combate aos papéis de género (abaixo voltaremos a isto) que ditam que, por exemplo, seja a mulher a faltar ao trabalho em caso de doença dos filhos. Pretendo apenas desmistificar a ideia de que as mulheres são discriminadas enquanto tal. Decisões baseadas em perfis e personalidades (eg: postura mais agressiva e dominadora por parte dos homens, muitas vezes associada a posições de liderança) serão mais difíceis de influenciar, embora estes também possam (até certo ponto) ser manipulados.
Referi acima os papéis de género, e vou aproveitar a deixa para voltar ao início deste já longo texto e à distinção diferença/desigualdade. Defendi que as diferenças não são intrínsecamente negativas, nem se eliminam explicitamente. Mas isso não significa que não possamos actuar sobre elas, nem que não o devamos fazer. O fulcral, na minha ótica, é perceber o porquê da diferença e, quando justificável, actuar sobre essa causa. O mal (quando existe) reside assim não na diferença mas na sua causa, e é aí que tem de ser atacado, Podemos considerar, por exemplo, ainda prevalece a imagem da mulher dona-de-casa, com consequente desproporção na distribuição das tarefas domésticas. Penso que quase todos concordamos que esta imagem é negativa, e portanto faz sentido tentar alterar os papéis de género nesse sentido. Saliento que, na minha opinião, o problema reside na imagem em si, e nas mensagens subliminares presentes na sociedade que a fazem propagar-se no tempo enquanto status quo, e não na desproporção da distribuição das tarefas domésticas. Esta só é importante por nos dar a motivação necessário para atacar o problema da imagem; se esta fosse inconsequente, teríamos coisas mais importantes em que pensar.
Um amigo enviou-me este link para documentação de referência (falamos de orientações governamentais) que pretende explicar como essa mudança de paradigmaa base pode (e vai) ser induzida na geração seguinte (por exemplo evitando que, nos manuais escolares, a grande maioria das imagens ilustrativas de tarefas domésticas representem mulheres) e que, embora vergonhosamente ainda não tenha lido, acredito ter conteúdos extremamente interessantes.
Mas o assunto torna-se rapidamente mais pantanoso. Os papéis de género e as expectativas da sociedade explicam muita coisa, mas não são os únicos responsáveis pelas diferenças entre homens e mulheres. Parte dela é genética (se tiverem tempo aconselho a visualização deste programa Norueguês). Mas ainda que toda ela fosse orquestrada pela sociedade, não podemos ser ingénuos ao ponto de acreditar que existe um ponto neutro de influência da sociedade. Especular portanto quais deveriam ser as escolhas e comportamentos de homens e mulheres nesse ponto neutro e adaptar a sociedade até o atingirmos é inútil, para além de ter contornos de Brave New World. É por isso que considero perigosas, e negativas, medidas baseadas em objectivos (eg: aumentar número de mulheres CEOs, aumentar rácio de mulheres em IT) em oposição a medidas directamente direccionadas às causas, sem preocupação com os seus efeitos. Pegando no exemplo do IT, não há nada de intrínsecamente negativo em haver poucas mulheres na área (e porque não combater a desigualdade verificada nos rácios de género entre cantoneiros do lixo?), nem nestas preferirem outras áreas. Não percebo, portanto, a necessidade de implementar medidas para alterar essa realidade, nem afirmações como as de Vera Jourova (Comissária Europeia para a Justiça, Consumo e Igualdade de Género): é preciso que desde cedo as raparigas sejam incentivadas a prosseguir estudos nas áreas tecnológicas. Dizer que o rácio actual está errado significa que se quer atingir outro. Mas qual? 50%? Ou um qualquer rácio (chamemos-lhe basal) que algum estudo xpto dirá tratar-se da taxa natural, quando subtraída a influência da sociedade? E porque razão é a sub-representação das mulheres no IT e noutras áreas tão problemática, se sub-representações semelhantes de homens noutras área não o são?
Mantendo o exemplo das mulheres no IT, poderia contestar-se o estereótipo de género em torno da área e, por aí, justificar a sua manipulação deliberada. Mas fará isso sentido, visto não existir nada de negativa com os rapazes gostarem mais de PCs? Não estaremos a tornar-nos perigosamente manipuladores ao exigir que 50% dos técnicos de IT representados nos manuais escolares sejam mulheres, quando sabemos muito bem que tal não corresponde à realidade? Tanto na história como na ficção distópica, a distorção e manipulação da realidade é um dos sinais de um estado totalitarista.
Talvez alguns frequentadores assíduos deste espaço se recordem e estranhem o meu louvor à iniciativa/empresa Goldie Blocks, que pretendia (para além de fazer dinheiro) precisamente tornar as engenharias mais apelativas às mulheres através de brinquedos alegóricos adaptados para o sexo feminino (espero que a Ellen não leia isto). Acontece que isso é uma iniciativa privada, que obedece a uma preferência pessoal (a fundadora gostava de ter mais amigas engenheiras, ou algo do género) e não a alguma normalização de estatísticas. Eu, enquanto trabalhor da área e ex-aluno de uma faculdade de engenharia, também gostaria de ter e ter tido mais colegas mulheres. Daí que aplauda essa iniciativa, assim como a mais recente Miss Possible. É, na minha opinião, necessário algo muito mais forte que gostava que houvesse mais mulheres em IT e homens em enfermagem, nomeadamente fundamentadas considerações morais, para justificar a intervenção do Estado neste processo de re-programação. Porque não tenhamos ilusões: não é possível não interferir no desenvolvimento das crianças e indivíduos, apenas podemos alterar o sentido dessa mesma influência. E, excepto nos já referidos casos de força maior, prefiro uma máquina inocente (no sentido de não pensada, sem criador ou propósito) derivada da nossa cultura e tradição aos caprichos de um Governo (ainda por cima nestas temáticas muitas vezes submissos aos caprichos de quem grita mais alto ou com mais histeria) que acha que as raparigas estão sub-representadas aqui ou acolá.
Tudo isto não passaria de curiosidades e notícias irritantes, não fosse estar a gerar-se em Portugal (e na Europa) um perigoso sentimento de necessidade de acção, ainda que mal justificada ou direccionada. A questão das quotas (nos assentos parlamentares, nos conselhos de administração, etc...) é, a meu ver, o cúmulo da ironia: em nome da não discriminação de género no trabalho (leia-se: ao contratar, não olhar ao sexo do candidato) obrigam a que tenhamos essa mesma característica em conta. E tudo, claro, baseado na dita taxa basal (neste caso creio que 50%) de representatividade. Pior que isso, na minha opinião, são declarações como as de Ana Gomes: É altura de Portugal ter uma mulher Presidente da República. (Já tinha ouvido dizer o mesmo relativamente à presidência da Comissão Europeia, antes da eleição de Juncker). Ora quanto mais importante um cargo menos se deveria olhar para o género (per se) ao ponderar candidatos; e obviamente que não há tempos para eleger mulheres e outros para eleger homens. Também recentemente uma notícia citava ou um dos membros do novo conselho de administração da RTP ou um representante do Governo (infelizmente não guardei o link, e a minha memória não me permite precisar) a congratular-se pela inclusão de uma mulher no novo conselho de administração da RTP e a referir que isso deveria ser encarado como um exemplo. Ora ter mulheres um conselho de administração não é prova de avanço civilizacional. Chamar a atenção para o facto e usá-lo como se fosse é, ironicamente, prova do exacto oposto (além de potencialmente desprestigiante e desmotivador para a senhora em causa). Já a intervenção de António Costa quero acreditar que não passou de uma (mesmo muito má) piada sobre um assunto serio.
Por último, deixo ao leitor aquilo que considero ser uma pérola do excesso de zelo na procura de igualdade de direitos: o Guia para uma linguagem promotora da igualdade entre mulheres e homens na Administração Pública (aprovado em 2009), e pretendendo corrigir a terminologia utilizada na AP de forma a evitar ou prevenir a discriminação. Assim, saiba o leitor que a fim de promover a igualdade deve dizer pai e mãe em vez de pais, trabalhadores e trabalhadoras (os políticos já adotaram esta e outras há muito, sendo também comum a inversão para trabalhadoras e trabalhadores) em vez de simplesmente trabalhadores, a pessoa que requer em vez de requerente (esta é mesmo muito boa...), a gerência em vez de o gerente (nem têm o mesmo significado, como o próprio guia reconhece...), Família Silva em vez de Sr./a Silva, entre outras.
Resumidamente, considero que existe uma certa histeria totalmente desnecessária (se quiserem, desactualizada ou deslocada) em torno das desigualdades de género, que advém essencialmente de o feminismo (enquanto movimento não organizado) colocar sob a sua bandeira várias temáticas que não estão directamente relacionadas com o tema, para além de confundir diferenças com desigualdades. A colonista d'Observador escreveu há pouco tempo Saudades do tempo em que éramos livres e não o sabíamos, onde aborda ao de leve alguma das temáticas (foi onde encontrei também o Guia acima referido). Este texto poder-se-ia chamar O tempo em que éramos iguais e não o sabíamos.
Filipe Baptista de Morais
*Na realidade o texto menciona um estudo que me tinha parecido interessante, visto alegadamente indicar um enviesamento de genéro na correcção de provas de Matemática. Infelizmente não consegui aceder ao estudo original (bom, sem pagar pelo menos) para atestar a relevância do efeito e a robustez da metodologia. (Entretanto deparei-me com alguém que o fez, e não achou grande coisa. Aparentemente nem os autores acharam as diferenças significativas).
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domingo, 15 de março de 2015
Alienação
Deparei-me recentemente com esta entrevista a Ribeiro e Castro no jornal I. A entrevista é longa pelo que me vou centrar em dois pontos que considero fulcrais.
A entrevista é marcada por um forte tom anti-partidário, naquilo que me parece hipocrisia interesseira. Seja de que forma for, há críticas destinadas a revelar os podres da máquina partidária que, na minha opinião, revelam tanto ou mais sobre quem as proferiu. Falo, em particular, de quando refere que votou/aprovou propostas sem as conhecer. A disciplina de voto é, a meu ver, desprezivelmente anti-democrática e deve ser combatida. No entanto, é um mecanismo intra-partidário e não tem representação legal. Isto é, quem a violar apenas enfrenta consequências a nível de progressão no partido. Isso significa que sempre que um (ex-)deputado, com ar de cordeirinho, diz que era contra determinada medida mas votou noutro sentido devido à maléfica máquina Partidária, aquilo que está na realidade a dizer é que colocou os seus interesses pessoais de carreira à frente dos do país, que traíu a confiança dos que o elegeram.
Esquecendo agora a parte pessoal e focando-me nas ideias. Ribeiro e Castro defende uma reforma do sistema eleitoral, com a criação de círculos uninomiais e representação no parlamento dos votos em branco. Não vejo como a segunda ajudaria a fosse o que fosse, excepto se acreditarmos em demagogias simplistas como forçaria os partidos a reformarem-se. Right. Logo a seguir à reforma do Estado, suponho. (Sei que ainda sou novinho mas já não me recordo de umas eleições em que não se reformasse o Estado) Já a primeira poderia, de facto, levar a uma maior proximidade entre o cidadão e o deputado, e logo a uma maior responsabilidade do último. No entanto complicaria ainda mais o sistema eleitoral e a estrutura organizacional do Governo, o que a meu ver seria extremamente negativo.
Na minha opinião o afastamento entre o cidadão e a política tem aumentado não devido a alguma podridão ou corrupção dos partidos (caso em que teríamos uma enchente de votos a transitar para partidos fora do eixo governativo, o que não tem acontecido *) mas sim devido à crescente complexidade do sistema representativo, que o cidadão comum (no seu tão badalado quotidiano frenético) não tem tempo de estudar e compreender. A verdade é que a maioria de nós não conhece por completo as funções de cada cargo ou orgão administrativo, o que tem ficado ultimamente muito claro em relação a, por exemplo, ao cargo de Presidente da República. A simplificação da Administração e a sua inclusão (urgente!) do seu funcionamento nos programas escolares poderia fazer muito por esta causa.
Claro que os políticos e os jornalistas têm muitas responsabilidades no cartório, esgotanddo o nosso precioso tempo com discursos e análises vazias de ideias ou propostas (tema que abordarei num texto posterior). Mas, num certo sentido, eles dão-nos aquilo que queremos ou pedimos. O cidadão não pode assim, de todo, desresponsabilizar.se da sua própria alienação.
Filipe Baptista de Morais
*Muitos talvez estejam a gritar "Syriza" ou "Podemos" neste momento, achando que me esqueci deles. Não esqueci. Mas sejamos francos: o Syriza chegou ao Governo não devido a corrupção, podridão ou vazio ideológico do eixo governativo grego, mas simplesmente porque a Grécia ficou sem dinheiro.
A entrevista é marcada por um forte tom anti-partidário, naquilo que me parece hipocrisia interesseira. Seja de que forma for, há críticas destinadas a revelar os podres da máquina partidária que, na minha opinião, revelam tanto ou mais sobre quem as proferiu. Falo, em particular, de quando refere que votou/aprovou propostas sem as conhecer. A disciplina de voto é, a meu ver, desprezivelmente anti-democrática e deve ser combatida. No entanto, é um mecanismo intra-partidário e não tem representação legal. Isto é, quem a violar apenas enfrenta consequências a nível de progressão no partido. Isso significa que sempre que um (ex-)deputado, com ar de cordeirinho, diz que era contra determinada medida mas votou noutro sentido devido à maléfica máquina Partidária, aquilo que está na realidade a dizer é que colocou os seus interesses pessoais de carreira à frente dos do país, que traíu a confiança dos que o elegeram.
Esquecendo agora a parte pessoal e focando-me nas ideias. Ribeiro e Castro defende uma reforma do sistema eleitoral, com a criação de círculos uninomiais e representação no parlamento dos votos em branco. Não vejo como a segunda ajudaria a fosse o que fosse, excepto se acreditarmos em demagogias simplistas como forçaria os partidos a reformarem-se. Right. Logo a seguir à reforma do Estado, suponho. (Sei que ainda sou novinho mas já não me recordo de umas eleições em que não se reformasse o Estado) Já a primeira poderia, de facto, levar a uma maior proximidade entre o cidadão e o deputado, e logo a uma maior responsabilidade do último. No entanto complicaria ainda mais o sistema eleitoral e a estrutura organizacional do Governo, o que a meu ver seria extremamente negativo.
Na minha opinião o afastamento entre o cidadão e a política tem aumentado não devido a alguma podridão ou corrupção dos partidos (caso em que teríamos uma enchente de votos a transitar para partidos fora do eixo governativo, o que não tem acontecido *) mas sim devido à crescente complexidade do sistema representativo, que o cidadão comum (no seu tão badalado quotidiano frenético) não tem tempo de estudar e compreender. A verdade é que a maioria de nós não conhece por completo as funções de cada cargo ou orgão administrativo, o que tem ficado ultimamente muito claro em relação a, por exemplo, ao cargo de Presidente da República. A simplificação da Administração e a sua inclusão (urgente!) do seu funcionamento nos programas escolares poderia fazer muito por esta causa.
Claro que os políticos e os jornalistas têm muitas responsabilidades no cartório, esgotanddo o nosso precioso tempo com discursos e análises vazias de ideias ou propostas (tema que abordarei num texto posterior). Mas, num certo sentido, eles dão-nos aquilo que queremos ou pedimos. O cidadão não pode assim, de todo, desresponsabilizar.se da sua própria alienação.
Filipe Baptista de Morais
*Muitos talvez estejam a gritar "Syriza" ou "Podemos" neste momento, achando que me esqueci deles. Não esqueci. Mas sejamos francos: o Syriza chegou ao Governo não devido a corrupção, podridão ou vazio ideológico do eixo governativo grego, mas simplesmente porque a Grécia ficou sem dinheiro.
sexta-feira, 31 de janeiro de 2014
Geração apenas
Acabei de ler aqui uma crónica intitulada "Geração ziguezague". A nossa geração deve ser, é preciso dizê-lo, de facto notável, e acumula títulos desde tenra idade. Geração à rasca, geração rasca, geração ziguezague... será que não se cansam de nos tentar rotular a todos com a mesma etiqueta? Ainda mais puxando sempre pelo negativo, seja das nossas pessoas ou do nosso (negro parece) futuro.
Devo dizer que não me reconheço, nem à "minha geração" (se é que faz algum sentido usar tal termo), nas palavras desse texto. Penso que fomos provavelmente a geração de Portugueses que mais incentivada foi a seguir os seus sonhos.
Também não me (nos?) reconheço no estereótipo da geração rasca. Isto provavelmente diz tanto das minhas idiossincrasias como da futilidade do esforço de caracterizar milhares ou mesmo milhões de pessoas com o mesmo objectivo. Cada um de nós teve um berço, educação, vivências e experiências únicas, pelo que não há qualquer motivo para esperar que agora fossemos todos iguais. Se somos de facto uma geração, somos uma geração apenas.
Devo dizer que não me reconheço, nem à "minha geração" (se é que faz algum sentido usar tal termo), nas palavras desse texto. Penso que fomos provavelmente a geração de Portugueses que mais incentivada foi a seguir os seus sonhos.
Também não me (nos?) reconheço no estereótipo da geração rasca. Isto provavelmente diz tanto das minhas idiossincrasias como da futilidade do esforço de caracterizar milhares ou mesmo milhões de pessoas com o mesmo objectivo. Cada um de nós teve um berço, educação, vivências e experiências únicas, pelo que não há qualquer motivo para esperar que agora fossemos todos iguais. Se somos de facto uma geração, somos uma geração apenas.
terça-feira, 17 de dezembro de 2013
Falar verdade a mentir
No passado dia 10 deparei-me com o seguinte cabeçalho de notícia "UE. Mulheres ganham menos 16.2% que os homens". Sendo a igualdade entre géneros um eterno e actual assunto pensei que me poderia ver confrontado com uma análise interessante do ponto da situação. Enganei-me.
A notícia prosseguia com "Segundo a Comissão Europeia, o número significa que trabalham gratuitamente 59 dias por ano. Espero sinceramente que esta frase se deva a alguma liberdade artística, interpretação criativa ou dificuldade linguística do jornalista do Metro, e que tamanho disparate populista e sensacionalista não tenha realmente provido da Comissão Europeia. Faz-me lembrar alguns dirigentes sindicais que, confrontados com eventuais cortes no rendimento ou aumento do horário de trabalho, os repudiaram por considerarem que tal era equivalente a exigir trabalho gratuito e, portanto, escravatura. Gostaria de salientar que não é aqui relevante quem tem razão; estarmos repletos dela não justifica que empreguemos argumentos errados. O contrário infelizmente também se aplica: usar argumentos errados não significa que não tenhamos razão. Em ambos os casos, contudo, o resultado é uma confusão onde a própria razão se perde por entre discussões fúteis e mal direccionadas.
Voltando à notícia em questão, ao deparmo-nos com um número como este antes de começarmos a tirar confusões sobre isto e aquilo, é importante ponderarmos duas questões: o porquê desse número e qual seria o número que esperaríamos/desejaríamos. As questões estão obviamente relacionados, e a resposta à segunda aparenta ser uns claros 0%. Mas não me parece nada óbvio que assim seja, e até consigo pensar rapidamente em várias razões para que, sem existência de discriminação, esse número seja > 0% (eg: o facto de algumas áreas bem remuneradas nos dias de hoje, como o seja a engenharia, atraírem predominantemente fauna masculina). Claro que, se realizasse o exercício oposto, muito provavelmente também conseguiria lembrar-me de diversas razões que levassem a que fosse expectável que as mulheres auferissem mais do que os homens. O que só indica que o assunto merece alguma atenção e uma análise cuidade, ao invés de uns rápidos bitates.
Seria ainda, penso eu, importante esclarecer alguns pontos em relação ao modo como as contas foram feitas (não é preciso ser-se um mago da estatística para ser quão facilmente se podem manipular os números). Em média pode não ser tão esclarecedor quanto possa parecer à primeira vista. Incluíram desempregados nos cálculos? E casos esporádicos e desestabilizadores, como multi-milionários? Estamos a falar de números brutos ou de remuneração por hora de trabalho?
É claro que é perfeitamente possível que o estudo original tenha abordado todas estas (e ainda outras) questões, tendo apenas sido omitidas na notícia de modo a caber em 1/8 de página (não, não me dei ao trabalho de medir). Isto é uma infeliz consequência da correria em que todos vivemos, assim como da enorme abundância de informação disponível. Estaremos então condenados à superficialidade e às simplificações? Talvez. Mas ainda assim podemos criticá-las.
Filipe Baptista de Morais
A notícia prosseguia com "Segundo a Comissão Europeia, o número significa que trabalham gratuitamente 59 dias por ano. Espero sinceramente que esta frase se deva a alguma liberdade artística, interpretação criativa ou dificuldade linguística do jornalista do Metro, e que tamanho disparate populista e sensacionalista não tenha realmente provido da Comissão Europeia. Faz-me lembrar alguns dirigentes sindicais que, confrontados com eventuais cortes no rendimento ou aumento do horário de trabalho, os repudiaram por considerarem que tal era equivalente a exigir trabalho gratuito e, portanto, escravatura. Gostaria de salientar que não é aqui relevante quem tem razão; estarmos repletos dela não justifica que empreguemos argumentos errados. O contrário infelizmente também se aplica: usar argumentos errados não significa que não tenhamos razão. Em ambos os casos, contudo, o resultado é uma confusão onde a própria razão se perde por entre discussões fúteis e mal direccionadas.
Voltando à notícia em questão, ao deparmo-nos com um número como este antes de começarmos a tirar confusões sobre isto e aquilo, é importante ponderarmos duas questões: o porquê desse número e qual seria o número que esperaríamos/desejaríamos. As questões estão obviamente relacionados, e a resposta à segunda aparenta ser uns claros 0%. Mas não me parece nada óbvio que assim seja, e até consigo pensar rapidamente em várias razões para que, sem existência de discriminação, esse número seja > 0% (eg: o facto de algumas áreas bem remuneradas nos dias de hoje, como o seja a engenharia, atraírem predominantemente fauna masculina). Claro que, se realizasse o exercício oposto, muito provavelmente também conseguiria lembrar-me de diversas razões que levassem a que fosse expectável que as mulheres auferissem mais do que os homens. O que só indica que o assunto merece alguma atenção e uma análise cuidade, ao invés de uns rápidos bitates.
Seria ainda, penso eu, importante esclarecer alguns pontos em relação ao modo como as contas foram feitas (não é preciso ser-se um mago da estatística para ser quão facilmente se podem manipular os números). Em média pode não ser tão esclarecedor quanto possa parecer à primeira vista. Incluíram desempregados nos cálculos? E casos esporádicos e desestabilizadores, como multi-milionários? Estamos a falar de números brutos ou de remuneração por hora de trabalho?
É claro que é perfeitamente possível que o estudo original tenha abordado todas estas (e ainda outras) questões, tendo apenas sido omitidas na notícia de modo a caber em 1/8 de página (não, não me dei ao trabalho de medir). Isto é uma infeliz consequência da correria em que todos vivemos, assim como da enorme abundância de informação disponível. Estaremos então condenados à superficialidade e às simplificações? Talvez. Mas ainda assim podemos criticá-las.
Filipe Baptista de Morais
quinta-feira, 21 de novembro de 2013
About Time
A few days ago, while watching the actually-not-so-bad About Time movie, I was yet again reminded of this wonderful (American?) custom of kissing a girl at 00.00 in New Year's Eve. In Portugal we have a different custom: to eat twelve horrible raisins.
We can despise the Americans for many things. but they sure know how to get their holiday traditions straight. Certainly a beautiful girl's lips taste better than that dreadful fruit. Unless, perhaps, if she has just eaten two handful of them. We undoubtedly love to "learn" and copy things from others, not just Americans. It's about time we start adopting the good stuff.
Back to the movie, if you've watched the trailer you might have noticed the tagline. If you could relive any moment... could you make life perfect? The question, besides somewhat summarising the film's main theme, is quite interesting. If we could. what actions would we undo, what words would we take back? Or rather, would we take action where we stood still and say the words left unspoken?
Sometimes people say they've done something and never looked back, in the sense that they are sure of having made the right choice. I, perhaps unfortunately, do not find myself amongst those ranks. I tend to look back again and again, until I am so much further down the road I can no longer see where it began. This is not, however, necessarily a sad process. There are those things which, when brough back from our sea of memories, always manage to make us smile.
Of course there are many thngs that we would like to have done differently. Still, going back to "fix" them would ruin some of the magic that surrounds our lives, very much like over-planned vacations. There must always be room for the unexpected, the unknown, the mistake. Could you make life perfect by relieving any moment you'd wish? It's a trick question. What is perfection anyway?
Filipe Baptista de Morais
We can despise the Americans for many things. but they sure know how to get their holiday traditions straight. Certainly a beautiful girl's lips taste better than that dreadful fruit. Unless, perhaps, if she has just eaten two handful of them. We undoubtedly love to "learn" and copy things from others, not just Americans. It's about time we start adopting the good stuff.
Back to the movie, if you've watched the trailer you might have noticed the tagline. If you could relive any moment... could you make life perfect? The question, besides somewhat summarising the film's main theme, is quite interesting. If we could. what actions would we undo, what words would we take back? Or rather, would we take action where we stood still and say the words left unspoken?
Sometimes people say they've done something and never looked back, in the sense that they are sure of having made the right choice. I, perhaps unfortunately, do not find myself amongst those ranks. I tend to look back again and again, until I am so much further down the road I can no longer see where it began. This is not, however, necessarily a sad process. There are those things which, when brough back from our sea of memories, always manage to make us smile.
Of course there are many thngs that we would like to have done differently. Still, going back to "fix" them would ruin some of the magic that surrounds our lives, very much like over-planned vacations. There must always be room for the unexpected, the unknown, the mistake. Could you make life perfect by relieving any moment you'd wish? It's a trick question. What is perfection anyway?
Filipe Baptista de Morais
terça-feira, 20 de agosto de 2013
The Black Swan
Some time ago I decided to read The Black Swan, by Nassim Taleb, after spotting several references in other books I enjoyed. Yesterday, when reading A Arte de Pensar com Clareza by Rolf Dobelli, I came across another respectful mention to Taleb and decided to finally put on paper my thoughts on the book.
The Black Swan describes and analyses the phenomena (named Black Swan* by the author) whereby single isolated and unpredictable events (so-called outliers) are sometimes more relevant and important than the remaining vast majority which obey some rule or appear to follow some logic. I will not try to summarise Taleb's marvellous book in a couple of pages, but rather try to describe the general picture and through it hopefully make the reader curious enough to go and read it for him(her)self.
The main idea of the book is that it is wiser to recognise our knowledge's limitations and act accordingly, then trying to use the best tools available to try and predict the unpredictable. Quoting one of the book's examples, you would not want to use a map of the Pyrenees when climbing to the Himalaias, even if that is the most similar to a map of the Himalaias available. This apparently small step, of recognising that we are using the wrong map and to throw it away, may be surprisingly hard. Near the end comes my favourite quote from the book: It is much more sound to take risks you can measure than to measure the risks you are taking.
For the ones more familiar with statistics and/or background in engineering or mathematics the book also offers some insight on normal and fractal distributions, highlighting the differences between both and the conditions under which one may expect to come across one or the other.
Finally, do not lose heart if, at the beginning of your reading, Taleb's writing seems arrogant and condescendent towards the reader. You will find his ideas are definitely worth the hassle.
Filipe Baptista de Morais
* The Black Swan (capital letters) is not the same as the black swan, which is often mentioned in philosofical debates and is basically a fallacy of inductive reasoning.
The Black Swan describes and analyses the phenomena (named Black Swan* by the author) whereby single isolated and unpredictable events (so-called outliers) are sometimes more relevant and important than the remaining vast majority which obey some rule or appear to follow some logic. I will not try to summarise Taleb's marvellous book in a couple of pages, but rather try to describe the general picture and through it hopefully make the reader curious enough to go and read it for him(her)self.
The main idea of the book is that it is wiser to recognise our knowledge's limitations and act accordingly, then trying to use the best tools available to try and predict the unpredictable. Quoting one of the book's examples, you would not want to use a map of the Pyrenees when climbing to the Himalaias, even if that is the most similar to a map of the Himalaias available. This apparently small step, of recognising that we are using the wrong map and to throw it away, may be surprisingly hard. Near the end comes my favourite quote from the book: It is much more sound to take risks you can measure than to measure the risks you are taking.
For the ones more familiar with statistics and/or background in engineering or mathematics the book also offers some insight on normal and fractal distributions, highlighting the differences between both and the conditions under which one may expect to come across one or the other.
Finally, do not lose heart if, at the beginning of your reading, Taleb's writing seems arrogant and condescendent towards the reader. You will find his ideas are definitely worth the hassle.
Filipe Baptista de Morais
* The Black Swan (capital letters) is not the same as the black swan, which is often mentioned in philosofical debates and is basically a fallacy of inductive reasoning.
domingo, 4 de agosto de 2013
A Cubic Interaction
As you all know, the Interactable project used to have a website with updated (*cough cough*) news and plans regarding the project, hosted at interactable.tk. Most unfortunately, the website seems to have been put down, and now redirects the visitors to some "interesting" ads. Although our technical staff is investigating the issue, it is still unclear why this happened; we suspect Korean hackers though. Either that or the republic of Tokelau (is it a republic?) went bankrupt and decided to make some budget cuts, namely on free hosting of websites.
For this reason this blog will now feature some of the posts that would be on that website, until our technical staff fixes the issue, which might obviously take a while since we will first need to hire them. That being said, not that much is expected to happen around Interactable in the next months anyway.
In a previous post it was announced that the project would participate in the E3 forum meeting and so it did, under the title "Interactable: a Cubic Interaction" Yep, we went with the cheesy style. It is a great pleasure to announce that Interactable's passing by the E3 Forum was a huge success: the crowd
cheered with the live demos and the jury was impressed by the project's
potential and innovative concept.
The programme was filled with panels of respected speakers who gave
their perspectives on the issues of employment and entrepreneurship, and
how education is linked to both.
All in all it was an extremely full day where the team was also able to promote some networwking. Last but not least, Interactable was awarded the Most Innovative Product/Technology award by the international jury, leading to yet another boost in confidence and motivation.
Just the week after, Interactable was presented at the LarSyS (Laboratory for Robotics and Systems in Engineering) annual meeting. Despite being somewhat of an intruder (even though two of the team members are/were part of LarSys the project itself is totally out of its scope) the team had the opportunity to do some live demos and explanations, yet again generating interest, positive feedback and suggestions for new applications.
The team is now considering whether or not to let go of the project due to lack of time and added responsibilities. Still, there are already some people of the team's confidence interested in picking it up and taking over the next few miles. The project might then suffer massive changes in its team's composition, but will most likely endure. There should be an update on the project's situation before the end of 2013.
Filipe Baptista de Morais
For this reason this blog will now feature some of the posts that would be on that website, until our technical staff fixes the issue, which might obviously take a while since we will first need to hire them. That being said, not that much is expected to happen around Interactable in the next months anyway.
All in all it was an extremely full day where the team was also able to promote some networwking. Last but not least, Interactable was awarded the Most Innovative Product/Technology award by the international jury, leading to yet another boost in confidence and motivation.
Just the week after, Interactable was presented at the LarSyS (Laboratory for Robotics and Systems in Engineering) annual meeting. Despite being somewhat of an intruder (even though two of the team members are/were part of LarSys the project itself is totally out of its scope) the team had the opportunity to do some live demos and explanations, yet again generating interest, positive feedback and suggestions for new applications.
The team is now considering whether or not to let go of the project due to lack of time and added responsibilities. Still, there are already some people of the team's confidence interested in picking it up and taking over the next few miles. The project might then suffer massive changes in its team's composition, but will most likely endure. There should be an update on the project's situation before the end of 2013.
Filipe Baptista de Morais
domingo, 30 de junho de 2013
A Nobel Day
Last Tuesday I had the pleasure to participate in the first "A Nobel Day" event, which took place in Lisbon and intends to spread around the world in a similar way to the TEDTalks. The idea of these events is to bring together Nobel Laureates, potential candidates and past nominees, within Physics, Chemistry, Physiology or Medicine, Literature and Peace into discussion panels around several interesting issues. More information can be found on their webside, http://www.anobelday.com/.
The first two panels, which were open to the public after registration, had the broad enough topics of "Financial Problems with Science" and "Future of Scientific Investigation" to interest non-health professionals such as myself.
I must say the event did not start all that great for me, with what I consider some strange and important organisation failures.
First, for some reason they thought I had signed up for the professionals sessions in the afternoon, and wanted to give me access accordingly. This was really strange, since to attend those you both had to pay a fee (which for me was marked as payed, although I obviously did not) and give credencials of your technical expertise in the area (which I obviously do not have).
Then the 1st panel's chair, Dr Maria de Belém, did not leave such a good impression. She seemed to struggle a lot with the (English) language, she wasted most of the time with off-topic issues (namely details on the current research project of the guests and talked in Portuguese a lot, while the guests stood idle and bored without understanding a word. Although one of the invited speaker did not say a word after the short introduction in the beggining, the chair made no attempt of drawing her into the discussion. Still, the panel managed to talk about some relevant and important issues, such as the excessive administrative/burocratic on head-researchers, different ways of financing research and where most of money has came from (historically) and why.
The 2nd panel was trully amazing and saved the day. The char, Dr Ritu Dhand (Nature Chief Biological Sciences Editor), had the confidence and expertise to keep a steady, relevant, interesting, informal and even sometimes funny conversation. Rather than the topics themselves, I would rather write about this odd situation that took place right in the beginning. After a particularly long question by Dr. Ritu, Professor Smithies (Nobel Price in 2007) replied "Can you rephrase that? I couldn't hear anything because I'm deaf". I recall immediately thinking Oh dear, they invited an old senile into the discussion just for his long passed achievements... This totally unfair thought illustrates two things: my grumpyness and stupidity when having woken up too early and, at the same time, the general western perspective towards older people. Fortunately I was soon able to realise my grave mistake and acknowledge Professor Smithis insight and quick thinking. It is amazing and scary the speed at which we can emmit (wrong) judgements about someone, especially when influenced by distorted stereotypes.
A very important point, stressed by several of the speakers, is the need to discuss the cost/benefits of some extremely expensive medical treatments. They seemed to believe that this lack of discussion is due to the unwillingness of politicians to bring it into public debate, since "no one earns votes speaking about death". Truthful as it may sound, doctors still have their share of responsability for not being able to reach general public more directly.
All in all A Nobel Day was an extremely interesting event which hopefully will be repeated around the world.
Filipe Baptista de Morais
The first two panels, which were open to the public after registration, had the broad enough topics of "Financial Problems with Science" and "Future of Scientific Investigation" to interest non-health professionals such as myself.
I must say the event did not start all that great for me, with what I consider some strange and important organisation failures.
First, for some reason they thought I had signed up for the professionals sessions in the afternoon, and wanted to give me access accordingly. This was really strange, since to attend those you both had to pay a fee (which for me was marked as payed, although I obviously did not) and give credencials of your technical expertise in the area (which I obviously do not have).
Then the 1st panel's chair, Dr Maria de Belém, did not leave such a good impression. She seemed to struggle a lot with the (English) language, she wasted most of the time with off-topic issues (namely details on the current research project of the guests and talked in Portuguese a lot, while the guests stood idle and bored without understanding a word. Although one of the invited speaker did not say a word after the short introduction in the beggining, the chair made no attempt of drawing her into the discussion. Still, the panel managed to talk about some relevant and important issues, such as the excessive administrative/burocratic on head-researchers, different ways of financing research and where most of money has came from (historically) and why.
The 2nd panel was trully amazing and saved the day. The char, Dr Ritu Dhand (Nature Chief Biological Sciences Editor), had the confidence and expertise to keep a steady, relevant, interesting, informal and even sometimes funny conversation. Rather than the topics themselves, I would rather write about this odd situation that took place right in the beginning. After a particularly long question by Dr. Ritu, Professor Smithies (Nobel Price in 2007) replied "Can you rephrase that? I couldn't hear anything because I'm deaf". I recall immediately thinking Oh dear, they invited an old senile into the discussion just for his long passed achievements... This totally unfair thought illustrates two things: my grumpyness and stupidity when having woken up too early and, at the same time, the general western perspective towards older people. Fortunately I was soon able to realise my grave mistake and acknowledge Professor Smithis insight and quick thinking. It is amazing and scary the speed at which we can emmit (wrong) judgements about someone, especially when influenced by distorted stereotypes.
A very important point, stressed by several of the speakers, is the need to discuss the cost/benefits of some extremely expensive medical treatments. They seemed to believe that this lack of discussion is due to the unwillingness of politicians to bring it into public debate, since "no one earns votes speaking about death". Truthful as it may sound, doctors still have their share of responsability for not being able to reach general public more directly.
All in all A Nobel Day was an extremely interesting event which hopefully will be repeated around the world.
Filipe Baptista de Morais
domingo, 12 de maio de 2013
Promiscuidade
Há pouco tempo li nas notícias que o Tribunal de Execução de Penas de Lisboa negou liberdade condicional a Vale e Azevedo por, entre outras razões, evidar dar uma “sensação de impunidade, o que comunitariamente é intolerável”. Podem ler a notícia completa aqui.
Ora eu não vou estar aqui a debater se o senhor devia ou não estar preso, já que não tenho nem conhecimento do caso nem competência para o julgar. Sinto no entanto que a razão apontada pelo tribunal para a decisão totalmente inaceitável. Citando o despacho do tribunal, a eventual libertação do ex-dirigente benfiquista tornaria “frustradas as expectativas de comunidade” e “daria uma sensação de impunidade, o que comunitariamente é intolerável”. Basicamente, o que o tribunal está a dizer é que a opinião popular e os julgamentos de rua têm uma palavra a dizer sobre as suas decisões. Isto é, a meu ver, gravíssimo, e espanta-me que nenhuma das notícia que tenha lido sobre o assunto tenha pegado no assunto.
Penso ainda que é um sinal de um problema maior que assola este país (mundo?): a promiscuidade de cargos e poderes. Parece que qualquer pessoa com um cargo com responsabilidade se sente incaçapaz de se limitar ao exercício as funções que lhe competem, sentindo-se obrigado a opinar sobre tudo e mais alguma coisa. Temos assim padres a fazer política, políticos a fazer filosofia e fantasia, jornalistas a fazer um pouco de tudo e sabe-se lá o mais quê. Faz-me lembrar aquelas instituições bancárias que usam figuras conhecidas do mundo do futebol para publicitar os seus produtos.
Agora, uma coisa é opiniar sem autoridade ou conhecimento. Outra é tomar decisões com base em razões erradas ou com poderes que não nos pertencem. Espero sinceramente que tudo não passe de uma infeliz questão de semântica. Mas duvido.
Filipe Baptista de Morais
Ora eu não vou estar aqui a debater se o senhor devia ou não estar preso, já que não tenho nem conhecimento do caso nem competência para o julgar. Sinto no entanto que a razão apontada pelo tribunal para a decisão totalmente inaceitável. Citando o despacho do tribunal, a eventual libertação do ex-dirigente benfiquista tornaria “frustradas as expectativas de comunidade” e “daria uma sensação de impunidade, o que comunitariamente é intolerável”. Basicamente, o que o tribunal está a dizer é que a opinião popular e os julgamentos de rua têm uma palavra a dizer sobre as suas decisões. Isto é, a meu ver, gravíssimo, e espanta-me que nenhuma das notícia que tenha lido sobre o assunto tenha pegado no assunto.
Penso ainda que é um sinal de um problema maior que assola este país (mundo?): a promiscuidade de cargos e poderes. Parece que qualquer pessoa com um cargo com responsabilidade se sente incaçapaz de se limitar ao exercício as funções que lhe competem, sentindo-se obrigado a opinar sobre tudo e mais alguma coisa. Temos assim padres a fazer política, políticos a fazer filosofia e fantasia, jornalistas a fazer um pouco de tudo e sabe-se lá o mais quê. Faz-me lembrar aquelas instituições bancárias que usam figuras conhecidas do mundo do futebol para publicitar os seus produtos.
Agora, uma coisa é opiniar sem autoridade ou conhecimento. Outra é tomar decisões com base em razões erradas ou com poderes que não nos pertencem. Espero sinceramente que tudo não passe de uma infeliz questão de semântica. Mas duvido.
Filipe Baptista de Morais
sexta-feira, 10 de maio de 2013
Lisboa Não É A Cidade Perfeita
Há poucos dias assisti ao concerto dos Deolinda no Coliseu de Lisboa. A vocalista apresentou-se com um visual muito diferente àquele que nos habituou ( já foi a terceira vez que os apanhei ao vivo ), descartando os habituais "vestidos de aldeia" por algo mais clássico. Eventualmente directrizes do novo produtor, ou consequência do recente crescimento internacional. Seja como for é inegávle que o enfoque continua na música, não se podendo confundir os Deolinda com as inúmeras bandas que vivem da sensualidade da vocalista.
Para além das excelentes e Portuguesas melodias (fruto dos talentosos instrumentistas) e da voz de fadista da vocalista (reconheça-se ou não o fado nas suas músicas) há ainda que dar mérito às letras, que do romance ao retrato social são sempre inspiradas e relevantes, não sendo apenas palavras escolhidas pelo seu som bonito. Divertidas perspectivas femininas, retratos da mentalidade tuga ou histórias de amor, é possível encontrar um pouco de tudo nas suas letras. É daí que canções como Pois Foi, Eu Não Sei Falar Amor ou A Problemática Colocação De Um Mastro têm espaço para nascer.
Não pude deixar de estranhar o facto de não cantarem Parva Que Sou, que é actualmente das suas canções mais populares e com receção mais efusiva do público. Na altura ocorreu-me que provavelmente pretendiam afastar-se um pouco do tumulto gerado em volta dessa canção, que já muitas vezes vem sendo utilizada como símbolo de uma tal revolução para acontecer. Creio que os Deolinda sentem que a sua canção está a ser mal interpretada e e explorada para fins com os quais não se identificam. Uma curta entrevista aos membros da banda que li posteriormente veio corroborar esta tese.
Como já vem sendo hábito nos concertos a que assisto, os artista decidiram não cantar uma canções que mais esperava ouvir. Neste caso falo de (Ainda Bem Que) Lisboa Não É A Cidade Perfeita. Sendo o concerto na cidade capital, fiquei de facto espantado por a omitirem no repertório.
Lisboa pode não ser a cidade perfeita. mas também não é má de todo. Foi já considerada como o melhor destino turístico para 2013, e não podemos atribuir o galardão unicamente aos baixos preços praticados em solo Português. É inegável que a cidade tem um encanto próprio muito especial. Recentemente decidi (voltar a) ser turista na minha própria cidade, de modo a re-descobrir os seus atractivos. Comecei por visitar o Castelo de São Jorge e, comparando com outros pontos turísticos de cidade que visitei recentemente (Bruges/Gent/Antuérpia/Bruxelas, Helsínquia, Oslo ) devo dizer que não lhes fica a dever. Fica a promessa de lá voltar ao pôr do solo, que deve ser realmente espectacular. Entretanto há muito mais para ver, mas tem faltado tempo... mas farei os possíveis para não cair num Movimento Perpétuo Associativo.
Filipe Baptista de Morais
Para além das excelentes e Portuguesas melodias (fruto dos talentosos instrumentistas) e da voz de fadista da vocalista (reconheça-se ou não o fado nas suas músicas) há ainda que dar mérito às letras, que do romance ao retrato social são sempre inspiradas e relevantes, não sendo apenas palavras escolhidas pelo seu som bonito. Divertidas perspectivas femininas, retratos da mentalidade tuga ou histórias de amor, é possível encontrar um pouco de tudo nas suas letras. É daí que canções como Pois Foi, Eu Não Sei Falar Amor ou A Problemática Colocação De Um Mastro têm espaço para nascer.
Não pude deixar de estranhar o facto de não cantarem Parva Que Sou, que é actualmente das suas canções mais populares e com receção mais efusiva do público. Na altura ocorreu-me que provavelmente pretendiam afastar-se um pouco do tumulto gerado em volta dessa canção, que já muitas vezes vem sendo utilizada como símbolo de uma tal revolução para acontecer. Creio que os Deolinda sentem que a sua canção está a ser mal interpretada e e explorada para fins com os quais não se identificam. Uma curta entrevista aos membros da banda que li posteriormente veio corroborar esta tese.
Como já vem sendo hábito nos concertos a que assisto, os artista decidiram não cantar uma canções que mais esperava ouvir. Neste caso falo de (Ainda Bem Que) Lisboa Não É A Cidade Perfeita. Sendo o concerto na cidade capital, fiquei de facto espantado por a omitirem no repertório.
Lisboa pode não ser a cidade perfeita. mas também não é má de todo. Foi já considerada como o melhor destino turístico para 2013, e não podemos atribuir o galardão unicamente aos baixos preços praticados em solo Português. É inegável que a cidade tem um encanto próprio muito especial. Recentemente decidi (voltar a) ser turista na minha própria cidade, de modo a re-descobrir os seus atractivos. Comecei por visitar o Castelo de São Jorge e, comparando com outros pontos turísticos de cidade que visitei recentemente (Bruges/Gent/Antuérpia/Bruxelas, Helsínquia, Oslo ) devo dizer que não lhes fica a dever. Fica a promessa de lá voltar ao pôr do solo, que deve ser realmente espectacular. Entretanto há muito mais para ver, mas tem faltado tempo... mas farei os possíveis para não cair num Movimento Perpétuo Associativo.
Filipe Baptista de Morais
segunda-feira, 8 de abril de 2013
Cute yet dangerous
The newspaper Metro published this very interesting news on March 22nd, entitled "São lindos e ainda salvam o planeta", meaning They're beautiful and, on top of that, they save the planet. It basicly applauds the new environmentalists' trend to use cute and fluffy animais to raise people's awareness and help them protect the environment in several ways.
You don't really need a degree in psychology to assertain that this is a good idea (in the sense that it will work). Nobody cares about some ugly bush or spider, but by all means please save the dolphins and the koalas! In fact I've already written about this issue previously in 2010, in the post "Who Cares?". Curiously enough, that post also emerged has a response to a news from Metro. Now that I think of it, I believe those were the only two times I've seen the term fluffy being used in a newspaper.
What I want to talk about now is not that irrational concern for cute species, but rather how using those images to make people more interventive may not be as harmless as it might seem at first glance.
I'd like to start by going a bit against the generally accepted theory that it's big corporate interests, in all their greed, that are destroying the planet while we all, in our best of intentions, stand powerless against them. There are many flaws to this reasoning. First, we should never forget that these big mean corporations are ultimately working for us. Sure, we all hate oil companies and how they're careless in their handling of oil and so on. But we also get furious when fuel prices rise. Or when clothes get more expensive. We all like to act as if protecting the environment is effortless and comes with loads of advantages and no cost. But, be sure of it, protecting the environment can be very expensive sometimes. As an example, I remember this time when a professor of mine was talking about this project he'd worked on, to install some power lines in Portugal. They had this (cheap) project to make the connection through air cables but then some environment protection organisation stood against it by arguing that it would be harmful for this local bat population. The court decided in their favour, and the cables had to be installed underground. This change made the whole project cost ten times more and of course it's us, consumers, who are paying for it. Another example could be Portugal's heavy investment in renewable energies over the last years, usually loved by the crowd. Thing is, it seems that, were we not to be using any renewable energies at all, our electricity bill would be 30% cheaper. That's a huge cost, when all hell runs loose after each few percents increase. Mind that I'm not defending that we shouldn't care about the bats or using renewable energies; I'm just saying we also need to be aware of the costs of doing so.
Another critic to that line of thinking is that, nowadays, we're far from powerless. Besides changing our habits towards more environment friendly ones, we can also fight those big mean companies through public journalism, by divulging their acts. In fact, internet has made bad publicity so poweful that it's precisely the bigger companies that are most likely to make big contributions and gestures towards environment protection. Of course one can question their motives, but the result is the same.
Back to the initial theme, those fluffy animais are dangerous because they make us blind to the downsides of their (over?) protection. Of course, as the Metro news reported, they're mostly used for higher purposes, such as saving their uglier brothers and sisters. Yet this means that we're somewhat being tricked and manipulated into helping a cause. And if the purpose of any action is ill-defined or hidden, how are we supposed to make just and informed decisions? As I've already tried to demonstrate, going as green as possible might not always be the right decision.
Some might claim that environmentalists are reasonable people with good intentions and so will use this "new" persuasion technique with care, parsiomony and responsibility. Still, as we all know, the road to hell is paved with good intentions. Moreover, focusiing all important decision making in some enlightened few is both dangerous (everyone is wrong sometimes) and dictatorship like.
Other possible argument in defense of this behaviour is that our consumer habits and lifestyles have led us so far from being green that, even if we turn the meter as far as we can on the other direction, we still wouldn't be too green. Perhaps. Problem is, in all arguments, it's the most fanatic who make the most noise.
In the end, I guess we'll have to hope that reason and good sense will prevail over sensacionalism, both amonst environmentalists and ourselves.
Filipe Baptista de Morais
You don't really need a degree in psychology to assertain that this is a good idea (in the sense that it will work). Nobody cares about some ugly bush or spider, but by all means please save the dolphins and the koalas! In fact I've already written about this issue previously in 2010, in the post "Who Cares?". Curiously enough, that post also emerged has a response to a news from Metro. Now that I think of it, I believe those were the only two times I've seen the term fluffy being used in a newspaper.What I want to talk about now is not that irrational concern for cute species, but rather how using those images to make people more interventive may not be as harmless as it might seem at first glance.
I'd like to start by going a bit against the generally accepted theory that it's big corporate interests, in all their greed, that are destroying the planet while we all, in our best of intentions, stand powerless against them. There are many flaws to this reasoning. First, we should never forget that these big mean corporations are ultimately working for us. Sure, we all hate oil companies and how they're careless in their handling of oil and so on. But we also get furious when fuel prices rise. Or when clothes get more expensive. We all like to act as if protecting the environment is effortless and comes with loads of advantages and no cost. But, be sure of it, protecting the environment can be very expensive sometimes. As an example, I remember this time when a professor of mine was talking about this project he'd worked on, to install some power lines in Portugal. They had this (cheap) project to make the connection through air cables but then some environment protection organisation stood against it by arguing that it would be harmful for this local bat population. The court decided in their favour, and the cables had to be installed underground. This change made the whole project cost ten times more and of course it's us, consumers, who are paying for it. Another example could be Portugal's heavy investment in renewable energies over the last years, usually loved by the crowd. Thing is, it seems that, were we not to be using any renewable energies at all, our electricity bill would be 30% cheaper. That's a huge cost, when all hell runs loose after each few percents increase. Mind that I'm not defending that we shouldn't care about the bats or using renewable energies; I'm just saying we also need to be aware of the costs of doing so.
Another critic to that line of thinking is that, nowadays, we're far from powerless. Besides changing our habits towards more environment friendly ones, we can also fight those big mean companies through public journalism, by divulging their acts. In fact, internet has made bad publicity so poweful that it's precisely the bigger companies that are most likely to make big contributions and gestures towards environment protection. Of course one can question their motives, but the result is the same.
Back to the initial theme, those fluffy animais are dangerous because they make us blind to the downsides of their (over?) protection. Of course, as the Metro news reported, they're mostly used for higher purposes, such as saving their uglier brothers and sisters. Yet this means that we're somewhat being tricked and manipulated into helping a cause. And if the purpose of any action is ill-defined or hidden, how are we supposed to make just and informed decisions? As I've already tried to demonstrate, going as green as possible might not always be the right decision.
Some might claim that environmentalists are reasonable people with good intentions and so will use this "new" persuasion technique with care, parsiomony and responsibility. Still, as we all know, the road to hell is paved with good intentions. Moreover, focusiing all important decision making in some enlightened few is both dangerous (everyone is wrong sometimes) and dictatorship like.
Other possible argument in defense of this behaviour is that our consumer habits and lifestyles have led us so far from being green that, even if we turn the meter as far as we can on the other direction, we still wouldn't be too green. Perhaps. Problem is, in all arguments, it's the most fanatic who make the most noise.
In the end, I guess we'll have to hope that reason and good sense will prevail over sensacionalism, both amonst environmentalists and ourselves.
Filipe Baptista de Morais
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quarta-feira, 27 de março de 2013
Triste
Não o posso assegurar com certeza ( na verdade até poderia, mas pareço padecer da preguiça crónica de que tantas vezes nós Portugueses somos acusados ) mas penso que estou a abrir um precedente ao publicar dois posts no mesmo dia.
Queria fazer apenas um muito curto comentário à entrevista a José Sócrates que acabou de ter lugar. Este não é um blog sobre política, pelo que não vou comentar o seu regresso nem as suas opiniões. Apenas gostava de chamar a atenção para isto. Sucessivamente durante a entrevista os jornalistas forçaram a mudança de tema, não adensando temas ( e até frequentemente cortando a palavra do ex-PM ) tão importantes como o sejam as PPP e o comportamento da dívida pública do longo dos anos. No final, terminaram a entrevista com duas questões, para as quais aparentemente tinham de guardar tempo em detrimento de outros temas menos importantes:
Filipe Baptista de Morais
Queria fazer apenas um muito curto comentário à entrevista a José Sócrates que acabou de ter lugar. Este não é um blog sobre política, pelo que não vou comentar o seu regresso nem as suas opiniões. Apenas gostava de chamar a atenção para isto. Sucessivamente durante a entrevista os jornalistas forçaram a mudança de tema, não adensando temas ( e até frequentemente cortando a palavra do ex-PM ) tão importantes como o sejam as PPP e o comportamento da dívida pública do longo dos anos. No final, terminaram a entrevista com duas questões, para as quais aparentemente tinham de guardar tempo em detrimento de outros temas menos importantes:
- Porque é que foi estudar Filosofia e não Ciências Políticas?
- Quem é que deve ter medo dos seus comentários políticos?
Filipe Baptista de Morais
Animals
This short post intends only to divulge the new videoclip for Muse's song, Animals. The video was made by two Portuguese, Inês Freitas and Miguel Mendes, and you can check it here. Once again, it is sad that achievements by Portuguese are so easily overlooked by our own media.
You can see my extended interpretation of the song ( along with other things ), in the previous post "Alpha Species", published in October 2012.
Filipe Baptista de Morais
You can see my extended interpretation of the song ( along with other things ), in the previous post "Alpha Species", published in October 2012.
Filipe Baptista de Morais
sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013
The Wisdom of Crowds
Some time ago I came across a book which, I dare say, revived my faith in Humanity. We all know that news tend to be pessimistic, in the sense that they depicture people's mistakes more often (and far brighter) than what they do well. Moreover, positive remarks are usually restricted to the very best in any given activity; it's no surprise that we, the John Does of this world, do not find them flattering. Adding up to the pot, I've read so much about irrationalities and biases in our thinking that made me wonder why did we manage to survive so far. This Wisdom of Crowds, by James Surowiecki, is heart warming in the way it reveals the potential we all share. If not alone, then together.
The main idea behind the book is in fact quite simple: given a (not necessarily large) number of people, their average prediction/decision is almost alwaTys better than most of their individual ones. Most strikingly, it is also quite often better than the one picked by the smartest of them! Note that, by average, I mean aggregated in an adequate way; similarly, the term smart was also employed quite loosely but I believe you got the picture.
From guessing the number of beans in a jar, predicting sports outcomes, evaluating shares in stock markets or finding a lost submarine the author presents us with a wide and interesting variety of corroborative examples. Oddly enough, the very first example depicted in the book came from one trying to demonstrate its very opposite: the stupidity of crowds.
Obviously, there are some underlying assumptions. The wisdom of crows does not apply to every possible subject, although it appears to be remarkably robust to environment complexity and lack of information. There are conditions that must be met, such as independence of thought/action, the existence of an adequate aggregation function and coherent responses (that is, people must act in conformity with their beliefs and not try to play politics). Its application to decision making also raises other issues, such as responsibility and accountability. Still, it is clear that, if used with parcimony and awareness, the wisdom of crowds has plenty of applications.
The last chapter talks about the implications of the wisdom and its assumptions in democracy, and the reasons why it often fails. Hopefully by now I've made a compelling enough argument for you to go buy the book. If not, well, I guess I'm not as good a writer as Surowiecki is.
Filipe Baptista de Morais
The main idea behind the book is in fact quite simple: given a (not necessarily large) number of people, their average prediction/decision is almost alwaTys better than most of their individual ones. Most strikingly, it is also quite often better than the one picked by the smartest of them! Note that, by average, I mean aggregated in an adequate way; similarly, the term smart was also employed quite loosely but I believe you got the picture.
From guessing the number of beans in a jar, predicting sports outcomes, evaluating shares in stock markets or finding a lost submarine the author presents us with a wide and interesting variety of corroborative examples. Oddly enough, the very first example depicted in the book came from one trying to demonstrate its very opposite: the stupidity of crowds.
Obviously, there are some underlying assumptions. The wisdom of crows does not apply to every possible subject, although it appears to be remarkably robust to environment complexity and lack of information. There are conditions that must be met, such as independence of thought/action, the existence of an adequate aggregation function and coherent responses (that is, people must act in conformity with their beliefs and not try to play politics). Its application to decision making also raises other issues, such as responsibility and accountability. Still, it is clear that, if used with parcimony and awareness, the wisdom of crowds has plenty of applications.
The last chapter talks about the implications of the wisdom and its assumptions in democracy, and the reasons why it often fails. Hopefully by now I've made a compelling enough argument for you to go buy the book. If not, well, I guess I'm not as good a writer as Surowiecki is.
Filipe Baptista de Morais
sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013
Polémica
O Público publicou há pouco tempo uma notícia em que referia que o "Instituto Superior de Contabilidade e Administração de Lisboa (ISCAL) e
o Instituto Politécnico de Leiria estão a subir as médias aos
estudantes que terminem os respectivos cursos dentro do tempo previsto". Esta notícia gerou intensa polémica e reacções intempestivas de parte a parte. Dada a sua Natureza e a interessante troca de argumentos de parte a parte pareceu-me que valeria a pena comentar este assunto. Se quiserem podem ler a notícia aqui.
Em primeiro lugar gostaria de dizer que, na minha opinião, não há caso para tanto alarido e preocupação, relativamente à "injustiça na entrada do mercado de trabalho" que tantos contestam. Isto porque os empregadores não se guiam única, exclusiva e cegamente pelas médias dos seus candidatos; far from it. É até sabido que muitas empresas dão preferências a estudantes de certas instituições, às quais atribuem credibilidade, em prol de outras. Ou à instituição da qual são provenientes. Ou àquela em que o primo por acaso trabalha. Ou simplesmente àquela que se encontra mais próxima do seu local de trabalho. Tudo isto é natural e dilui essa "injustiça", a existir. É certo que há casos, nomeadamente concursos públicos a bolsas de investigação, em que a média é o único determinante. No entanto, mais uma vez, não considero que esta notícia seja caso para grande alarme nesse âmbito. Isto porque há muitos outros factores que influenciam tanto ou mais a média. Não quero com isto afirmar que há faculdades que dão melhores notas que outras (nem que não as há; quem tiver esses dados que os comente), simplesmente pretendo salientar que as notas atribuídas a um aluno são extremamente relativas. Sendo eu próprio estudante Universitário posso comentar que, em cadeiras onde há alternância de Professores, é muito frequente haver (altas) oscilações nas notas de semestre para semestre. E não estou aqui a falar de 2 décimas. Parece-me portanto que também não é por aí que o caso se torna escandaloso.
Estas medidas de "incentivo" são sim dignas críticas mas porque, a meu ver, simplesmente não fazem qualquer sentido. Em primeiro lugar as notas de um aluno são, idealmente, um reflexo do conhecimento e capacidades que ele obteve/demonstrou. Não devem por isso ser adulteradas sob o pretexto de o incentivar. Em segundo lugar defendo que, sejam de que tipo forem, os incentivos apenas devem ser atribuídos a quem se destaque pela positiva. "Incentivar" os alunos que sejam aprovados a todas as cadeiras de um semestre ou que concluam a licenciatura em três ano é equivalente a dizer que tal não seria esperado deles, que é uma espécie de achievement. Ser aprovado a cadeiras e concluir o curso no tempo esperado deveriam ser a norma, e não a excepção. Isto é mandar uma mensagem clara aos estudantes de que apenas se conta com a mediocridade. De notar que este raciocínio em nada se prende com o tipo de incentivos utilizados, nem com as taxas de aprovação das cadeiras/cursos em causa. Ainda que apenas 1% dos estudantes concluí-se o a licenciatura no tempo previsto continuaria a defender que não faria sentido incentivá-los por isso. Finalmente acho que o 3º tipo de incentivo referido ("Quando a média do estudante for superior a 14, há ainda um incremento de meio valor na classificação final") merece um comentário especial. Subir a média de um aluno por este ter uma boa média é, perdoem-me a expressão, estúpido. Não faz qualquer tipo de sentido. É descaracterizar e retirar todo o sentido à média.
De modo a clarificar a minha posição, gostaria de salientar que não sou de todo contra o uso de incentivos aos estudantes exemplares. Não concordo (de todo) é com esta noção de exemplar ou, no último caso, com o tipo de incentivo usados. Ofereçam propinas, livros, cheques FNAC ou bilhetes para o Sporting. Os Presidentes de ambos os institutos justificaram as duas decisões referindo que são um incentivo aos estudantes a terminarem os estudos no tempo previsto, reduzindo assim os custos para o Estado. Isto é, na minha opinião, uma barata e demagógica tentativa de apelar ao sentido económico das pessoas que, neste tempo de crise, tão sensível se encontra. Não misturem alhos com bugalhos.
Finalmente gostaria ainda de aproveitar para comentar a reacção da Direcção da Associação de Estudantes do Instituto Superior de Contabilidade e Administração de Lisboa (AEISCAL) à notícia do Público. Podem consultá-la aqui. Não vou criticar a sua posição, dado que já exprimi a minha opinião quanto aos incentivos usados. Critico sim o tipo de argumentos utilizados que, apesar de serem empregues com frequência e geralmente até bem aceites, são a meu ver falaciosos. Em primeiro lugar, o eterno argumento "ah, mas já se faz assim há muito tempo" (neste caso três anos). Nem tudo o que fez foi bem feito, tal como é certo que nem tudo o que se fará o será. Mas esse tipo de raciocínio apenas leva à perpetuação de erros. Em seguida, o talvez ainda mais típico "ah mas toda a gente faz!". Não sei se é verdade se não, já que não referiram quais as Instituições do Ensino Superior que o fazem. Sei que a minha não faz. Mas ainda que acreditando nisso (não há razões para não o fazer creio) temos que concordar que é um argumento fraquíssimo e, até, algo infantil. Apenas me faz lembrar as crianças que, ao serem apanhadas a fazer algum disparate, denunciam tudo e todos na sua tentativa de se ilibar. No caso das crianças muitas vezes tiram daí algum benefício: sempre arranjam companhia para o castigo. No caso da AEISCAL não percebo realmente o que pretendiam.
Filipe Baptista de Morais
Em primeiro lugar gostaria de dizer que, na minha opinião, não há caso para tanto alarido e preocupação, relativamente à "injustiça na entrada do mercado de trabalho" que tantos contestam. Isto porque os empregadores não se guiam única, exclusiva e cegamente pelas médias dos seus candidatos; far from it. É até sabido que muitas empresas dão preferências a estudantes de certas instituições, às quais atribuem credibilidade, em prol de outras. Ou à instituição da qual são provenientes. Ou àquela em que o primo por acaso trabalha. Ou simplesmente àquela que se encontra mais próxima do seu local de trabalho. Tudo isto é natural e dilui essa "injustiça", a existir. É certo que há casos, nomeadamente concursos públicos a bolsas de investigação, em que a média é o único determinante. No entanto, mais uma vez, não considero que esta notícia seja caso para grande alarme nesse âmbito. Isto porque há muitos outros factores que influenciam tanto ou mais a média. Não quero com isto afirmar que há faculdades que dão melhores notas que outras (nem que não as há; quem tiver esses dados que os comente), simplesmente pretendo salientar que as notas atribuídas a um aluno são extremamente relativas. Sendo eu próprio estudante Universitário posso comentar que, em cadeiras onde há alternância de Professores, é muito frequente haver (altas) oscilações nas notas de semestre para semestre. E não estou aqui a falar de 2 décimas. Parece-me portanto que também não é por aí que o caso se torna escandaloso.
Estas medidas de "incentivo" são sim dignas críticas mas porque, a meu ver, simplesmente não fazem qualquer sentido. Em primeiro lugar as notas de um aluno são, idealmente, um reflexo do conhecimento e capacidades que ele obteve/demonstrou. Não devem por isso ser adulteradas sob o pretexto de o incentivar. Em segundo lugar defendo que, sejam de que tipo forem, os incentivos apenas devem ser atribuídos a quem se destaque pela positiva. "Incentivar" os alunos que sejam aprovados a todas as cadeiras de um semestre ou que concluam a licenciatura em três ano é equivalente a dizer que tal não seria esperado deles, que é uma espécie de achievement. Ser aprovado a cadeiras e concluir o curso no tempo esperado deveriam ser a norma, e não a excepção. Isto é mandar uma mensagem clara aos estudantes de que apenas se conta com a mediocridade. De notar que este raciocínio em nada se prende com o tipo de incentivos utilizados, nem com as taxas de aprovação das cadeiras/cursos em causa. Ainda que apenas 1% dos estudantes concluí-se o a licenciatura no tempo previsto continuaria a defender que não faria sentido incentivá-los por isso. Finalmente acho que o 3º tipo de incentivo referido ("Quando a média do estudante for superior a 14, há ainda um incremento de meio valor na classificação final") merece um comentário especial. Subir a média de um aluno por este ter uma boa média é, perdoem-me a expressão, estúpido. Não faz qualquer tipo de sentido. É descaracterizar e retirar todo o sentido à média.
De modo a clarificar a minha posição, gostaria de salientar que não sou de todo contra o uso de incentivos aos estudantes exemplares. Não concordo (de todo) é com esta noção de exemplar ou, no último caso, com o tipo de incentivo usados. Ofereçam propinas, livros, cheques FNAC ou bilhetes para o Sporting. Os Presidentes de ambos os institutos justificaram as duas decisões referindo que são um incentivo aos estudantes a terminarem os estudos no tempo previsto, reduzindo assim os custos para o Estado. Isto é, na minha opinião, uma barata e demagógica tentativa de apelar ao sentido económico das pessoas que, neste tempo de crise, tão sensível se encontra. Não misturem alhos com bugalhos.
Finalmente gostaria ainda de aproveitar para comentar a reacção da Direcção da Associação de Estudantes do Instituto Superior de Contabilidade e Administração de Lisboa (AEISCAL) à notícia do Público. Podem consultá-la aqui. Não vou criticar a sua posição, dado que já exprimi a minha opinião quanto aos incentivos usados. Critico sim o tipo de argumentos utilizados que, apesar de serem empregues com frequência e geralmente até bem aceites, são a meu ver falaciosos. Em primeiro lugar, o eterno argumento "ah, mas já se faz assim há muito tempo" (neste caso três anos). Nem tudo o que fez foi bem feito, tal como é certo que nem tudo o que se fará o será. Mas esse tipo de raciocínio apenas leva à perpetuação de erros. Em seguida, o talvez ainda mais típico "ah mas toda a gente faz!". Não sei se é verdade se não, já que não referiram quais as Instituições do Ensino Superior que o fazem. Sei que a minha não faz. Mas ainda que acreditando nisso (não há razões para não o fazer creio) temos que concordar que é um argumento fraquíssimo e, até, algo infantil. Apenas me faz lembrar as crianças que, ao serem apanhadas a fazer algum disparate, denunciam tudo e todos na sua tentativa de se ilibar. No caso das crianças muitas vezes tiram daí algum benefício: sempre arranjam companhia para o castigo. No caso da AEISCAL não percebo realmente o que pretendiam.
Filipe Baptista de Morais
domingo, 2 de dezembro de 2012
Irrational
Last Summer I had the privilege of reading, among other masterpieces, Thinking, Fast and Slow. The authoer, Daniel Kahneman, is a psychologist who was awarded the Nobel prize in Economics over his work around the psychology of judgement and decision making.
The book compiles a huge list of behavioural and decision biases, illustrating their effect through conducted experiments. These include, but are not limited to, the (amazing) anchoring effect, availability heuristic, base rate neglect, confirmation bias, decoy effect, duration neglect, expectation bias, framing effect, gambler's fallacy, illusion of control, insentivity to sample size, irrational escalation, just-world hypothesis, less-is-better effect, loss aversion, negativity bias, normalcy bias, omission bias (what we see is what we believe), optimistm bias, outcome bias, zero-risk bias. While it would take way too much time and paper (yes I still use it) to go through all of them here I urge you to look them up or, even better, read the book! Of course you can also just ask me, and settle for an ignorant's response.
The author tries to find a raison d'étre for these odd behaviours, ending up with the theory of the 2 systems. Basically he believes we're equipped with two different thinking mechanisms (without trying to make any physical/biological association). The first one is fast, emotional and hugely biased and heuristic based, thus irrational. The second is rational, though slow, and it's basicly how we think of ourselves in terms of reasoning. Unfortunately we're wrong, terribly wrong. Seems like system 1 is the one pulling the string as default, and system 2 is only called upon through conscious and effortful focusing. The conclusion is simples: we're not rational.
That statement, although seemingly inoquous and theoretical, has a huge practical impact in many different areas. Enough to be acknowledged with a Nobel prize in Economics. The reason is trivial: the entire Economy system is based on the premise that we are (or at least resemble greatly) rational agents. The same happens in other important areas, such as the political systems. When you drop that single premise it's as if we're solving a Maths problem with the wrong equations. The numbers add up, but the solution doesn't hold. And that really is a problem; we're agents alright, but hardly rational. After reading this book, I'm inclined to think that Dilbert (from The Dilbert Principle) was actually closer to the truth: people are idiots. Not my beloved readers, of course.
Of course politicians and people from marketing are aware of some of these 'glitches' in human reasoning, exploiting them to sell an item or an idea. It is not rare at all to listen to people complaining that they are manipulating us. However, from what I've read, I'm afraid this might be just the beginning. Sadly, being aware of our flaws is only helpful to some extent, given that our attention span is quite limited and therefore we'll quickly rever to our irrational form.
The book compiles a huge list of behavioural and decision biases, illustrating their effect through conducted experiments. These include, but are not limited to, the (amazing) anchoring effect, availability heuristic, base rate neglect, confirmation bias, decoy effect, duration neglect, expectation bias, framing effect, gambler's fallacy, illusion of control, insentivity to sample size, irrational escalation, just-world hypothesis, less-is-better effect, loss aversion, negativity bias, normalcy bias, omission bias (what we see is what we believe), optimistm bias, outcome bias, zero-risk bias. While it would take way too much time and paper (yes I still use it) to go through all of them here I urge you to look them up or, even better, read the book! Of course you can also just ask me, and settle for an ignorant's response.
The author tries to find a raison d'étre for these odd behaviours, ending up with the theory of the 2 systems. Basically he believes we're equipped with two different thinking mechanisms (without trying to make any physical/biological association). The first one is fast, emotional and hugely biased and heuristic based, thus irrational. The second is rational, though slow, and it's basicly how we think of ourselves in terms of reasoning. Unfortunately we're wrong, terribly wrong. Seems like system 1 is the one pulling the string as default, and system 2 is only called upon through conscious and effortful focusing. The conclusion is simples: we're not rational.
That statement, although seemingly inoquous and theoretical, has a huge practical impact in many different areas. Enough to be acknowledged with a Nobel prize in Economics. The reason is trivial: the entire Economy system is based on the premise that we are (or at least resemble greatly) rational agents. The same happens in other important areas, such as the political systems. When you drop that single premise it's as if we're solving a Maths problem with the wrong equations. The numbers add up, but the solution doesn't hold. And that really is a problem; we're agents alright, but hardly rational. After reading this book, I'm inclined to think that Dilbert (from The Dilbert Principle) was actually closer to the truth: people are idiots. Not my beloved readers, of course.
Of course politicians and people from marketing are aware of some of these 'glitches' in human reasoning, exploiting them to sell an item or an idea. It is not rare at all to listen to people complaining that they are manipulating us. However, from what I've read, I'm afraid this might be just the beginning. Sadly, being aware of our flaws is only helpful to some extent, given that our attention span is quite limited and therefore we'll quickly rever to our irrational form.
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quinta-feira, 8 de novembro de 2012
Inconsequent complaints
These days it is common to find references to the
advantages of optimism and the undesirable consequences of negativism. I
recently came across this article which states that, besides being contagious
and harmful, listening to complaints can actually make you dumb.
The article cleverly outlines the distinction between
relevant complaints (that call attention for issued that need to be solved)
from inconsequent complaints. These, which are the nasty dumbening elements, do
not call for a solution for the problem. In fact they don’t even pretend to,
they simply aim to share the reasons why the person feels miserable or
outraged.
This type of emotional craving is quite commonm
particularly in women. But it is not entirely negative since it is also known
that restraining our feelings (that is, not sharing them) can have an important
and negative impact in one’s happiness. Even in social terms sharing problems,
even unsolvable ones, is a powerful connectivity tool, as well as a proof and
foundation of friendship. The ‘shields’ mentioned by the authoer might be more
costly than it could seem.
As a final note I’d just like to say that the evidence
presented to support the negativism’s dumbening properties theory does not seem
that conclusive. It appears to me to be a huge leap of faith towards unknown
territory, trying to prove some (previously concepted) point.
Filipe Morais
Filipe Morais
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