terça-feira, 7 de setembro de 2010

Eyes Wide Shut

Todos os dias fugimos a questões, lutas e responsabilidades simplesmente porque é mais fácil ignorá-las. Para o justificar apresentamos a nós próprios inúmeras desculpas: as lutas não são nossas, são causas perdidas, ninguém faz isso, toda a gente age como nós. E assim levamos o carro para ir ao café a 500m de distância. Sacamos da net aquela música que tanto gostamos de ouvir. Mudamos de canal quando passam reportagens sobre os refugiados em Israel. Apagamos o email da mãe desesperada que tenta encontrar um dador para o transplante que o filho precisa. Abanamos a cabeça negativamente e desviamos o olhar da pessoa que nos pede dinheiro, para não recordarmos o rosto daquele a quem negámos ajuda.
Há poucos meses houve uma colheita de sangue na minha faculdade. Fui lá com intenções de colaborar, mas disseram que não me podiam tirar sangue porque tinha estado a fazer desporto nesse dia. Ora nessa altura fazia desporto todos os dias, e portanto não voltei lá. Mas podia perfeitamente ter faltado a um treino de ténis, cancelado um jogo de futebol, ou simplesmente dispensado uma ida ao ginásio. A verdade é que apesar da vontade de ajudar que (acredito) todos temos também não estamos para nos chatear muito.
Tenho uma amiga que não come carne de animais que não tenham tido boas condições de vida. É fácil perceber a sua indignação: basta ver as galinhas que nunca saem de gaiolas onde mal se podem mexer ou as vacas que só saem do estábulo para serem pendurados no mecanismo rolante que as encaminha para uma serra eléctrica. Certo que se trata de um fraco e inútil protesto, não é menos um consumidor que vai afectar a grande indústria das carnes. Mas é um pouco como o plebeu que se revolta contra a sua classe dominante: tolo patético apenas pela cobardia dos seus iguais, poderia ser igualmente ser líder e herói se muitos tivessem a coragem de o seguir.
Uma das minhas bandas preferidas do momento, os Rise Against (que a propósito vieram a Lisboa tocar em Julho) apelam constantemente à reflexão e à acção nas suas músicas. Vou assim finalizar debruçando-me sobre algumas das suas letras (é possível que já tenha referido aqui algumas):
1. “Neutrality means that you don’t really care, cause the struggle goes on even when you’re not there”, Collapse (Post-America). Há coisas face às quais não podemos ficar indiferentes e temos de tomar uma posição, a menos que alguém a tome por nós. É o caso dos suíços na 2ª Guerra Mundial, podem apelidar-se de pacifistas mas no fundo foram uns sacanas que se lixaram para os oprimidos e deixaram outros lutar (e morrer) por eles.
2. “Why loose sleep? Why complain? There’s always channels to change”, Elective Amnesia. Aqui é uma referência clara àquilo que tenho falado: a facilidade de ignorarmos os problemas “dos outros” como se não nos dissessem respeito.
3. “We don’t disappear just because your eyes are shut”, From Heads Unworthy. No seguimento do ponto número dois, ignorar os problemas que não nos dizem respeito directamente não os faz desaparecer, apenas os retira da nossa vida dando-nos o descanso dos danados. Quando nos afectam directamente é ainda pior: ignorá-los só nos poupa chatices que na maior parte das vezes voltam reforçadas mais tarde.
4. “We are what we are ‘till the day we die, or ‘till we don’t have the strength to go on”, The Strength To Go On. Esta frase leva-me à minha ideia final: creio que até determinada altura todos nos importámos, todos nos revoltámos, todos estávamos dispostos a lutar por estas causas. Simplesmente fomos perdendo as forças para continuar…

Filipe Baptista de Morais
10 de Agosto de 2010

180º

Hoje decidi começar por contar uma história:
Era uma vez cão um, um cocker preto adorado por toda a gente, que o considerava um “animal fofo e simpático”. Até que um dia (ou melhor dizendo uma noite), no bar da zona, o dito cocker com o gato do estabelecimento, uma cria felina ainda mais adorada por todos os que lá passavam. Ora do encontro entre duas criaturas tão adoráveis seria de esperar muita fofura e lamechice, mas o resultado foi antes um ventre estripado que levou à morte. Do dito gato claro. E desde então aos olhos da população o cão passou a ser uma besta, uma fera assassina sedenta de sangue que todos repugnavam. Ora se eu fosse esse cachorro decerto estaria confuso e triste com a atitude das pessoas, que num momento o adoram e no seguinte o odeiam, sem ele ter feito nada a não ser aquilo que lhe é natural.
Mas porque acontece isto? Apenas porque não gostamos da entidade em si, mas apenas de algumas das suas características ou actividades. Daí que, sem que elas tenham sofrido qualquer alteração, alteramos radicalmente a nossa opinião. E isso é cruel.

Filipe Baptista de Morais
7 de Agosto de 2010

Quantas estrelas tem o céu?

Quantas estrelas tem o céu de Lisboa? “Nunca reparei” dirão muitos de nós alfacinhas, enquanto que os mais atentos se ficam por um singelo “poucas”. Poucas porque elas fogem: fogem das luzes das nossas ruas, dos nossos carros, dos nossos prédios, como se os céus se apagassem para compensar termos iluminado a terra.
Mas para que nos servem essas luzes lá no alto? O facto é que mal damos pela sua falta, até abandonarmos a cidade e contemplarmos as alturas em todo o seu esplendor. Então sorrimos e achamo-las bonitas, até o regresso à rotina as atirar novamente para o inútil baú do esquecimento.
Quantas estrelas tem o céu? Não sei, mas um dia vou contá-las.

Filipe Baptista de Morais
1 de Agosto de 2010

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Olhares Nocturnos

Todos gostamos de apreciar uma bela vista nocturna perdendo-se no fundo do horizonte. O que queremos entre nós e o distante é que pode variar: uns gostam de uma paisagem campestre, outros de olhar o oceano, ou o deserto, ou uma floresta.
Das referidas anteriormente, nunca vi nenhum deserto, o mar (apesar de belo) parece-me também assustador e ameaçador (tanto mais se estiver calmo, não me perguntem porquê), o campo parece-me aborrecido e solitário e a floresta pouco acolhedora, como se fosse um intruso indesejado no seu mundo paralelo.
Não, aquilo que realmente me toca o coração e acalma o espírito são as paisagens citadinas. Talvez esteja corrompido por esta aceleradamente urbana sociedade ou talvez tal se deva apenas ao meu feitio demasiado pragmático, mas o facto é que nada me parece tão bonito como as luzes de uma cidade adormecida. E não é preciso sobrevoar NY do topo do Empire State Building (as Twin Towers eram demasiado altas aniway) ou espreitar Paris da Torre Eiffel para perceber do que estou a falar, gosto também de vários spots neste nosso cantinho do mundo:
-Adoro a vista do meu 4º andar em Telheiras. Apanha uma parte do eixo N-S e não acho nada mais relaxante do que ver passar os carros solitários às tantas da noite, como que perdidos no turbilhão das nossas vidas.
-A ciclovia que liga o Cais do Sodré a Belém, que eu teimosamente utilizo como percurso de corrida também oferece umas belas vistas.
-A costa algarvia vista do mar, isto é, estando dentro de um barco ou numa ilha mais a sul (como o local onde passo sempre parte das minhas férias).

E com isto despeço-me da cidade por um (sempre curto de mais) mês de merecidas férias no algarve.

Filipe Baptista de Morais

terça-feira, 20 de julho de 2010

Peças de um Puzzle

A meu ver as pessoas são como peças de um puzzle, mas peças inteligentes que procuram encaixar aqui e ali.
Cada um de nós tem as suas próprias curvas e arestas, que nos permitem encaixar naquela peça mas provocam um atrito incomportável noutra. Podemos alisar certas das nossas pontas, mas alterar a nossa estrutura está fora do nosso alcance, assim como podemos moldar apenas um pouco dos puzzles à nossa volta.
A questão que se coloca creio que é óbvia e aparente: como sabemos que encaixámos na peça certa? Como podemos sequer saber se tal existe? A meu ver a 2ª questão torna-se irrelevante quando pensamos na primeira. Entre tantas peças existentes, seria simplesmente impossível encontrarmos a peça certas, pelo que não interessa minimamente se ela existe. Acho que podemos perfeitamente encaixar nas peças que quisermos desde que o puzzle fique bonito.
Desengane-se quem achar que estou a falar de gajas: as "peças" a que me refiro podem ser tudo desde os nossos amigos, aos nossos passatempos, aquilo que comemos ou o sítio onde vivemos.
Apesar disto creio que não há dúvida que as férias são neste momento a "peça" certa para mim.

Filipe Baptista de Morais

terça-feira, 13 de julho de 2010

Falta de Brio

Há poucas semanas atrás foi notícia por aí fora que 75% dos estudantes universitários copiavam. Estas estatísticas, mais do que surpreendentes, são a meu ver incrivelmente tristes. Não é a falta de honestidade que me preocupa, a meu ver se ninguém é prejudicado (pelo menos à primeira vista) então desde que se sintam bem consigo próprios tudo bem. O que acho realmente preocupante é a falta de brio que está por trás do acto.
A meu ver o problema em copiar não está em revelar falta de conhecimentos ou estudo, tal combate-se facilmente. Mas a falta de brio é algo muito mais intrínseco e é portanto preocupante o seu nível de generalização. Se não queremos ter orgulho em nós próprios, como podemos esperar que os outros o façam?
Outro aspecto que me faz confusão é a perspectiva com que se olha a faculdade. Tanto quanto sei, não me inscrevi apenas para sair com um diploma, mas aprender os conhecimentos que ele supostamente subentende. Sendo assim parece-me parvo tentar "contornar" o sistema. Dá a ideia que o ideal era um gajo inscrever-se no curso e no dia seguinte ir lá buscar o canudo.
Temos 18,19, 20+ anos. Chega a uma altura em que temos de crescer.

Filipe Baptista de Morais

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Música do Coração

Todos sabemos quão espantoso pode ser o impacto de uma canção. Pode fazer uma pessoa reflectir, chorar, ou então pôr multidões aos berros e aos pulos. É assim totalmente desnecessário divagar sobre o poder que a música tem sobre as nossas emoções, visto ele ser tão óbvio e aparente.
O livro/filme "Alta Fidelidade" (já referenciado nestas bandas) levanta uma questão muito mais interessante: a correlação entre o nosso estado de espírito e o tipo de música que ouvimos. "Oiço música POP porque estou triste ou estou triste porque a oiço?" interroga-se o personagem principal que, se fosse real, certamente ficaria triste por não me recordar do seu nome. O auto aborda assim de uma forma muito interessante a reciprocidade entre música e emoções.
Curiosamente no meu caso passa-se um pouco o oposto (e não fosse eu do contra!), isto é, gosto de ouvir músicas mais mexidas quando estou em baixo e só oiço as mais calmas e tristes quando estou de facto alegre. Penso que a isto se chama psicologia invertida (os peritos que me perdoem a calinada se de tal se tratar). Claro que esta divergência surge de um acto racional, de tentar animar o espírito com música alegra quando se está mais em baixo o que justifica um pouco as minhas acções e mais uma vez prova o grande efeito que as canções provocam em nós.
Os leitores mais atentos provavelmente notaram a displicência e indiferença com que emprego os termos "música" e "canção". Não é que julgue serem a mesma coisa (12 anos numa escola de música sempre me foram ensinando umas coisitas) mas passa-se que, salvo raras excepções, músicas não cantadas ou sem letra não surtem grande efeito em mim. E quando surtem geralmente é por associação indirecta (ex: "For the Love of a Princess" faz-me sempre lembrar o filme "Braveheart"). Desculpem-me os amantes de música clássica e afins mas a maioria das sinfonias de Mozart e afins não me diz grande coisa.
Como somos todos capazes de pensar, interrompo aqui a minha pequena reflexão e convido o leitor a terminá-la para si mesmo.

Filipe Baptista de Morais
(28/06/2010)