Costuma-se dizer que estamos na era da informação. Afinal, ela está acessível rapidamente, vinda de todo o mundo e sob as mais diversas formas; jornais, rádio, televisão, internet, é só escolher. Curiosamente parece que também estamos numa época em que não queremos saber tanto quanto isso, contentamo-nos com os mínimos que nos permitem mandar uns bitates no café para parecermos minimamente instruídos. E isso reflecte-se, claro, na qualidade da informação disponível.
A análise a fundo de (qualquer) questão requer tempo, paciência e consequentemente disponibilidade. Para além do óbvio esforço intelectual. Tudo isto leva-nos a querer simplificar as coisas, na correria constante que são as nossas vidas. É assim muito mais simples - e comum - dizermos frases feitas e vazias com que toda a gente se identifique facilmente como "A guerra é má" ou "Os salários deviam ser mais altos". Não se tem em conta causas, consequências nem alternativas e assim se uniformizam opiniões, ao mesmo tempo que as despojam de fundamento.
A verdade do momento aparenta ser que "A maçonaria manda nisto tudo". Claro que ninguém sabe muito bem como. Nem porquê. De facto, a maioria - na qual infelizmente me incluo - nem sabe muito bem o que se deve entender por isto tudo, nem o que raio é a maçonaria. Mas lá está, isso não interessa a ninguém. O que interessa é que eles - sejam lá eles quem forem - mandam nisto - seja lá isso o que for - daquela maneira que eles lá sabem e com aquele determinado desígnio; isto toda a gente sabe, e chega para fazer a conversa de café.
Filipe Baptista de Morais
PS: Este post foi parcialmente inspirado pela excelente canção Spider's Web, da inigualável Katie Melua.
domingo, 22 de janeiro de 2012
quinta-feira, 12 de janeiro de 2012
O porquê do porquê
Há uns tempos li um texto que apregoava a existência de dois tipos de escritores, os que precisam de escrever e os que precisam de ser lidos. Depois lançava-se numa longa e imaginativa descrição dos dois, sendo que o primeiro se caracteriza essencialmente por uma extrema timidez e insegurança, enquanto que o segundo transpira arrogância e certezas. Pessoalmente não me identifico com nenhum dos dois, o que faz sentido já que dificilmente poderei ser considerado um escritor.
É claro que etiquetar milhões de pessoas em apenas duas classificações diferentes é um tremendo disparate. Felizmente as pessoas são mais complexas e interessantes do que isso. Esta patética tentativa não merece então muita atenção, visto o absurdo das suas assumpções. O que pode aqui ser merecedor de escrutínio é algo mais subtil, a tentativa de justificar desejos subconscientes.
Dizer que escrevemos porque precisamos sub-conscientemente de o fazer ou de ser lidos é necessariamente fruto de uma observação exterior, uma opinião se assim o quisermos, não por isso menos válida; a vida não é um problema de Matemática. Tentar explicar essa explicação já é uma dor de cabeça muito maior. Interpretar uma necessidade subconsciente parece uma tarefa impossível à partida, já que o seus resultados não são visíveis; não se trata de interpretar uma acção. Claro que se pode empregar ferramentas de análise empíricas e/ou estatísticas, mas estas podem revelar-se perigosamente ambíguas a estabelecer relações de causalidade. Mais, visto que o que podemos ver são as acções e daí pressupor o estado emocional do agente, corremos o risco de nos ver embrenhados numa cadeia de erros não tão curta assim. Penso por isso que não devemos esticar a corda. O porquê das coisas é mais do que suficiente para nos ocupar durante uma vida. Deixemos o porquê do porquê para os filósofos.
Filipe Baptista de Morais
É claro que etiquetar milhões de pessoas em apenas duas classificações diferentes é um tremendo disparate. Felizmente as pessoas são mais complexas e interessantes do que isso. Esta patética tentativa não merece então muita atenção, visto o absurdo das suas assumpções. O que pode aqui ser merecedor de escrutínio é algo mais subtil, a tentativa de justificar desejos subconscientes.
Dizer que escrevemos porque precisamos sub-conscientemente de o fazer ou de ser lidos é necessariamente fruto de uma observação exterior, uma opinião se assim o quisermos, não por isso menos válida; a vida não é um problema de Matemática. Tentar explicar essa explicação já é uma dor de cabeça muito maior. Interpretar uma necessidade subconsciente parece uma tarefa impossível à partida, já que o seus resultados não são visíveis; não se trata de interpretar uma acção. Claro que se pode empregar ferramentas de análise empíricas e/ou estatísticas, mas estas podem revelar-se perigosamente ambíguas a estabelecer relações de causalidade. Mais, visto que o que podemos ver são as acções e daí pressupor o estado emocional do agente, corremos o risco de nos ver embrenhados numa cadeia de erros não tão curta assim. Penso por isso que não devemos esticar a corda. O porquê das coisas é mais do que suficiente para nos ocupar durante uma vida. Deixemos o porquê do porquê para os filósofos.
Filipe Baptista de Morais
sexta-feira, 30 de dezembro de 2011
Books
Para quem gosta de ler, os livros são uma inesgotável fonte de entretenimento e aprendizagem. Claro que há muitos tipos de livros, e cada pessoa tem os seus géneros e autores favoritos. É engraçado notarmos o quanto os livros que lemos dizem sobre nós, sendo que muitas vezes eles próprios podem ser catalisadores de mudanças no leitor. É por isso comum apegarmo-nos aos livros que lemos, guardando-os como troféus.Mas infelizmente os troféus ocupam espaço, por vezes demasiado espaço. Tive por isso que extraditar muitos dos meus antigos livros, de modo a fazer espaço para outros. Foi neste contexto que me ocorreu que seria interessante fazer uma biblio-biografia, um alinhamento de livros marcantes por ordem cronológica, ainda que por vezes a memória faça algumas viagens no tempo. Esta tarefa seria muito interessante se fosse extensiva e pormenorizada, processo que levaria demasiado tempo e exigiria registos que não possuo. Ainda assim, não posso deixar de imaginar como seria maravilhoso ver o desenrolar de todos os títulos que uma pessoa leu, indicando a altura da leitura e o seu impacto. Penso que o resultado seria algo muito semelhante à prática exposta no filme "The Final Cut" (A Última Memória), que já agora aproveito para recomendar.
Os primeiros livros que me lembro de ler são as banda-desenhadas de Calvin & Hobbes; extremamente divertidas e por vezes também profundamente reflexivas foram a introdução perfeita para o mundo das leituras. Podem facilmente perceber o alcance da sua influência pelo título do meu blog, e pela sua explicação. Havia também uma colecção de BD da Disney, com as histórias em português nas páginas do lado esquerdo e a sua tradução do lado direito, uma ideia genial para ajudar as crianças a aprender a língua. A minha incursão pelo mundo das BDs prosseguiu com as revistas do Homem-Aranha, X-Men e Wolverine que coleccionava, ordenava e guardava religiosamente e agora não faço ideia onde estão.
Gradualmente o meu apetite pela literatura fantástica foi-se dispersando para o campo dos romances, tendo devorado com especial apetite os livros da colecção Via Láctea. Destes tenho que destacar Lobo Branco, que considero um dos melhores livros do género que já li; O Mistério de Alaizabel Cray, que na altura me inspirou imagens visuais extremamente nítidas, eu que geralmente ignoro as partes descritivas dos livros, e por fim os Guardiões da Noite/Dia/Crepúsculo, que lançam três perspectivas distintas do mesmo tema, questionando as etiquetas do bem e do mal de uma forma pouco comum em obras do género. Já agora menciono também Crónicas de Allaryia e A Dança de Pedra do Camaleão, obras que se destacam por serem de autores portugueses e pouco ou nada ficarem a dever às de origem estrangeira. O Senhor dos Anéis não ficaria fora de nenhuma lista que se preze, visto que por detrás dos livros estão não apenas histórias fragmentadas mas sim a criação de todo um novo Mundo, com História, Geografia e Línguas próprias.
Algures pelo meio da incursão pelo mundo fantástico deu-se a minha introdução ao suspense, através de O Assassinato de Roger Ackroyd, para mim ainda hoje o melhor livro policiar que já li. O Cão dos Baskerville também não podia ficar de fora, sendo em torno do mítico Sherlock Holmes que mais uma vez aparece para explicar o inexplicável. Em torno da mesma personagem, A Sabedoria dos Mortos explora os seus limites assim como os que separam o credível do fantástico, um pouco da semelhança das primeiras temporadas da popular série LOST.
Uma pequena menção a Os Maias, que para mim foram inigualavelmente dolorosos e inclusive me fizeram abandonar as leituras por uns tempos.
Numa fase em que comecei a interessar por psicologia e sociologia Não nos estamos a entender fez-me compreender porque não vale a pena tentar entender as mulheres, enquanto que Vencer com as Pessoas me relembrou que em qualquer área temos sempre coisas para aprender e melhorar, mesmo algo tão intuitivo e natural como os relacionamentos pessoais e profissionais. Certamente uma das obras mais marcantes que já li, Admirável Mundo Novo pôs em causa muitas das minhas crenças em relação ao rumo que a Humanidade deveria tomar.
Breve História de Quase Tudo faz jus ao seu nome, se considerarmos 484 páginas breve. Está cheio de factos e curiosidades interessantes, a maioria dos quais infelizmente já não retenho.
Para voltar ao género fantástico seriam precisas duas grandes (muito grandes mesmo, quase mil páginas) obras; Jonathan Strange & o Sr.Norrell cativou-me por enquadrar solenemente o fantástico no mundo real, resultando numa fascinante ficção histórica que é também notável pela verosimilhança das personagens e do tratamento que lhes é dado; já Dune é uma obra de ficção apenas comparável ao Senhor dos Anéis em termos de background fornecido. As suas conotações políticas e sociais também me deram que pensar.
Estado de Pânico veio recordar-me um dos mais importantes princípios do verdadeiro conhecimento e do método científico: questionar tudo. História fictícia justaposta sobre dados reais, semelhantes ao método empregado pelo tão aclamado Dan Brown, é capaz de tornar qualquer pessoa num céptico em relação ao aquecimento global.
Talvez influenciado pela faculdade, comecei a interessar-me mais pela ficção científica, onde são inúmeros os livros marcantes, tanto para mim como para a História da Literatura. Só para dizer alguns nomes, Eu, Robot e Sonham os andróides com ovelhas mecânicas? exploram sublimemente algumas questões éticas ligadas à robótica e à Ciência no general, assim como da condição humana, dando ao leitor muito em que pensar, enquanto que Fahrenheit 481 e Relatório Minoritário são dois exemplos do que o futuro nos reserva se as evoluções tecnológicas não forem olhadas com cuidado, assim como o seu potencial impacto social. Em ambos as obras notei um conceito de bem geral semelhante ao de Admirável Mundo Novo.
Um dos livros que mais me pesa não ter lido na versão original, Lolita é perturbadoramente belo na forma como consegue gerar empatia com um pedófilo, e na consciência que o mesmo tem de si próprio.
Nascidos Para Correr é um must para qualquer adepto de atletismo, seja amador ou profissional. Contextualizando o ser humano e a sua evolução enquanto animal, encontra-se repleto de factos biológicos que têm tanto de desconhecido como de fascinante, assim como de histórias impressionantes e motivadoras.
Num contexto em que os vampiros aparecem associados a ridículas séries e livros, Minha Besta (Uma História de Amor) veio com o seu humor mostrar que ainda são um tema que pode ser explorado com qualidade.
Para finalizar, Portugal na hora da verdade veio como que fruto da actual situação de crise nacional e internacional, assim como a minha (algo patética) tentativa de melhor as compreender.
Estes foram os títulos que me ocorreram, hoje, de caneta na mão e papel à frente. Provavelmente se escrevesse isto para o ano os nomes seriam outros. Talvez assim os livros escolhidos representem não só um pouco do que fui como também do que sou agora.
Filipe Baptista de Morais
sábado, 24 de dezembro de 2011
O melhor possível
Pedro Boucherie Mendes acredita que "o que é mais motivo de orgulho nacional são aquelas pessoas que conseguem ser os melhores alunos das suas turmas, independentemente de terem 6 anos de idade, ou 18 ou 20 ou 25". Pessoalmente, não me identifico muito com esta ideia. Em primeiro lugar porque ser o melhor a aprender não é propriamente aquilo de que precisamos. Aprender, pelo menos neste conceito escolar, aparece sempre ligado a coisas que já existem, que já são sabidas; ora que é preciso é fazer e descobrir coisas novas, como esta recente ânsia pelo empreendedorismo apregoa tão acertadamente. Claro que não se faz o novo sem saber o velho, mas a relação não implica a causalidade, que de facto não existe. Outro ponto premente é o facto da expressão "o melhor da turma" implicar um nível de competitividade que, a meu ver, ultrapassa o saudável e revela-se um pouco obsessivo.
Nas mesmas declarações, Mendes especificou estar a falar de "pessoas que não deixam de acreditar que devem ser sempre o melhor possível naquilo que fazem". Proferido na sequência da ideia anterior, este discurso parece-me a mim uma necessária e apropriada correcção. Creio que temos que apontar a ser melhores, em oposição a os melhores. Isto parece-me uma ambição mais saudável, já que não exclui um trabalho colectivo para atingir os seus fins. Nem todos podemos ser os melhores e um objectivo tão relativo pode levar a dissabores ainda que estejamos a sair-nos lindamente. Também pode suceder o inverso, isto é, o nível geral ser tão mau que nos satisfazemos com a nossa mediocridade. Não, superar-nos continuamente é sempre melhor do que tentar superar os outros. Enquanto praticamente amador de atletismo acho que consigo perceber com mais clareza quão diferentes são os dois conceitos.
Nessa diferença reside ainda um ponto fulcral já abordado neste blog; o brio. Por vezes parece que tudo o que fazemos é para superar ou agradar a outros. Então onde param as nossas expectativas, os nossos objectivos, as nossas exigências? É a exigir mais de nós mesmo que conseguimos superar-nos e ser melhores pessoas, ou simplesmente melhores numa coisa qualquer. Já o filósofo grego Epicuro dizia "Faz tudo como se alguém te contemplasse". A meu ver, é precisamente esta ideia de que apenas nos esforçamos para fazer o que está certo ou para melhorarmos quando alguém nos está observar que é preciso combater. Mais do que a ideia, é preciso mostrar que isso é mentira. Toda a motivação de que precisamos está dentro de nós próprios, e tentaremos sempre fazer o melhor possível.
Filipe Baptista de Morais
Nas mesmas declarações, Mendes especificou estar a falar de "pessoas que não deixam de acreditar que devem ser sempre o melhor possível naquilo que fazem". Proferido na sequência da ideia anterior, este discurso parece-me a mim uma necessária e apropriada correcção. Creio que temos que apontar a ser melhores, em oposição a os melhores. Isto parece-me uma ambição mais saudável, já que não exclui um trabalho colectivo para atingir os seus fins. Nem todos podemos ser os melhores e um objectivo tão relativo pode levar a dissabores ainda que estejamos a sair-nos lindamente. Também pode suceder o inverso, isto é, o nível geral ser tão mau que nos satisfazemos com a nossa mediocridade. Não, superar-nos continuamente é sempre melhor do que tentar superar os outros. Enquanto praticamente amador de atletismo acho que consigo perceber com mais clareza quão diferentes são os dois conceitos.
Nessa diferença reside ainda um ponto fulcral já abordado neste blog; o brio. Por vezes parece que tudo o que fazemos é para superar ou agradar a outros. Então onde param as nossas expectativas, os nossos objectivos, as nossas exigências? É a exigir mais de nós mesmo que conseguimos superar-nos e ser melhores pessoas, ou simplesmente melhores numa coisa qualquer. Já o filósofo grego Epicuro dizia "Faz tudo como se alguém te contemplasse". A meu ver, é precisamente esta ideia de que apenas nos esforçamos para fazer o que está certo ou para melhorarmos quando alguém nos está observar que é preciso combater. Mais do que a ideia, é preciso mostrar que isso é mentira. Toda a motivação de que precisamos está dentro de nós próprios, e tentaremos sempre fazer o melhor possível.
Filipe Baptista de Morais
quinta-feira, 1 de dezembro de 2011
Determinação
Nunca desistir é um traço que muitos afirmam ter mas a que poucos correspondem. É também sempre um pouco exagerado, já que nunca é um conceito demasiado absoluto para se aplicar nestas situações e tem de ser relativisado. O próprio conceito de desistência pode revelar-se extremamente subjectivo; afinal, onde se faz a fronteira entre o desistir e o ser derrotado?
A essência do desistir está na admissão da derrota, na aceitação de que fomos superados e não conseguimos vencer. Claro que esta derrota, certa como o destino aos nossos olhos, nunca o é realmente. Apenas a determinamos com a nossa falta de persistência. O que o nosso cérebro está a fazer, ainda que por vezes inconscientemente, é gestão de esforço. Confrontado com tão poucas chances de triunfar, decide que mais vale pouparmo-nos o esforço de sequer tentar. Faz sentido?
Claro que sim, já que o mais provável seria não atingirmos o nosso objectivo de qualquer maneira, diferindo da desistência somente por uma maior exaustão.
Porquê, então, lutar até ao fim? Bom, em primeiro lugar porque não somos tão espertos quanto julgamos. Por vezes avaliamos mal as situações, e desistimos quando estamos a um pequeno passo de sermos bem sucedidos. Outra importante motivação é a de prevenir a angústia da dúvida. Embora no nomento saiba sempre bem desistir e descansar, posteriormente não deixaremos de nos perguntar E se? Por último, a eternidade do sucesso face à efemeridade do fracasso. Pode muito bem ser que, ao tentar aquele último esforço, fracassemos 999 em cada mil vezes. E ficamos cansados e abatidos, ainda que de consciência tranquila, durante uma semana ou duas. Mas não são esses fracassos que nos vão ocupar a mente passada uma década. Não, passado tanto tempo vamo-nos recordar apenas daquela única vez em que, quando tudo parecia perdido, nos re-erguemos dos destroços e rumámos à vitória. Os maiores feitos são os mais difíceis e improváveis, e são também os mais memoráveis. Nunca desistam.
Filipe Baptista de Morais
A essência do desistir está na admissão da derrota, na aceitação de que fomos superados e não conseguimos vencer. Claro que esta derrota, certa como o destino aos nossos olhos, nunca o é realmente. Apenas a determinamos com a nossa falta de persistência. O que o nosso cérebro está a fazer, ainda que por vezes inconscientemente, é gestão de esforço. Confrontado com tão poucas chances de triunfar, decide que mais vale pouparmo-nos o esforço de sequer tentar. Faz sentido?
Claro que sim, já que o mais provável seria não atingirmos o nosso objectivo de qualquer maneira, diferindo da desistência somente por uma maior exaustão.
Porquê, então, lutar até ao fim? Bom, em primeiro lugar porque não somos tão espertos quanto julgamos. Por vezes avaliamos mal as situações, e desistimos quando estamos a um pequeno passo de sermos bem sucedidos. Outra importante motivação é a de prevenir a angústia da dúvida. Embora no nomento saiba sempre bem desistir e descansar, posteriormente não deixaremos de nos perguntar E se? Por último, a eternidade do sucesso face à efemeridade do fracasso. Pode muito bem ser que, ao tentar aquele último esforço, fracassemos 999 em cada mil vezes. E ficamos cansados e abatidos, ainda que de consciência tranquila, durante uma semana ou duas. Mas não são esses fracassos que nos vão ocupar a mente passada uma década. Não, passado tanto tempo vamo-nos recordar apenas daquela única vez em que, quando tudo parecia perdido, nos re-erguemos dos destroços e rumámos à vitória. Os maiores feitos são os mais difíceis e improváveis, e são também os mais memoráveis. Nunca desistam.
Filipe Baptista de Morais
domingo, 20 de novembro de 2011
A União Faz a Força
É espantoso o que se consegue fazer ao juntar várias pessoas. Pessoa dizia "Deus quer, o Homem sonha, a Obra nasce." Acho que poderíamos adicionar que quando o Homem sonha em conjunto nascem Obras maravilhosas. Seja pela adição de força física, creatividade, conhecimentos ou simplesmente pelo facto que duas pessoas trabalham (geralmente) mais rápido que uma, a verdade é que os grandes feitos tendem a ser realizados em equipa. Talvez isso explique a naturaza social do ser humano, assim então uma simples característica que prevaleceu por selecção natural. Ou talvez deus apenas quisesse que fossemos todos amigos.
A União faz, portanto, a Força. Mas e o que faz a União? Em primeiro lugar, felicidade. Pessoas contentes e que partilhem as razões para esse contentamento têm tendência a unir-se para partilhar, fazer parte e perpeturar (d)essa felicidade. Outra possibilidade é a luta por uma causa em comum. Principalmente se exister um líder oratoriamente dotado que transforme causas não tão comuns assim em factores de união aos olhos dos seus ouvintes. E por último temos a infelicidade. O descontentamento extremo tende a unir os que o sentem na luta por melhorias, ainda que por vezes as causas do mesmo não estejam sequer relacionadas levando, portanto, a uma pobre escolha de alvo(s) para essa expressão de descontentamento.
Seja porque razão for, é sempre interessante ( ainda que nem sempre bonito) ver grandes uniões. Dou como exemplo o último jogo da Selecção Nacional. Tendo assistido ao vivo, posso garantir que é absolutamente fascinante ouvir 50000 pessoas gritar por Portugal a uma voz. Sense-te o seu entusiasmo. Sente-se a sua União. Sente-se o seu Poder. Curioso que apenas o futebol, os festivais de música e as manifestações contra o governo consigam juntar tantas pessoas.
Filipe Baptista de Morais
A União faz, portanto, a Força. Mas e o que faz a União? Em primeiro lugar, felicidade. Pessoas contentes e que partilhem as razões para esse contentamento têm tendência a unir-se para partilhar, fazer parte e perpeturar (d)essa felicidade. Outra possibilidade é a luta por uma causa em comum. Principalmente se exister um líder oratoriamente dotado que transforme causas não tão comuns assim em factores de união aos olhos dos seus ouvintes. E por último temos a infelicidade. O descontentamento extremo tende a unir os que o sentem na luta por melhorias, ainda que por vezes as causas do mesmo não estejam sequer relacionadas levando, portanto, a uma pobre escolha de alvo(s) para essa expressão de descontentamento.
Seja porque razão for, é sempre interessante ( ainda que nem sempre bonito) ver grandes uniões. Dou como exemplo o último jogo da Selecção Nacional. Tendo assistido ao vivo, posso garantir que é absolutamente fascinante ouvir 50000 pessoas gritar por Portugal a uma voz. Sense-te o seu entusiasmo. Sente-se a sua União. Sente-se o seu Poder. Curioso que apenas o futebol, os festivais de música e as manifestações contra o governo consigam juntar tantas pessoas.
Filipe Baptista de Morais
sexta-feira, 11 de novembro de 2011
Aleatório...ou não
É certo e (talvez não tão) sabido que os seres humanos não são grande espingarda a gerar sequências aleatórias. Isto no fundo é natural: é relativamente estúpido pensar em como geral algo que é aleatório, seria como pensar em não pensar. Também é engraçado perceber como somos maus a detectar essas mesmas sequências, o que seria de esperar que fosse mais simples.
Creio que isto se relaciona e se reflecte numa característica humana muito mais interessante: a dificuldade em ser conscientemente casual/natural. De facto parecemos estar mais uma vez confrontados com o mesmo dilema; agir casualmente implica exactamente agir sem pensar muito no assunto. Mas isso não explica que não consigamos agir casualmente de propósito. Parece intuitivo que, ao pensar no assunto, os resultados seriam melhores ou, quanto muito, iguais. Mas todos sabemos que não é esse o caso. Isto também se pode dever a outro facto totalmente diferente: a indefinição do que é realmente casual/natural. O que é à primeira vista totalmente óbvio pode revelar-se extremamente complexo após um escrutínio minucioso, complexidade essa que poderia então justificar a nossa capacidade de abordar racionalmente o problema.
Voltando um pouco atrás, faz sentido demorarmo-nos um pouco numa questão que ficou pendente: como se reconhece uma sequência gerada aleatoriamente? De facto, considerando resultados independentes e equiprováveis, todas as sequências são portanto equiprováveis e, logo, igualmente válidas. Parece então um pouco estúpido da minha parte (bom, da parte deles na verdade) dizer que não somos bons a gerar ou reconhecer sequências aleatórias. Seria como as pessoas que teimam na sua opinião de que não se deve apostar {1,2,3,4,5} no totoloto ou euromilhões porque sequências desse género nunca acontecem*. Mas, na verdade, há certas propriedades que (probabilisticamente) uma sequência de números aleatórios deve cumprir. Estranho não é, atribuir propriedades a algo completamente aleatório? Bom, se pensarmos bem, a aleatoriedade pode ser vista como uma propriedade, que por sua vez se reflecte em várias outras. Analisando sequências de sequências (só para confundir mais um pouco) essas propriedades tornam-se ainda mais preementes. E nós, geralmente, não as satisfazemos. Mas claro, é tudo uma questão probabilística.
*Na verdade, apesar de a probabilidade de saída de qualquer sequência de números ser igual, isso não as torna igualmente boas. Isto porque o prémio é dividido por todos os vencedores, e portanto é pior apostas nas sequências que as pessoas escolhem com mais frequência. Mais uma vez, tentar conscientemente contornar isto irá provavelmente piorar a situação. Podemos sim, evitar sequências tremendamente óbvias como {1,2,3,4,5} ou, pior ainda, a popular {4,8,15,16,23,42} (tornada famosa pela série LOST). Apostando numa sequência deste género, arriscamo-nos a ganhar um fabuloso primeiro prémio de 30cêntimos. O melhor é, claro, gerar os números aleatoriamente (ou "aleatoriamente"**) num computador.
** Aleatoriamente é algo que não faz qualquer sentido para um computador. Estas gerações são, isso sim, realizadas através de funções (determinísticas) que, pegando num valor inicial (chamado "seed"), o transformam noutro completamente diferente. Claro que se usarmos repetidamente a mesma "seed" obtemos sempre os mesmos números. Usam-se portanto "seeds" variáveis, sendo uma escolha comum a data actual (geralmente ao nível dos milisegundos).
Creio que isto se relaciona e se reflecte numa característica humana muito mais interessante: a dificuldade em ser conscientemente casual/natural. De facto parecemos estar mais uma vez confrontados com o mesmo dilema; agir casualmente implica exactamente agir sem pensar muito no assunto. Mas isso não explica que não consigamos agir casualmente de propósito. Parece intuitivo que, ao pensar no assunto, os resultados seriam melhores ou, quanto muito, iguais. Mas todos sabemos que não é esse o caso. Isto também se pode dever a outro facto totalmente diferente: a indefinição do que é realmente casual/natural. O que é à primeira vista totalmente óbvio pode revelar-se extremamente complexo após um escrutínio minucioso, complexidade essa que poderia então justificar a nossa capacidade de abordar racionalmente o problema.
Voltando um pouco atrás, faz sentido demorarmo-nos um pouco numa questão que ficou pendente: como se reconhece uma sequência gerada aleatoriamente? De facto, considerando resultados independentes e equiprováveis, todas as sequências são portanto equiprováveis e, logo, igualmente válidas. Parece então um pouco estúpido da minha parte (bom, da parte deles na verdade) dizer que não somos bons a gerar ou reconhecer sequências aleatórias. Seria como as pessoas que teimam na sua opinião de que não se deve apostar {1,2,3,4,5} no totoloto ou euromilhões porque sequências desse género nunca acontecem*. Mas, na verdade, há certas propriedades que (probabilisticamente) uma sequência de números aleatórios deve cumprir. Estranho não é, atribuir propriedades a algo completamente aleatório? Bom, se pensarmos bem, a aleatoriedade pode ser vista como uma propriedade, que por sua vez se reflecte em várias outras. Analisando sequências de sequências (só para confundir mais um pouco) essas propriedades tornam-se ainda mais preementes. E nós, geralmente, não as satisfazemos. Mas claro, é tudo uma questão probabilística.
*Na verdade, apesar de a probabilidade de saída de qualquer sequência de números ser igual, isso não as torna igualmente boas. Isto porque o prémio é dividido por todos os vencedores, e portanto é pior apostas nas sequências que as pessoas escolhem com mais frequência. Mais uma vez, tentar conscientemente contornar isto irá provavelmente piorar a situação. Podemos sim, evitar sequências tremendamente óbvias como {1,2,3,4,5} ou, pior ainda, a popular {4,8,15,16,23,42} (tornada famosa pela série LOST). Apostando numa sequência deste género, arriscamo-nos a ganhar um fabuloso primeiro prémio de 30cêntimos. O melhor é, claro, gerar os números aleatoriamente (ou "aleatoriamente"**) num computador.
** Aleatoriamente é algo que não faz qualquer sentido para um computador. Estas gerações são, isso sim, realizadas através de funções (determinísticas) que, pegando num valor inicial (chamado "seed"), o transformam noutro completamente diferente. Claro que se usarmos repetidamente a mesma "seed" obtemos sempre os mesmos números. Usam-se portanto "seeds" variáveis, sendo uma escolha comum a data actual (geralmente ao nível dos milisegundos).
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